Blog que retrata os acontecimentos do mar e porto de Viana e arredores, nos bons e maus momentos, dos pequenos aos grandes senhores.

14
Jun 07
A rede pelágica
 
Os nossos amigos portugueses já estavam perto do pesqueiro e aprontavam as redes pelágicas (redes que pescam a meia água, variando o comprimento do cabo e a potência da máquina) com que os navios de arrasto pela popa foram equipados de construção, mas que para além de um teste no início, jamais foram utilizadas. O mestre de redes também recebeu instruções para colocar a rede pelágica pronta para largar quando chegássemos ao pesqueiro e lá foi para o convés sem muita convicção.
O nevoeiro parece que nos estava a perseguir. A zona de pesca onde estavam os arrastões franceses e portugueses, estava invadida por névoa que se estendia por toda a área de manobra utilizável.
Foi uma operação demorada a manobra de largar a rede pelágica. Era uma novidade para todos sem excepção, do convés à ponte. Cada passo era na prática uma aprendizagem, porque em teoria todos tinham umas luzes de algo que leram ou viram noutra altura ou noutro sítio. Finalmente a rede estava na água, era possível através do transdutor (sonda de rede) instalado no cabo da pana (cabo que sustenta a rede na parte superior) visualizar a bordo noutra sonda a abertura vertical da rede e orientar a mesma, subindo-a ou descendo-a em direcção ao cardume que era detectado à passagem do navio. Mais tarde verifiquei que este processo era ainda bastante incipiente, relativamente à forma, um pouco à sorte, como era efectuado, pela falta de detecção à distância do cardume com o sonar (aparelho de detecção localizado na parte de vante do costado do navio junto à quilha e que permite efectuar um varrimento direccional angular lateral e vertical) e a possibilidade de orientar a rede na direcção do cardume obtendo melhores resultados.
Seguimos na popa dos franceses e quando a detecção do cardume desaparecia davam a volta e arrastavam em sentido oposto, procurando seguir o mesmo percurso. Fizemos o mesmo mas o mais difícil estava para vir. Não conseguimos dar a volta num raio de acção curto como eles e retomar o mesmo trilho e, por outro lado, não conseguimos evitar que a rede fosse ao fundo provocando avarias. A solução era virar a rede e ver o que tinha acontecido. Os cabos estavam entrelaçados, as portas de arrasto também e a rede estava toda esgalhada na barriga (parte inferior da rede a seguir ao arraçal – cabo que sustenta a rede inferiormente), mas o saco (parte posterior da rede onde é ensacado o peixe) boiava, sinal que tinha peixe dentro. Do mal o menos, nem tudo estava perdido, há que consertar e voltar a largar. O mesmo tinha sucedido aos outros arrastões portugueses que se queixavam das redes embaraçadas e partidas.

in "Manual de Tecnologias de Pesca" da E.P.P.

 Esquema da arte de pesca pelágica

 

Enquanto estávamos parados na reparação dos estragos causados pela manobra errada que efectuamos por desconhecimento, a névoa dissipou-se, avistamos os navios franceses e pudemos verificar como é que eles efectuavam a manobra de dar a volta. Simples, rápida e eficaz. Viravam os cabos até as portas de arrasto ficarem ao lume de água actuando como leme e fazendo girar o navio quase no mesmo ponto com um raio de rotação muito curto permitindo ir retomar a mesma rota antes percorrida indo ao encontro dos cardumes anteriormente detectados.

Pena que depois de termos a rede pronta o peixe desapareceu e os franceses também, era a sina desta viagem, sempre atrasados no tempo e no momento preciso. Ainda viemos a utilizar a rede pelágica uma vez mais no norte da Ilha dos Ursos com a captura de um cardume de cerca de 200 quintais, foi um lanço lindo e limpo, peixe todo graúdo, homogéneo, vivo, a saltar na praça do peixe, enchendo-a.
 
publicado por dolphin às 23:22
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