Blog que retrata os acontecimentos do mar e porto de Viana e arredores, nos bons e maus momentos, dos pequenos aos grandes senhores.

25
Ago 17

É o título de um livro de minha autoria, que foi lançado no passado dia 15 de julho.

Curiosamente, este ano, os moradores da Rua Frei Bartolomeu dos Mártires (antiga rua do Leite), resolveram enfeitar a rua por ocasião da Romaria da Senhora da Agonia, com motivos alusivos aos naufrágios mais notórios que ocorreram no século XX em que intervieram marítimos do bairro da Ribeira de Viana, tão martirizada foi nesse século.

Registei em imagens alguns desses retábulos representativos dessas tragédias, com que os atuais moradores quiseram homenagear os seus mortos e que pretendem simbolizar os estados de alma das gentes que viveram esses acontecimentos funestos.

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O farol símbolo da orientação e apoio que dá aos homens do mar.

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A Senhora da Agonia a quem imploram em momentos de crise.

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Cristo pregado na cruz, outro símbolo da fé cristã, que carateriza as gentes do mar e a ele ligadas.

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Frei Bartolomeu dos Mártires, o santo de Viana e dos marítimos que a ele imploravam ainda em vida para acalmar o mar.

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Imagem do Sagrado Coração de Jesus, outra devoção enraizada nas martirizadas gentes da Ribeira.

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É o nome de um barco de pesca em que morreram sete infelizes pescadores, cuja memória perdorou por muitos anos até que outra mais grave veio fazer esquecer.

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Em memória dos que pereceram no naufrágio do salva-vidas «Ferreira do Amaral», quando assistia na entrada os barcos de pesca. Foram eles o mestre César e os marinheiros Mário Marques da Guia e António de Passos Pacheco, tendo-se salvado únicamente o motorista João Alves Viana.

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A tragédia do rebocador «Rio Vez», que trazia de Leixões um batelão a reboque, submergiu na barra, levando com ele para o fundo os seus oito tripulantes, salvando-se apenas os três tripulantes do batelão que entretanto deu à praia.

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Este barco da Ribeira de Viana, governado pelo arrais José Verde Gonçalves Lomba, foi vítima de abalroamento provocado pelo navio mercante norueguês «Bayard» em que pereceram 5 tripulantes, entre eles o arrais, salvando-se os restantes seis com a ajuda do barco «Virgem das Graças» que os trouxe para Viana.

Muitos outros foram vítimas de naufrágios. No livro com o título acima, que poderão encontrar na loja do CER no largo do Instituto Histórico do Minho, ao lado da Sé de Viana ou através dos endereços estudosregionais@sapo.pt ou livraria@cer.pt , encontrarão outros naufrágios e mais pormenores sobre estes acontecimentos trágicos ocorridos nos séculos XIX e XX no «MAR DE VIANA».

 

publicado por dolphin às 16:04

13
Ago 17


No dia 15 de julho de 2017, apresentei o meu terceiro livro sobre temas marítimos, no Centro de Mar, situado na face de ré do navio Gil Eannes.

O ato foi muito concorrido e contou com a presença do Sr. Presidente da Câmara Municipal de Viana do Castelo.

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 A apresentação abriu com dois trechos musicais brilhantemente interpretados ao violino pela Dra. Beatriz Barbosa, maestrina do Grupo Coral da Academia Sénior do Centro de Estudos Regionais, calorosamente aplaudida.

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 Seguidamente um grupo de três senhoras interpretaram a sátira medieval – As lavadeiras – da autoria de José Carlos Rego Meira, com algumas referências alusivas ao mar e muito a propósito, muito saudadas pelo público presente.

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 O Dr. José Carlos Loureiro, Presidente do Centro de Estudos Regionais e autor do prefácio, apresentou o livro Naufrágios no «Mar de Viana», saudando o Sr. Presidente da Câmara, o autor e o público presente, fazendo uma breve resenha da obra ora apresentada.

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 Seguiu-se na palavra o autor que leu o texto seguinte:

 

Quando há 43 anos, nos mares gelados da Terra Nova, naufraguei com o penúltimo navio da pesca à linha – o São Jorge da praça de Aveiro, o último, o Novos Mares, ficou para nos salvar – jamais imaginei que um dia tivesse coragem para escrever sobre naufrágios, como aconteceu com este livro que trago à estampa para memória futura, mas, sobretudo, para homenagear todos aqueles que foram vítimas de naufrágios, especialmente os familiares dos náufragos que pereceram.

O sofrimento pela perda de alguém que nos é muito querido, que brota da sensibilidade de cada um, é enorme. A perda do irmão, do pai, do marido, do filho, do amigo é inqualificável.

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 Uma mãe que perde um filho que trouxe no ventre durante 9 meses, saiu das suas entranhas, acarinhou e amamentou no berço, deve ter uma dor inimaginável, para mais quando o cadáver teima em não aparecer como acontece na maioria dos casos. Outras vezes, nem sequer aparece e, se aparece, vem irreconhecível. É um penar dias e dias infindáveis.

Uma esposa que tinha no marido o amor da sua vida e o sustento dos seus filhos, fica destroçada e sente-se sem forças para lutar pela sua sobrevivência e dos seus filhotes, algumas vezes ainda no ventre, outras, recém-nascidos.

Um pai, que tantas esperanças depositou no filho, dele vir a ser um continuador da profissão e, quem sabe, melhor ainda do que ele, fica inconsolável e revoltado com esse mar impiedoso e traiçoeiro que lhe tragou o filho ainda jovem.

O irmão das brincadeiras de criança, das partilhas e confidências mais íntimas da juventude, dos amores que se tem vergonha de contar aos pais. Aquele irmão que estava sempre presente para o melhor e para o pior. Esse irmão sente-se só, abandonado, sem ânimo para prosseguir e com medo do mesmo lhe vir a suceder.

O amigo, o verdadeiro, que ia beber um copo à taberna da esquina (ao Tone Bento, à Zefa, e a tantas outras tabernas e cafés que existem por esse bairro da Ribeira de Viana), ficou sem companheiro para partilhar as anedotas e discutir os últimos resultados da bola, ficou sorumbático e mudo, sem conseguir articular palavra, incrédulo, a pensar na sorte que está subjacente ao pescador, ao marinheiro, ao maquinista, ao imediato, ao capitão, a todos aqueles que andam por sobre as águas do mar.

Só para terem uma ideia das tragédias que na década de 60 do século passado abalaram a martirizada comunidade da Ribeira de Viana, vou enumerar apenas as 8 mais trágicas:

Em 1960, ainda não esquecida a tragédia que no ano anterior tinha vitimado 7 tripulantes do barco de pesca «Arrogante», deu-se o desastre do salva-vidas «Ferreira do Amaral» em que pereceu o mestre César e dois marinheiros durante a missão de salvamento. No ano de 1963 foi a tragédia do barco de pesca com o nome do Beato Frei Bartolomeu dos Mártires, que foi vítima de naufrágio ceifando a vida a 8 pescadores …anda a morte no mar… dizia o redator da «A Aurora do Lima». A meio da década, em 1965 outro acidente trágico acontecia na barra de Viana com o rebocador «Rio Vez», procedente de Leixões, com um batelão a reboque, morrendo todos os oito tripulantes, salvando-se apenas os três tripulantes do batelão – temos a honra de termos hoje aqui presente um desses sobreviventes, o sr. João Trindade Lopes. Ainda em 1965 deu-se o afundamento do barco de pesca «Pérola de Peniche» que levou consigo os três tripulantes. Dois anos depois, em 1967, deu-se a tragédia da Amorosa que apanhou de surpresa grande número de pessoas e crianças que se encontravam naquela praia. Ao todo 8 desaparecidos nas ondas, 8 receberam tratamento hospitalar tendo 4 ficado internados e outros 4 receberam tratamento. No ano seguinte, a Ribeira de Viana voltava a ficar orfã de mais 5 tripulantes do barco de pesca «Jorge Jesus» - temos entre nós um sobrevivente, o Jober que escapou às garras do oceano, como ele descreve no último capítulo do livro, e também o Graciano por ter sido mandrião e ficado a dormir. Ainda não tinha terminado a década e no ano de 1969, não foi um, mas dois acidentes. O primeiro foi o afundamento do navio espanhol «Hermanos Manterola», a 3 milhas do Castelo do Neiva que vitimou 3 tripulantes; o segundo foi a morte de um pescador do barco «Nova Rainha Santa Isabel» na barra de Viana.

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Foi uma década fatídica que registou 26 acidentes, em 8 dos quais tiveram morte trágica 39 pessoas. Felizmente que nos outros 18 sinistros não houve vítimas a registar.

Confinados a este recanto da Europa, os portugueses sempre tiveram o mar como evasão e destino. Ao longo dos séculos pereceram a bordo de navios portugueses, centenas, milhares de homens que tiveram como tumba o mar, desde os descobrimentos até aos nossos dias.

É possível que haja mais, mas só conheço uma localidade da costa portuguesa onde existe um monumento que perpetua a memória daqueles que o mar tragou na sua fúria assassina – Caxinas em Vila do Conde.

Viana, terra de marinheiros e pescadores, tem na sua história trágico-marítima muitas centenas, senão milhares de náufragos. Deixo aqui um apelo à autarquia para numa próxima oportunidade ponderar erigir um monumento que simbolize e perpetue a memória de todos aqueles que o mar vitimou.

PORQUÊ ESTE LIVRO?

Quando há 8 anos atrás fazia pesquisas para o livro «Pilotos da barra de Viana – 100 anos de história (1858-1958)» no jornal «A Aurora do Lima», deparei com inúmeras notícias de naufrágios ocorridos na costa Norte de Portugal. Comecei, então, por prestar mais atenção aos acontecimentos marítimos em geral e não só aquilo que buscava encontrar sobre os pilotos da barra.

Desde 1855, (ano do nascimento deste prestigioso órgão de informação regional, que se tornou na maior fonte histórica de Viana até aos dias de hoje, que é necessário preservar), colhi vasta informação que me permitiu cruzar com outras fontes, para obter os trabalhos que tenho trazido ao vosso conhecimento.

O facto de ter sido náufrago (já lá vão 43 anos) constituiu também um impulso para escrever sobre naufrágios e trazer a lume momentos de tragédia e infortúnio vividos pelos sobreviventes e seus familiares, tantas vezes esquecidos e ignorados daqueles que desconhecem a vida árdua do marítimo, em confronto com forças tão adversas e incontroláveis.

Acresce ainda o facto de ser do meio e aperceber-me que não existe quem escreva sobre esta classe tão desprotegida e abandonada à sua sorte. Por outro lado, era necessário aproveitar os depoimentos daqueles que sofreram acidentes no mar e que ainda aí estão para os contar, como o fizeram com agrado neste livro e que fica para memória futura. Para eles vai o meu agradecimento pela paciência que tiveram em me aturar.

 

O livro é uma compilação de naufrágios e acidentes ocorridos ao longo de mais de 150 anos na costa Norte de Portugal, na zona geográfica que vai da Foz do Rio Minho aos Cavalos de Fão, um pouco a Sul da Foz do Cávado, a que os pescadores chamam de «Mar de Viana», por ser a área de autonomia das suas embarcações em tempos mais recuados, quando a navegação era à vela ou a remos, progressivamente alargada com a introdução do motor às embarcações.

Não se trata exclusivamente de sinistros ocorridos com embarcações de pesca, embora grande percentagem lhe seja devida, mas também à navegação comercial que passa ao longo da costa ou que vem em demanda dos portos de Viana e Leixões e durante a aproximação a terra encontraram baixios ou forças adversas (vento e mar) que os traíram e motivaram o naufrágio.

Este é um resumo muito sintético do livro que hoje vos apresentamos. Ele aí está. Desfrutem-no.

Resta-me agora agradecer: - Ao CER na pessoa do seu Presidente Dr. José Carlos Loureiro que desde a primeira hora apoiou e impulsionou a edição deste livro; à CMVCastelo, na pessoa do Sr. Presidente, Eng.º José Maria Costa que estimulou e patrocinou esta edição; aos náufragos sobreviventes cujos depoimentos muito engrandeceram esta monografia; aos atores, declamadores, encenadores, músicos e outros que animaram esta ato; ao dr. Rui Carvalho e sua equipa que projetaram e executaram o design gráfico deste livro; por último, e mais uma vez à Câmara Municipal, na pessoa da Eng.ª Leonor Cruz, responsável pelo Centro de Mar e sua equipa, pela forma como apoiaram esta iniciativa desde o primeiro momento, pondo ao dispor os meios necessários para que tudo corresse bem e, naturalmente grato a todos vós pela vossa presença.

O meu muito obrigado a todos.

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 Depois da minha intervenção e antes do encerramento pelo Sr. Presidente da C.M.V. do Castelo, assistimos a um momento de poesia, com duas poesias belissimamente declamadas pelo amigo Sr. Manuel Alberto Folgado da Silva - um soneto de seu pai Baptista da Silva e outra de Miguel Torga, acompanhado à guitarra clássica pelo multifacetado Sr. Rego Meira.

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O Sr. Presidente da Câmara encerrou o evento agradecendo ao autor o ter abordado um tema tão pungente e pesaroso, mas real na vida das comunidades marítimas.

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 O livro foi editado pelo CER – Centro de Estudos Regionais e encontra-se à venda na sede – Largo do Instituto Histórico do Minho, ao lado da Matriz de Viana, aberta todos os dias das 14:00 às 17:00 e às 3.ª e 6.ª das 09:00 às 12:00. Também pode ser pedido on-line através dos mails:  estudosregionais@sapo.pt ou geral@cer.pt ou ainda livraria@cer.pt  

 

 

publicado por dolphin às 12:27

25
Jun 16

 

Graças ao empenho da minha amiga Armanda Santos, uma das intérpretes, acabo de assistir à última sessão extra da primeira encenação da peça «Anjo Branco», exibida a bordo do navio-museu «Gil Eannes».

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A divulgação do evento foi tão boa que os bilhetes para as três sessões programadas para os dias 22,28 e 29 de maio esgotaram rapidamente. Ainda bem que a organização resolveu efectuar duas sessões extra nos dias 4 e 5 de junho, de contrário não teria oportunidade de assistir e rever momentos hilariantes e dramáticos, alguns que me fizeram humedecer os olhos de emoção e comoção.

As actrizes e atores das oficinas de teatro Ativa Júnior, Ativa Sénior, Enquanto Navegávamos e do Teatro do Noroeste – CDV, estão de parabéns pela forma como souberam dar vida às cenas comoventes que recriaram sobre a vida a bordo de navios bacalhoeiros da pesca à linha e a bordo do Gil Eannes, bem como a alegria das idas a St. John’s.

A criação artística esteve a cargo do encenador inglês Graeme Pulleyin que soube interpretar e transpor para cena com humor, caso das passagens da cozinha ou das idas a terra ou com dramatismo e angústia as cenas da casa da máquina, da capela, da enfermaria e a memória de Bernardo Santareno nas interpretações do convés. Por esta maravilhosa e comovente encenação os meus parabéns.

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 A todas as pessoas que direta ou indirectamente contribuíram para por em cena esta peça que retrata duma forma fidedigna, quase real, a vida dura da pesca do bacalhau à linha, igualmente os meus parabéns.

Por último quero fazer um repto: quando houver oportunidade levem de novo à cena esta peça. É uma forma de transmitir às gerações vindouras a memória da pesca do bacalhau, que tanto engrandeceu Viana, apesar das agruras por que passaram os verdadeiros intérpretes – os pescadores.

Viana do Castelo, 2016-06-05

Manuel de Oliveira Martins

maolmar@gmail.com

publicado por dolphin às 22:45

06
Fev 16

 

 

Quando jovens ansiamos que o tempo passe rápido. Recordo-me como queria que o Natal chegasse depressa. É em dezembro que faço anos, ficava um ano mais velho, mas, as prendas no sapatinho, a festa em família, deslumbravam-me e marcaram sem dúvida (e ainda marcam) a minha relação com o tempo.

À medida que os anos foram passando a dimensão temporal foi-se modificando consoante as circunstâncias.

Primeiro foram os estudos. Quando começava o ano escolar pensava que ainda faltava tanto tempo até ao final do ano; quando faltava um mês para os exames desejava que o tempo esticasse a fim de ter tempo de rever matérias que tinha descuidado no tempo próprio.

 A ânsia de terminar o curso e começar a trabalhar para ganhar dinheiro e não depender dos pais, foi outra época que passou na minha vida.

Os objectivos sociais superam o tempo: casamento, nascimento do 1.º filho, do segundo…, surgem os compromissos com a educação deles, a procura da estabilidade financeira, sucessões de comprometimentos que levam o tempo a escassear.

A epidemia da nossa sociedade é a fome de tempo, cada vez temos menos tempo para deixarmos fluir o nosso Eu – o tempo metafísico – em que a verdade conquista o tempo.

Quando menos esperamos passou-se uma vida, vem a aposentação e, habituados a consumir o tempo (ou a sermos consumidos por ele) não sabemos o que fazer com ele e damos por nós a procurar formas de passar o tempo cada um à sua maneira e segundo a sua consciência temporal.

Tentamos enganar o tempo (ou nos enganarmos), com ócio ou com trabalho, na ilusão de ficarmos com a sensação que o tempo passa depressa, mas já não queremos que passe, vivemos com ansiedade quando devíamos viver em paz e com serenidade.

Vivemos uma vida a enganar o tempo, não permitindo que ele flua naturalmente, sem pressões nem medos que só nos criam tensões que o nosso organismo não aguenta (daí as doenças). É costume dizer-se que as mazelas surgem no fim da vida, é um facto, são fruto das tensões acumuladas que o organismo não conseguiu expurgar por que já lhe falta a força com que foi enganando o tempo.

Muitas vezes, quando o tempo está bom, vejo o senhor Joaquim Ribeiro, um anfitrião com 104 anos, (se fosse vivo o meu pai teria a mesma idade) que admiro e respeito, a caminhar no molhe da Praia Norte e penso: - este senhor não enganou o tempo, deixou que ele fluísse naturalmente, sem tensões nem medos que o afetassem. Se o meu pai não tentasse enganar o tempo devido às pressões, angústias e receios, motivados pelas contingências da vida, ainda hoje poderia estar vivo como o senhor Ribeiro.

Não adianta enganar o tempo – a Verdade é eterna.

 

 Viana do Castelo, 2016-01-10

Manuel de Oliveira Martins

maolmar@gmail.com

 

publicado por dolphin às 18:57

02
Dez 15

 

Já vai sendo hábito os governantes atuarem atrasados ou nem sequer tomar posição, e muito menos tomar medidas de combate às tragédias.

Normalmente, as pessoas bem instaladas na vida não se dão conta dos sofrimentos e privações por que passaram aqueles a quem a sorte foi madrasta.

Diariamente as televisões mostram-nos imagens da tragédia do «mar da morte» (mar Mediterrâneo), que foi berço de civilizações e está agora transformado em cemitério de inocentes que fogem à guerra e à fome.

Há muito que deviam ter sido tomadas medidas preventivas que evitassem esta catástrofe. Já escrevi que a solução para o problema das migrações não passa pelo êxodo para países de acolhimento, mas sim pela resolução do problema na origem. Ninguém deixa a terra onde nasceu se lá encontrar condições dignas de sobrevivência.

Face ao agudizar do problema migratório (fruto de situações diversas), da África Subsariana (fome) e do Médio Oriente (guerra) para a Europa, há muito que os responsáveis Europeus deviam ter preparado planos de acolhimento para evitar os cenários confrangedores a que estamos a assistir.

A seguir ao 25 de abril, Portugal recebeu largos milhares de pessoas (a que indevidamente chamaram «retornados», alguns eram outros não) sofrendo um aumento da população de cerca de 10%. Foi uma saga já contada por alguns, que deixará memória por muitos anos e que também não teve um plano estratégico de retirada, houve muito improviso, aventura e risco. Felizmente não houve mortes. As pessoas integraram-se gradualmente na sociedade portuguesa que as acolheu solidariamente, embora com «resmungos» de alguns sectores.

Alguns países da comunidade europeia estão renitentes em aceitar os surtos de emigrantes da Síria, porventura com receios da entrada de membros do «estado islâmico» que possam vir disfarçadamente integrados nas avalanches desordenadas de migrantes. Se atempadamente tivessem sido tomadas medidas preventivas (pontos de encontro e corredores de evacuação com transportes adequados) nada do que se está a passar teria acontecido e teria havido um controlo de entrada eficaz com conhecimento de quem entrava, para onde ia e onde ficava localizado, permitindo assim gerir as pessoas e apoiá-las quer nas necessidades imediatas, quer na integração junto das comunidades e entidades de acolhimento. Atualmente encontram-se dispersos por vários países da União Europeia milhares de migrantes ilegais, entre eles possivelmente alguns infiltrados indesejáveis e sem controlo, que poderão criar graves problemas dentro do espaço comunitário, e não só, no futuro imediato.

No momento atual a Europa não pode pensar em racionalidade por que o tempo é de solidariedade. Falhou o timing dessa medida (racionalidade). Falharam as organizações internacionais (ONU principalmente) que se limitaram a resolver os problemas imediatos, não tendo uma visão estratégica para este problema em ebulição há bastante tempo e que vinha dando indícios de eclodir a qualquer momento. Era impossível resistir mais tempo, no caso da Síria; os subsarianos há muito que vêm sofrendo fome e outras atrocidades.

O comodismo é inimigo do inconformismo.

Viana do Castelo, 2015-09-05

Manuel de Oliveira Martins

maolmar@gmail.com

 

publicado por dolphin às 23:28
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Desde muito cedo, ainda pequenos, aprendemos a fazer uma fogueira e, se soprarmos, ativamos o lume, isto é, provocamos uma corrente de ar – o vento.

Os fogos que mais acentuadamente têm origem no verão, embora possam surgir noutras épocas, constituem um flagelo em termos ambientais e económicos - muitas populações dependem da floresta.

Tenho sido uma vítima desta calamidade, enquanto produtor florestal. O meu pai valeu-se deste parco recurso agrícola para conseguir pagar os estudos dos filhos; daí que devo muito à floresta e nutro por ela um carinho especial, não só pelo magro pecúlio económico que possa usufruir caso a minha propriedade não arda (já ardeu três vezes em 40 anos), mas, sobretudo, pelo conforto que me dá no verão saborear uma sombra agradável quando a canícula aperta, e também pelo ar que respiro, fruto da existência desse bem precioso que tantos desprezam e maltratam.

A deflagração dos fogos tem origens e causas diversas. Há no entanto um fator que é preponderante para a propagação do fogo – o vento. Se experimentarmos fazer uma fogueira, sem vento, ela apaga-se após a matéria combustível ser extinta.

Tenho apurado que todos os fogos se dão quando as previsões meteorológicas apontam para a previsão de ventos com alguma intensidade (normalmente acima dos 20 Km/hora)capazes de fazer alastrar o fogo para zonas densamente arborizadas, tendo em conta a direção do vento.

Não é nos dias e nas zonas de temperaturas mais elevadas que os grandes fogos acontecem, mas sim nas zonas de maior matéria combustível e mais ventosas.

Como em tudo na vida a prevenção é fundamental para o combate e a dissuasão aos infratores. É muito difícil apanhar em flagrante os prevaricadores, mas é possível complementar com a prevenção outras medidas que devem ser aplicadas na gestão da floresta (a melhoria e abertura de caminhos, a criação de zonas tampão de propagação - aceiros, o fomento de associações de produtores, a fiscalização, etc.).

A meteorologia pode ajudar (já ajuda) na informação de dados e na criação de mapas de pontos e zonas potencialmente suscetíveis de deflagrarem fogos quer pela natureza e intensidade dos ventos quer pela quantidade de matéria combustível, humidade relativa e outras variáveis que influenciam os fogos.

É necessário a formação de técnicos especializados nesta matéria que possam integrar equipas de prevenção e vigilância, que uma vez no terreno, possam detetar e dissuadir os presumíveis pirómanos a praticarem atos tão criminosos e nefastos para as pessoas e para o ambiente.

O nosso país foi considerado pela então Comunidade Económica Europeia (CEE) na década de 90, como zona propícia à criação florestal, pelas características geomorfológicas e climatéricas. Em resultado dessa decisão estabelecida pelos países membros, foi atribuída a Portugal a verba de 900 milhões de euros, dentro dos princípios da Política Agrícola Comum (PAC), destinada a reestruturar a floresta, e garantir os postos de trabalho que por força desta medida, foram eliminados na agricultura.

Passados 30 anos da aceitação desta medida e da receção do dinheiro, eu pergunto: o que foi feito com essa verba em prol da floresta e da manutenção de postos de trabalho resultantes do abandono forçado das áreas e das culturas agrícolas?

A resposta está à vista e é confrangedora – NADA!

Viana do Castelo, 2015-08-10

Manuel de Oliveira Martins

maolmar@gmail.com

publicado por dolphin às 23:17
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05
Set 15

Todos os dias somos confrontados nos meios de comunicação com notícias de violência desmedida e injustificada, com origem, muitas vezes, em razões fúteis, que degeneram em agressão e/ou em morte.


Este surto de violência tem vindo a aumentar nos últimos tempos, é preocupante e merece das autoridades uma atenção redobrada e um inquérito às causas que estão na sua origem.


Sempre ouvi dizer que se deve exterminar o mal pela raiz, expressão com a qual concordo plenamente. Não se deve negligenciar os princípios básicos que regem a sociedade sob pena de se perder o controlo dessa mesma sociedade.


A educação está na base de tudo o que se é na vida. Nela reside a essência da sociedade que construímos. A educação não suporta negligência e tolerância, antes pelo contrário, exige disciplina e rigor que é muito diferente de prepotência e brutalidade.


É no «berço» que se criam e perpetuam para a vida os bons hábitos, que a escola deve complementar, e corrigir nos casos desviantes de conduta atípica motivados pela falta de carinho, atenção e amor, que não foram ministrados no «berço».


Os casos de violência que têm vindo a lume revelam que a sociedade está enferma e precisa urgentemente de ser tratada dos males que padece.


A polícia, entidade do Estado de direito, tem como missão principal garantir a segurança de pessoas e bens.


Não querendo fazer julgamentos prévios ao oficial de polícia que foi protagonista dos inqualificáveis incidentes ocorridos no dia 17 de maio, no final do jogo entre o Guimarães e o Benfica (penúltimo jogo da 1.ª liga de futebol) que terminou com um empate a zero, nem tão pouco classificar a Instituição de Polícia por este ato tresloucado de um dos seus agentes, não posso deixar de mais uma vez apelar ao legislador para rever as regras de admissão e progressão dos agentes de autoridade, submetendo-os a exames psicotécnicos imprescindíveis para o exercício da profissão que envolve o contacto com seres humanos possuidores dos mais díspares carateres  e personalidades.


Os órgãos de comunicação social, céleres em dar a notícia em primeira mão para captar audiências, também precisam de aprender e ponderar, quando e como, devem dar a notícia para evitar o despoletar de situações como as que se viveram no Marquês de Pombal. É preciso ter consciência do acendimento do rastilho, para evitar situações desagradáveis como aquelas que se viveram na noite dos festejos do título na zona do Marquês de Pombal, que podiam ter sido muito mais graves.


Outro caso que se prende com a violência e que merece também muita atenção da parte do legislador, é o caso do sargento com baixa psiquiátrica, que possuía um arsenal de 30 armas das quais 29 estavam legalizadas, a única que não estava foi a que originou o crime que vitimou o gerente da pastelaria de Benfica. Um militar perfeitamente identificado e com cadastro, com baixa psiquiátrica, não pode andar à solta nem ter acesso a uma arma muito menos a trinta.


Somos aquilo que criamos, para o bem ou para o mal. Não basta ter pão é preciso ter educação, ferramenta primordial em toda a estrutura do ser humano enquanto membro de uma sociedade sadia e culturalmente evoluída.


Viana do Castelo, 2015-05-20

Manuel de Oliveira Martins

maolmar@gmail.com

Publicado no jornal «A Aurora do Lima», 2015-06-18, nº 22 , Ano 160
publicado por dolphin às 20:41
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10
Jun 15

 

Já escrevi noutro contexto, que o problema das migrações não reside no destino mas na origem. As grandes potencias mundiais não querem solucionar o problema destes povos que se debatem contra a fome e a doença.

As «invasões» pacíficas das populações subsarianas, compelidas pela fome, flageladas pelas doenças e pelas hordas de malfeitores que lhes roubam a dignidade (Boko Haram e outros), submetem-se a atravessar o deserto e, chegados à costa meridional de África, defrontam-se com novo obstáculo, quase intransponível (faz lembrar o Antigo Testamento e a travessia do mar Vermelho), não resistem a atravessar o mar em busca da «terra prometida», tanto é o sofrimento e a ânsia de encontrar melhores condições de vida para si e principalmente para a sua família.

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Os muitos milhares de seres humanos que têm perecido na travessia do mar que separa a África da Europa, o Mediterrâneo, devem constituir um ponto de reflexão de toda a humanidade. É preciso constituir um lobie de pressão junto das Nações Unidas (ONU) que exija aos países que gastam milhões em material bélico a parar com a produção de armas que visam o extermínio da humanidade, em prol de alimentos, medicamentos e instrução para esses povos famintos, desnutridos e doentes que neste «êxodo» desumano arriscam tudo – a própria vida - seduzidos pelas promessas de uns quantos sem escrúpulos que lhes vendem miragens.

A última notícia sobre este drama, tem algo de surrealista e impensável, mas que denota até onde pode ir a imaginação humana para sobreviver. Um pai, face às autoridades do país onde vive legalmente, não permitirem a junção da família, idealizou o transporte de um filho de oito anos dentro de uma mala. Detetada pelos meios sofisticados de controle do aeroporto, a criança foi entregue a uma instituição de acolhimento de menores e o pai preso bem como a moça Marroquina de 19 anos recrutada pelo pai para a passagem na alfândega. Houve infração às leis, é um facto, mas condói. Devemos todos pensar em resolver a origem deste drama e solucioná-lo.

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Perante isto muitos dirão - «mas que é que posso fazer?», «sou um só contra o mundo!». Pois é, se todos pensarmos assim, o mundo jamais irá para a frente. Está em cada um de nós mudar o mundo com o nosso comportamento. Somos nós que elegemos os governantes com o nosso voto, temos a faca e o queijo na mão, como soe dizer-se. Se votarmos em consciência, segundo as nossas convicções cívicas e de cidadania previlegiando as ideologias que defendem e praticam o bem do homem enquanto ser por excelência e súmula superior da criação, estaremos a contribuir para a construção de um mundo melhor e mais justo.

A Europa, berço dos mais elementares direitos de liberdade, igualdade e fraternidade, precisa de se organizar para ajudar os países mais desfavorecidos a encontrarem um caminho de paz, dignidade e sustentabilidade que permita aos naturais desses países viverem condignamente sem precisarem de migrar da forma desumana a que são forçados. Tal como numa árvore, é na raiz que reside o mal e é lá que ele tem de ser tratado, não no caule ou nos ramos.

Viana do Castelo, 2015-05-11

Manuel de Oliveira Martins

maolmar@gmail.com

Publicado no jornal «A Aurora do Lima», n.º 22 em 2015-06-04

 

 

 

publicado por dolphin às 21:55
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09
Jun 15

 

Na história económica da cidade do Porto, um nome emerge nos anos 30 do século XIX, Ferreira Borges, como o obreiro da organização e implementação da Associação Comercial do Porto, que congregava vários interesses económicos. Nos finais dos anos 30, aí por 1838, surge um movimento embrionário da que viria a ser chamada Associação Artista e Industrial da Cidade do Porto[1] que depois de vicissitudes várias, a que não foram alheias as influências políticas e a própria Associação Comercial do Porto, viria a ver aprovados os Estatutos em 1849, tendo como mentor e principal impulsionador, José Vitorino Damásio, adotando o nome de Associação Industrial Portuense (AIP) – atualmente Associação Empresarial de Portugal (AEP).

Estas duas associações, Comercial e Industrial, constituíram, após a sua formação, motores fundamentais de crescimento e influência do Porto, na defesa dos interesses dos seus associados e da região, junto do poder central.

No momento presente, mais uma vez a Associação Comercial do Porto vem em defesa dos interesses da segunda maior Área Metropolitana de Portugal, confrontando o poder central, pondo em causa a pretensão de Lisboa construir um porto de águas profundas no Barreiro, em detrimento da construção de um terminal ferro-marítimo e de um cais em Leixões, que possibilite a atracagem a navios porta contentores «Post-Panamax» com 14 metros de calado, como estava previsto no Plano Estratégico de Transportes para o setor portuário, elaborado em 2011.

É o lobie do Porto a funcionar, como progenitor a quem lhe tiraram a cria, atacando, qual urso ferido, levando aos mais altos magistrados da Nação, o seu ronco forte e determinado.

Foi assim sempre ao longo da história da cidade invicta.

Viana, também já teve os seus lobies. Nesses tempos idos, conseguiu algumas concessões do poder central, através das influências de figuras como Joaquim Pedro de Oliveira Martins, eleito deputado pelo círculo de Viana em 1886; Manuel Espregueira, ministro do fomento; Dr. Gaspar Teixeira de Queirós, Juiz de Direito, grande impulsionador do desenvolvimento de Viana no início do século XX;  Dr. Ramos Pereira, ancorense, deputado por Viana; João Alves Cerqueira e Vasco D’Orey, industriais do ramo da pesca e fundadores dos ENVC; foram alguns dos protagonistas que conseguiram não deixar morrer Viana do Castelo, depois do período áureo do comércio do açucar brasileiro.

Viana do Castelo precisa de despertar depois do afundamento de duas empresas âncora, sustentáculos da economia da região (a EPV e os ENVC). As forças vivas têm de se constituir em lobie que afirme categoricamente as potencialidades e reais necessidades da região do Alto Minho.

A propósito do país costuma-se dizer que Portugal só foi GRANDE quando se virou para o mar; o mesmo sucedeu com Viana, que só foi GRANDE quando se virou para o seu porto de mar, no qual é preciso investir e não deixar morrer.

Viana do Castelo, 2015-02-14

Manuel de Oliveira Martins

maolmar@gmail.com

 

[1] ALVES, José Fernando – O emergir do associativismo industrial do Porto (meados do séc. XIX)

Publicado no jornal «A Aurora do Lima» n.º 11 em 2015-03-19

publicado por dolphin às 17:38
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23
Jan 15

 

Mais uma vez o Alto Minho ficou de fora no plano de investimentos da estradas de Portugal para o quinquénio 2015-20. A região do Alto Minho é uma das mais pobres da Europa e menos dotada em termos rodo-ferroviários.

Os acessos rodoviários ao porto de mar de Viana do Castelo, há décadas prometidos por diversos governos, não passaram do papel. Não existe a nível nacional uma estratégia para o desenvolvimento desta região, que se vai desertificando cada vez mais, apesar de ficar situada na orla litoral, com todas as condições para se tornar numa plataforma logística estratégica entre Portugal e a Galiza.

Por vezes, passa-me pela cabeça que existe um estratagema montado, para desviar investimentos previstos e devidos para esta região, para outras regiões concorrentes em termos estratégicos e geográficos. Existem lobies muito poderosos e influentes que conseguem mover obstáculos à partida intransponíveis e já decididos, que voltam atrás.

Ultimamente, e por constrangimentos políticos, a região Alto Minhota, mais uma vez não foi contemplada com as estruturas necessárias ao seu desenvolvimento e melhoria das condições de vida dos residentes. A maioria dos que por cá nasceram, amam a sua terra como nenhuns outros, mas ao contrário do slogan, não ficam, por que não têm condições para sobreviverem e voltam pela Agonia numa romagem de saudade e nada mais.

Os políticos, antes de tomarem decisões, que jogam com a sobrevivência das populações, devem pensar profundamente nas consequências desastrosas decorrentes da leviandade dessas posições.

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O que aconteceu recentemente dos dois lados da barricada foi um medir forças desnecessário, com perda para as populações, sem atender ao interesse geral, como ficou demonstrado pela injusta decisão agora tomada relativamente à não atribuição de verbas que promovam a coesão do território e garantam a sustentabilidade económica e social, em favor de outras regiões mais desenvolvidas.

Por natureza não tenho jeito para a política e nem gosto de comentar as atuações dos políticos, mas há atitudes que alguns políticos tomam que me desiludem e me deixam descrente. A sensibilidade e humildade para reconhecer a perda, são dois fatores, para mim, muito importantes em qualquer registo de vida. Por outro lado, a arrogância e o cinismo enojam-me e revoltam-me.

Existem nos verdadeiros políticos outros predicados que os diferenciam positivamente e os levam a conseguir resultados insondáveis que se transformam em potencialidades jamais imaginadas e benéficas para as populações. Esses políticos não fazem alarde, exigem sem afrontar, sempre tendo em mente o objetivo que os move – o interesse dos eleitores.

Infelizmente, a política descambou para um poço sem fundo, donde dificilmente sairá, a menos que uma cheia de boas práticas democráticas a venha libertar do atoleiro de insanidades que em nome da liberdade se têm cometido.

Esta divagação, vem a propósito da injustiça cometida com o corte de verbas, que devia ter sido atribuído para a construção dos acessos ao Porto de Mar (depois de todo o trabalho de expropriações) e que com a resolução recente de integrar o porto de Viana do Castelo no porto de Leixões, parece estar integrado numa concertação já previamente definida, que acaba definitivamente com qualquer veleidade.

É um preço demasiado elevado a pagar pelas gerações vindouras, fruto de arrufos entre políticos, desprezando os superiores interesses das populações desprotegidas, únicos perdedores neste contexto trágico-cómico.

A conjugação destas duas efemérides tão nefastas para Viana do Castelo, arruma definitivamente com o porto de Viana do Castelo, transformando-o ainda mais num caixote de lixo, para onde vai só aquilo que não presta. Adeus Porto de Mar…

Viana do Castelo, 2014-12-14

Manuel de Oliveira Martins

maolmar@gmail.com

publicado por dolphin às 14:44
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