Blog que retrata os acontecimentos do mar e porto de Viana e arredores, nos bons e maus momentos, dos pequenos aos grandes senhores.

31
Mar 07
" Cristovão Colombo - o enigma"

 

O próximo filme de Manuel de Oliveira, já está em rodagem. Trata- se de um filme baseado no livro - Cristovão Colon(Colombo) era Português dos luso-americanos, Silvia Jorge da Silva e Manuel Luciano da Silva, naturais de Vale de Cambra que emigraram para a América nos anos sessenta.

Congratulo-me por o Ministério da Cultura, a RTP, a Lusomundo e a Tóbis terem apoiado o grande cineasta na realização destes dois filmes, o segundo é baseado no conto homónimo de  Eça de Queirós, " Singularidades de uma rapariga loura".

A divulgação de obras de autores portugueses devem ser sempre apoiadas, especialmente as que contribuem para o engrandecimento da cultura portuguesa e a sua promoção mundial.

Que melhor prenda podia ser oferecida no centenário do grande mestre do cinema?

Parabens!

 

Varandas da Felgueira - Primeiro percurso pedestre (PR1)
 

O concelho de Vale de Cambra está de parabéns por ter sido homologado e registado pela Federação de Campismo e Caravanismo de Portugal e pela Federação Europeia de Percursos Pedestres, o primeiro percurso pedestre do concelho, localizado na zona serrana, incólume à intervenção humana e rica em património edificado típico do mundo rural.

Fica a promessa de outros percursos a desenvolver em  zonas de paisagem lindíssima e ricas em biodiversidade.

Parabéns à Câmara Municipal pela iniciativa.

 

 

publicado por dolphin às 23:36

28
Mar 07

Nos países frios, com temperaturas bastante negativas durante o Inverno, como é o caso da antiga União Soviética, o consumo de álcool para estimular a produção de energia, é um hábito muito comum enraizado na cultura desses povos ao longo dos séculos.

Em meados da década de oitenta do século passado, muitos navios da antiga URSS efectuaram reparações nos ENVC , enquanto eram construídos novos navios mar-rio , os SORMOVSKY's ".Chegaram a estar surtos no porto de Viana do Castelo dez navios, com um contingente de aproximadamente 700 tripulantes. Pelas ruas de Viana era frequente encontrarmos tripulantes oriundos dos países de Leste; Russos, Lituanos, Letões, Estonianos, Ucranianos, Moldavos, facilmente identificáveis pela maneira de vestir e pela fala, pouco comum para os ocidentais.

Um dia, ia eu pela rua Manuel Espregueira, ao fim da tarde, e deparei com um cenário pouco comum, um amontoado de tripulantes soviéticos à porta da Farmácia Central e, descortinei entre eles, o Imediato de um dos navios, por sinal um dos poucos que falava um pouco de inglês e perguntei-lhe o que faziam ali?

A resposta foi rápida: - Vodka, Pilot ! A príncípio não percebi?! Vodka na farmácia? Sim, aprontou-se ele a explicar. Com um frasco de álcool , conseguiam faxer cerca de 1,5 litros de Vodka,  que lhes ficava mais barato do que comprá-lo no supermercado, a preços proíbitivos para as parcas economias deles. Soube de casos em que vendiam os seus haveres pessoais para terem alguns escudos para comprarem uma lembrança para os filhos e esposas. Fui uma vez abordado por um que me queria vender uma máquina fotográfica e uma máquina de barbear usadas e um pouco fora de moda, para o gosto ocidental.

Quando as provisões de Vodka se esgotavam, por motivo de estadias mais prolongadas que o que estava previsto, era vê-los em fila à porta das farmácias para conseguirem um frasco de álcool . Em algumas farmácias o álcool esgotou, tanta era a procura desse líquido de tão elevado teor alcoólico, 95%, impróprio para consumo humano, mas que os Soviéticos utilizavam para preparar a famosa bebida, tão apreciada por esses povos.

Com o derrube do muro de Berlim e a consequente queda da União Soviética, deu-se a abertura do mercado soviético e estabeleceu-se o comércio dos produtos oriundos dos países recém libertados, com os países Europeus. A Vodka invadiu o mercado ocidental a preços que até então eram proíbitivos, devido à raridade do produto. 

Actualmente, em qualquer supermercado, é possível encontrar a Vodka a preços perfeitamente acessíveis e em quantidades que nos tempos da antiga URSS não era possível. Hoje , era impensável assistir às cenas passadas nos meados da década de oitenta, com os tripulantes dos navios Soviéticos, às portas das farmácias.

O grande número de imigrantes oriundos dos recém formados países de Leste, a viverem no nosso país, felizmente não precisam de recorrer a esse estratagema para satisfazerem os seus hábitos culturais de ingestão de Vodka.

publicado por dolphin às 21:03

27
Mar 07

Felizes onze anos

Um homenzinho com 16 anos

Com 20 anos na Escola Náutica

Aos 22 anos Oficial da Marinha Mercante

Em Viana nos Pilotos da Barra

Com 37 anos

Chefe do Departamento de Pilotagem

do Porto de Viana do Castelo

Aos 38 anos ainda um jovem

com muita saúde e vitalidade

Aos 55 já reformado

publicado por dolphin às 15:21

26
Mar 07

António de Oliveira Salazar foi o preferido dos portugueses com 41% dos votos.

Será ele o maior Português? É a dúvida que se poe a todos, mesmo aqueles que votaram nele.

De facto, não se pode  concluir com rigor quem é o maior português.

Já se esperava este desfecho. O programa sofreu uma alteração, em meu entender para tentar inverter o resultado da 1.ª fase. Não o conseguiu e apesar de uma descida do candidato vitorioso - segundo a estatística - os gráficos indicaram que ela não foi suficiente para inverter o sentido de voto.

Os analistas e os defensores dos candidatos, cada um a seu modo, apresentaram argumentos para justificar o resultado da votação. Uns disseram que foi um voto de protesto, outros o pouco distanciamento no tempo. Para mim, registei a posição de um deles e sou da mesma opinião que em grande parte este sentido de voto deve-se à falta de instrução que o pós 25 de Abril, não quis ou não soube dar à grande maioria dos portugueses que ainda vivem obcecados e presos a esse passado.

Das conversas que tenho com diversas pessoas, muitas delas insuspeitas quanto ao seu partidarismo, ouço por vezes estes desabafos: -" Falta cá o Salazar! Ai se o Salazar fosse vivo isto não acontecia!"... e por aí fora. É  um sinal de descontentamento, de inconformismo no fundo de saudosismo. É assim o povo, de memória curta,  parece que gosta do jugo, da opressão.

Por outro lado, e este é o que mais pesa na minha análise, a falta de instrução em que estavamos mergulhados no tempo do ditador(Salazar), pouco melhorou com o 25 de Abril. Não se procurou dar ao povo formação suficiente para que ele pudesse decidir o que é melhor para si.

Andamos anos a discutir programas escolares sem jamais ter chegado a um programa adequado aos tempos em que vivemos. A cada passo somos confrontados com críticas do género: - "No meu tempo é que se aprendia! Esta malta agora não sabe nada! Andam a passear os livros! Os professores não ensinam nada querem é o deles ao fim do mês!.".. e nunca mais acabava o rol de comentários negativos ao sistema de ensino que se ministra nas escolas.

Um povo que não é instruido não pode ser bom decisor, daí que perante situações como esta tome posições que só revelam falta de conhecimento. No tempo da outra senhora, como se diz quando nos queremos referir precisamente ao tempo de Salazar, o povo vivia mergulhado num obscurantismo propositado, para poder ser mantido na ignorância, para não saber nem poder decidir sobre coisas importantes para si e para o seu país.

O 25 de Abril veio abrir uma porta de esperança ao povo, especialmente no ensino, na educação, na cultura, mas, passados 32 anos o que melhorou neste e noutros aspectos essenciais para o crescimento do país? Por isso há também neste voto um sentimento de frustração. 

publicado por dolphin às 20:53

25
Mar 07

No momento em que escrevo este post decorre na RTP 1 o programa/debate acerca de quem devemos considerar que foi o maior português.

O tema é polémico e difícil e mais controverso se torna quando os critérios de avaliação não geram consenso, adulterando qualquer perfil que se possa eleger. Dentro dos cinco critérios estabelecidos: -  génio, liderança , bravura, compaixão e legado , qual deles tem maior valor?

Todos sabemos que se trata de um programa televisivo que tem outros objectivos, especialmente a conquista de audiências, no entanto a forma como está ou foi estruturado deixa muitas dúvidas e reticências quanto ao objectivo final.

A fiabilidade do apuramento final é desta forma posta em causa, deixando na opinião pública uma imagem distorcida da realidade objectiva e imparcial que se devia exigir relativamente ao tema. Trata-se de escolher o português com quem nos identificamos, aquele que representa algo em que nos revemos.

Dificilmente conseguimos encontrar um consenso, porque somos diferentes, vemos as coisas de maneira diferente e ainda bem que assim é, mas se partirmos das mesmas premissas as conclusões serão mais correctas.

As sondagens, embora não vinculativas e representativas, apresentam-nos valoração diversa conforme as personalidades. Os próprios defensores dessas personalidades defendem de forma desigual os critérios propostos, naturalmente quem é apologista que o génio é mais importante, vota numa personalidade detentora dessa característica, quem apoia a compaixão logicamente votará em quem goza dessa faceta. Como à partida esses critérios não foram valorados, o resultado que se apurar não corresponderá certamente ao perfil do grande português que se pretende eleger.

O legado na minha opinião tem um valor acima dos outros critérios por aquilo que deixa para o futuro e contribui para o engrandecimento vindouro da humanidade. Neste aspecto a minha preferência vai naturalmente para o Infante D. Henrique que contribuiu para o progresso da humanidade como nenhum outro português ao fundar a Escola Náutica de Sagres, a maior do tempo, mais famosa, com os melhores cosmógrafos, cartógrafos, matemáticos, cientistas formando os navegadores, pilotos, mestres e marinheiros que possibilitaram a descoberta do mundo.

Sem esse legado, não seria possível a descoberta do caminho marítimo para a Índia , o culminar da epopeia dos descobrimentos que esteve na origem e na visão do Infante D. Henrique  desde a primeira hora.

publicado por dolphin às 23:32

24
Mar 07

Recordo com emoção os momentos marcantes da minha meninice que fizeram de mim muito do que hoje sou. Em especial, lembro-me da entrada da Primavera, pela luminosidade, os dias mais longos, mais quentes, o desabrochar da natureza adormecida de longos meses de hibernação.

Um dia que ficou gravado na minha memória foi o dia da àrvore pelo simbolismo que incutia nos estudantes, fomentando dessa forma a preservação e continuação da natureza. Eu tinha os meus oito anitos quando assisti e participei pela primeira vez, na minha escola primária à festa do dia da àrvore.

A senhora professora fazia deste dia, um dia muito especial, convidava os pais dos alunos para assistirem ao evento, um aluno lia um texto previamente elaborado relativo à efeméride e procedia-se à plantação da àrvore no recreio da escola em local escolhido e preparado, com a cova aberta no dia anterior. Todos os alunos participavam, colocando uma pá de terra à volta do tronco da jovem àrvoresinha, logo após a senhora professora dar o exemplo e cantava-se uma canção que começava assim: " Quem planta uma àrvore enriquece, ó terra mãe portuguesa..." e por aí adiante.

Este acontecimento marcou para todo o sempre a minha acção futura para com a natureza e as questões ambientais.

Com a morte prematura do meu pai, herdei alguns terrenos de pinhal que, por infortúnio meu e da natureza foram devastados, por três vezes em trinta anos, por esse flagelo que dizima tudo por onde passa e que dá pelo nome de fogo.

De todas as vezes reflorestei esses espaços ardidos, procurando recuperar as espécies queimadas e perdidas, substituindo-as pelas mesmas e por outras espécies menos vulneráveis ao fogo, como é o caso dos castanheiros e carvalhos.

Ao longo da minha vida tenho plantado inúmeras àrvores de fruto e não só, que me tem dado grande satisfação por contribuir para a preservação e protecção da natureza. Este ano o meu filho convidou-me para o ajudar na plantação de diversas espécies de frutíferas na quinta e eu acedi com todo o entusiasmo, diferindo outras actividades que tinha em agenda para outra ocasião.Eu, ele,a namorada e a minha mulher, plantamos em três dias trezentas e setenta e quatro àrvores de fruto na quinta, sinónimo de repovoamento da quinta por motivo do abate de outras tantas videiras, que por opção económica insustentável, apesar do constrangimento que isso causou a todos nós, por afeição, sentimentalismo e perda irreparável, tiveram que ser ceifadas para sempre.

Hoje, dia vinte e quatro de Março, enquanto plantavamos essas àrvores o meu filho disse-me que ainda tinha de plantar mais uma àrvore em Viana do Castelo, por isso tinhamos de suspender o plantio por hoje para poder honrar esse compromisso que lhe dava imenso prazer estar presente e participar nesse acto simbólico.

Tratava-se de facto de um evento simbólico mas marcante porque patrocinado pelo maior organismo internacional, a ONU. A UNEP( Programa Ambiental das Nações Unidas) escolheu Viana do Castelo, entre outros locais do mundo para lançar uma acção internacional com a designação "Plant For the Planet: a one billion trees planting campaign", com o objectivo de sensibilizar e envolver todos a nível mundial na plantação de àrvores.

A Câmara Municipal, a Valimar, a Surfride Foundation Europe, o Surf Clube de Viana aderiram a esta iniciativa da Unep, aqui representada curiosamente por um Vianês, o Dr. Miguel Alpuim Graça que conjuntamente com a Dra. Flora Silva, vereadora do pelouro da Cultura da Câmara Municipal de Viana do Castelo, descerraram uma placa alusiva ao acto, após a àrvore ter sido plantada por todos os presentes incluíndo o meu filho, o que me encheu de orgulho e de emoção por lhe ter transmitido essa herança de continuação de preservação da espécie vegetal tão maltratada pelo ser humano últimamente.

Assisti à plantação desta àrvore, na Pousada da Juventude, frente a outra àrvore simbólica, a àrvore da Amizade, emocionado por ver os jovens a corresponder à chamada sempre presente de preservação da natureza que o mesmo é dizer, preservação da humanidade.

publicado por dolphin às 22:00

A apitoxina é um veneno produzido pelas abelhas. Quando aplicado em grandes proporções, é letal para o homem, como aliás todos os venenos.

Paradoxalmente pode tornar-se um medicamento bastante útil especialmente nas afecções do foro reumático, artrites, nevrites...

Nos Estados Unidos, onde a apicultura está mais desenvolvida, utiliza-se administrando, através de picadas naturais das abelhas, na zona afectada.

Esta semana fui ajudar o meu filho a plantar umas árvores  na Quinta da Inácia em São Martinho de Ossela concelho de Oliveira de Azeméis , onde está a desenvolver um projecto de agricultura biológica e apicultura.

No dia 21 de Março, início da Primavera e dia mundial da árvore , plantamos cerca de 54 árvores diversas, macieiras, ameixoeiras, pessegueiros e Kiwis . Ficaram para plantar para o dia seguinte pereiras, framboesas e mirtilos.

No dia seguinte pela manhã quando plantávamos as pereiras numa leira sobranceira ao colmeal , fui surpreendido pela picada aguda do ferrão de uma abelha. Tive a sensação do alastrar do veneno pela face esquerda da cara como se estivesse a ser queimado por um ferro em brasa. A dor foi intensa mas curta, não durou mais que alguns segundos que me pareceram infindáveis.

Esta situação não me era estranha e fez-me reviver trinta anos atrás, quando, no mesmo local, fui igualmente picado por uma abelha e, curioso, no mesmo sítio da face, o lado esquerdo do lábio superior por entre os pelos do bigode.

É sabido que o acto de picar da abelha é um acto suicida que o insecto utiliza em último recurso numa atitude defensiva. Possivelmente presa nos pêlos do bigode viu-se na necessidade de se defender valendo-se das armas que a natureza lhe deu.

Da primeira vez que me aconteceu, ainda vivia em Lisboa e não consegui conduzir devido a face ter ficado  de tal forma inchada que fiquei sem visão da vista esquerda, por obstrução das pálpebras de tão inchadas que ficaram. De imediato, quando fui picado desta vez, me veio à lembrança a primeira e conclui que ia ficar com o aspecto medonho da primeira vez.

Assim aconteceu e, no dia seguinte ao do acontecimento, como o inchaço não desaparecia tive que ir ao serviço de urgência do Hospital de Oliveira de Azeméis , onde me foram ministrados os primeiros antídotos para minimizar os efeitos da apitoxina que se alojou na face e não dá sinais de desaparecer naturalmente, provocando esta deformação indolor mas incomodativa.

As ferroadas das abelhas trouxeram-me ao pensamento outras ferroadas, as dos seres humanos, que, contrariamente às abelhas deixam mazelas para sempre tal é a dose de veneno injectado e difundido. Deus nos livre das calúnias, costuma o povo dizer e com razão. De facto uma calúnia é tão ignóbil, tão mesquinha, tão venenosa que o veneno que injecta perdura por tempo indeterminado perdurando muitas vezes para além da morte, de tão sórdida e mordaz.

Após a picadela da abelha e para alívio do sofrimento, pensei que mais vale ser picado por uma abelha que ser vítima de uma calúnia e que a abelha é mais inócua que o ser humano. Ao contrário da picada da abelha a calúnia não tem antídoto, é perene.

publicado por dolphin às 19:08

18
Mar 07

 

 Porto Comercial - o Akhmeta é o 2.º a contar da esquerda

Nos anos oitenta os Estaleiros Navais de Viana do Castelo, mercê de um bom relacionamento comercial com a antiga URSS, receberam um grande número de navios de pesca, para reparação.

Como todos  os arrastões, os soviéticos eram navios de grande calado o que implicava não poderem demandar directamente os cais envolventes à zona dos Estaleiros e terem que atracar no Porto Comercial, recentemente inaugurado(o novo Porto Comercial foi inaugurado em 21 de Abril de 1984 pelo navio "BALDUR" que veio carregar bobines de papel Kraft da Portucel), aguardando maré e aliviando carga para o cais -  portas de arrasto, redes de pesca e outro material.

O Akhmeta foi um dos arrastões que teve de ir atracar no Porto Comercial por motivo do elevado calado( parte do navio abaixo da linha d'água) a ré( lado da pôpa).

Na minha vida de piloto da barra de Viana do Castelo tenho muitas histórias, umas mais outras menos interessantes. Relacionado com o Akhmeta vivi uma situação que me marcou em toda a minha vida de piloto da barra.

Embarquei na área de pilotagem mais ou menos a duas milhas( a milha maritima é cerca de 1852 metros) por volta das oito horas da manhã. Chegado à ponte de comando do navio e após os habituais cumprimentos, a primeira coisa que o capitão fez foi indicar-me por gestos uma pequena mesa situada na asa de bombordo da ponte recheada de tapas diversas, biscoitos, bolos, sanduiches, copos e garrafas de bebida entre as quais a tradicional Vodka russa.

Um parentesis para realçar que  a maioria dos capitães dos arrastões de pesca da antiga URSS não falavam inglês ou outra língua ocidental intelegível, sendo dificil as comunicações entre nós. Atendendo a essa dificuldade de entendimento preocupante, vi-me forçado a aprender, especialmente os termos náuticos básicos, as ordens para o leme e máquina e mesmo alguns termos mais comuns e que ainda recordo alguns passados tantos anos, afim de evitar males maiores e de consequências imprevisíveis.

Fiz que não entendi a chamada de atenção gestual e procurei comunicar acerca da manobra do navio como é habitual, perante uma certa incredulidade dos tripulantes presentes que me olhavam estupefactos enquanto o capitão, rigorosamente fardado, me pegava no braço e me arrastava para a mesa, acenando-me para comer e enchendo um copo de tamanho médio de vodka. Em vão tentei dizer-lhe que não me apetecia comer e muito menos beber. O oficial Imediato que "arranhava" algumas palavras em inglês, fez-me perceber através das poucas palavras que sabia que o capitão levava a mal se eu não comesse e bebesse. Consegui protelar o manjar para o fim da manobra, na esperança que entretanto ele se esquecesse.

Era a primeira vez que manobrava aquele tipo de navio com cerca de 102 metros de comprimento e não podia obter informações acerca das capacidades e atributos de manobra do navio. Durante o percurso efectuei alguns testes simples que me permitiram ter uma noção  suficiente para poder manobrar com segurança, pois tinha de contar com a falta de comunicação, só me podia fazer entender por gestos, indicando ao oficial encarregue de executar as manobras da máquina a potência que pretendia e o mesmo sucedendo com as ordens para o leme, fazendo eu próprio essa missão.

Atraquei o navio no sector  previamente determinado e enquanto aguardava que o imediato preenchesse o boletim de entrada o capitão voltou à carga, insistindo para comer e beber. Era impossível esquivar-me, ao mesmo tempo que enchia mais um copo de vodka para ele e me colocava forçadamente na mão outro copo, nasdtrovia ???, (eu sabia lá o que significava)  nasdtrovia???,(tchim-tchim) repetia ele, acenando para que bebesse e dum gole emborcou (engoliu), o conteúdo do copo enquanto eu o tentava imitar fazendo o gesto, mas evitando beber até final.

Nunca fui apreciador de bebidas brancas, muito menos vodka e para mais no estado puro. Por outro lado em serviço nunca bebo, foi uma regra que impus a mim próprio e que copiei dum piloto da barra norueguês em Tromsö, quando uma vez aportei aquele porto no arrastão de pesca português João Martins aí por volta de 1979.

Voltando ao persistente capitão Kishnjakia, assim se chamava, agarrou-me na mão e quase me me forçava a engolir o resto do vodka que deixei no copo, da primeira tentativa frustada. Fiz-lhe um sinal com a mão insinuando calma e devagar e pausadamente aos goles, lá fui bebendo o amargo líquido, enquanto ele ia fazendo mais saudações esvaziando de um trago a super alcoólica bebida.

Despedi-me sem delongas e desci atabalhoadamente as escadas do navio em direcção à escada de quebra-costas (assim se chama a escada de piloto), posicionada ao costado do lado de bombordo (lado esquerdo do navio).

Finalmente estava a salvo a bordo da lancha de pilotos e inebriado estatelei-me no sofá da casa do leme enquanto o mestre e o marinheiro, incrédulos, perguntavam o que me tinha acontecido. Entre dentes expliquei o que me sucedera. Tinha a sensação que estava a arder por dentro e um cansaço inebriante apoderava-se de mim, estava tonto e enjoado, apetecia-me vomitar. Assomei à porta da lancha e tentei deitar a carga ao mar, como se diz na gíria marítima. À segunda tentativa consegui e fiquei mais aliviado, parece que me tinha saído um novelo de fogo do estômago.Fui ao Beira-Mar (café junto à doca comercial que costumavamos frequentar)tomar um chá e fiquei melhor embora durante o resto do dia andasse estranho física e psíquicamente. Felizmente que não houve nesse dia outras manobras de entrada/saída ou mudança.

O navio Akhmeta permaneceu em Viana do Castelo cerca de um mês em reparação e efectuei várias manobras de mudança e de saída, mas avisei o agente do navio (intermediário que no porto representa o navio perante as autoridades) para instruir o capitão a não insistir nas saudações báquicas antes, durante ou após as manobras. Daí em diante o capitão seguiu à risca essas sugestões e o imediato tornou-se um colaborador excelente e um entusiasta na aprendizagem de termos técnicos náuticos em inglês e eu,  fiquei motivado a aprender termos técnicos em russo e foi assim que comecei a interessar-me pela língua russa e até comprei um livro para aprender russo.

As reparações aos navios de pesca da URSS terminaram e os contactos com a língua russa limitaram-se aos navios em construção nos Estaleiros, mais raras e por vezes não aceites, e bem, pelos capitães e oficiais desses navios que, oriundos doutra escola falavam melhor inglês.

Foi graças ao Akhmeta ter estado em Viana do Castelo em reparação e à história que acabo de narrar que hoje sei pronunciar algumas palavras em russo. Valeu a pena ter apanhado um "pifo"

 

 

 

publicado por dolphin às 16:30
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13
Mar 07

GLOBAL RIO

Uma empresa brasileira encomendou aos Estaleiros Navais de Viana do Castelo dois navios gémeos, destinados ao transporte de produtos químicos - GLOBAL RIO e GLOBAL MACEIÓ.

O GLOBAL RIO, foi entregue ao armador no dia 10-12-1985 e saiu com destino a Huelva, sob o comando do capitão da Marinha Mercante Brasileira, Walter Amaral.

O GLOBAL MACEIÓ, quando efectuava provas de mar em 17-06-86, teve um acidente nos baixos da Eira e atrasou a entrega.

Recordo-me perfeitamente do acidente. Comandava o navio o ex-colega reformado dos pilotos de Lisboa, Capitão da Marinha Mercante Joaquim António Martins, já falecido e de saudosa memória, pela sua cordialidade e amizade. Homem experiente quer como piloto da barra de Lisboa  que chegou a chefiar quer como comandante de vários navios, o comandante Joaquim Martins era contratado pelos Estaleiros Navais de Viana do Castelo, para efectuar as provas de mar da maior parte dos navios construídos nos Estaleiros. 

Nesse dia fatídico para o capitão e para o navio, cerca das dez horas deu-se uma avaria na máquina, sendo necessário substituir os injectores. Os pilotos da barra de Viana do Castelo foram contactados pelos Estaleiros de Viana para transportarem na lancha esses injectores (nesta altura a lancha dos pilotos era o único meio disponível para efectuar este tipo de serviço e era muitas vezes solicitada a sua  colaboração quando os navios iam para provas e necessitavam por vezes do transporte de pessoas e/ou materiais para o navio e vice-versa). 

Quando fomos levar os injectores ao navio, cerca das onze horas, o navio derivava com o vento norte que já se fazia sentir com alguma intensidade. Tivemos alguma dificuldade em embarcar as caixas com os injectores e perante esta situação e à relativa proximidade de terra deixei um aviso de alerta para terem em atenção a distância que o navio se encontrava dos baixos e o tempo que demorariam a substituir os injectores.

Largamos do costado do navio cerca das onze horas e trinta minutos e a viagem de regresso foi difícil porque apanhamos a vaga provocada pela nortada pela amura de bombordo e a lancha mais parecia um submarino , espetando-se de proa e embarcando mar.

Mal tinha acabado de almoçar fui contactado pelos Estaleiros para ir dar entrada ao Global Maceió que sofrera uma avaria. A lancha seguiu de imediato para o navio e quando entrei a bordo fui informado do sucedido. A manobra de substituição dos injectores demorara mais que o previsto, já era tarde para largar a âncora e o navio bateu no fundo, conseguindo arrancar com a máquina e sair da zona dos baixos agravando mais o impacto e roçando com a quilha numa extensão, que se veio a apurar depois do navio entrar em doca, de cerca de cem metros.

O navio não apresentava qualquer rombo, não tendo água aberta, nada obstava  a sua entrada. Auxiliado pelo rebocador Vandoma " e pela lancha dos pilotos que funcionava também como reboque,  entrou directamente na doca n.º 1 dos ENVC .

O protelar dos acontecimentos, sem uma definição concreta da sua realização, bem como a inobservância de certas regras básicas contribuíram   em grande parte para o precipitar da situação, redundando no acidente.

 O GLOBAL MACEIÓ, saiu para a primeira viagem, após reparação, sob o comando do Capitão Castro da Marinha Mercante Brasileira no dia 04-08-86, com destino igualmente a Huelva.

publicado por dolphin às 22:48
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11
Mar 07

Rio de Onor

"Se te sentisses mal agora ligava para o hospitalilho de Puebla de Sanabria e daqui a dez minutos estava aqui uma ambulância com dois médicos". Era assim que um comerciante espanhol, do outro lado da fronteira de Rio de Onor , comentava os cuidados de saúde que por cá vamos tendo.

Sómente um rio os separa, mas a diferença entre os dois lados é em quase tudo desigual, ordenado mínimo, pensão, assistência social, cuidados de saúde, educação e por aí fora...

Quando os cuidados primários estão nesta situação, os responsáveis preocupam-se em construir aeroportos, linhas de comboio de alta velocidade...

E esta! Hem !

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As Scuts e as pontes...

Quem conhece a estrada nacional treze E.N.13 ), sabe que no seu percurso do Porto a Valença existem várias pontes, das quais destaco duas, Viana do Castelo e Fão , por estarem neste momento em obras de manutenção/reparação. Essas obras estão atrasadas e desconhece-se o termino da sua conclusão. Entretanto a Comissão de Obras Públicas, Transportes e Comunicações da Assembleia da República, constituída por deputados dos vários quadrantes políticos, vem em visita à ponte de Fão .

Li algures que os deputados foram convidados  a fazer uma viagem pela EN 13, será integrada nesta visita à ponte de Fão que vão aproveitar para fazer essa viagem? Desconheço, mas o que não desconheço é o tempo que se leva a chegar de Viana ao Porto pela EN13 , sempre variável, consoante as horas, os dias, os tráfegos, as localidades atravessadas, mas nunca menos de duas longas e perigosas horas.

Convenhamos que em pleno sec . XXI, para percorrer cerca de setenta quilómetros, são precisas duas horas é demais.

Também sabemos que foi com um governo socialista, ao tempo ministro das Obras Públicas o Eng. Cravinho, que se lançaram as Scuts e se garantiu a gratuidade das mesmas.

Parece-me que agora o governo, da mesma cor política, que fez campanha  defendendo a gratuidade das Scuts arrependeu-se e fez marcha atrás.

Este também é um bem primário das populações, para isso pagam impostos.

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Notícias de Viana

Lamentável: "Caves de bairro social ocultavam fossa há anos"

Parabéns: " Sete praias candidatas à bandeira azul " (pena a Praia Norte mais uma vez não ter sido incluída).

Parabéns : " Ecovia junto ao mar " (oxalá seja para breve).

Parabéns : " Sport Clube Vianense apaga 109 velas - Aniversário comemorado até depois de amanhã "

 Fonte: Jornal de Notícias, Domingo 2007-03-11

publicado por dolphin às 17:53

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