Blog que retrata os acontecimentos do mar e porto de Viana e arredores, nos bons e maus momentos, dos pequenos aos grandes senhores.

24
Jun 07

Ao fim de dois anos na E. Náutica na Rua do Arsenal, terminava o chamado Curso Geral de Pilotagem. Esperava-me agora a vida profissional a bordo dos navios.

Após uns dias na capital para ultimar os preparativos com vista a obter a cédula marítima (espécie de passaporte que me iria permitir embarcar em qualquer navio da marinha mercante portuguesa), fui passar uns dias à terra.

Tive a sorte pelo meu lado, quando no dia 15 de Agosto de 1969, na Borralha , perto de Águeda , juntamente com uns amigos de Lisboa, tivemos um acidente. O carro em que seguíamos , bateu noutro que estava estacionado na berma da estrada, capotou e apesar do aparato  ficamos ilesos, com excepção do motorista que teve de ir ao hospital onde lhe foi diagnosticada uma entorse no pé esquerdo que ficou preso no pedal do travão. 

Depois de umas férias curtas na terra, havia que regressar a Lisboa afim de preparar o embarque no N /M Ganda " da Companhia Colonial de Navegação, o navio-escola " da companhia no dizer do segundo piloto Orlando Lopes, que me recebeu a bordo com muita amizade e cordialidade, pondo-me à vontade e presenteando-me com um jantar  numa marisqueira em Algés. Jamais esquecerei esta faceta da minha vida e o Orlando Lopes a quem perdi o rasto e não mais consegui contacto.

 

 

Junto ao Ganda em Moçâmedes em 1971

O Comandante era o Armando Artur Soares Machado, que vinha de exercer as funções de 2º. Comandante do "Santa Maria", paquete que a companhia inicialmente me havia destinado, mas que eu recusei. O Imediato era o Armando Vicente e o contramestre era o algarvio Maio. Havia um fiel do porão nº 4, de nome Henrique, natural de Peniche que fazia quarto de navegação comigo. Outros havia que tenho presente a fisionomia mas que não consigo associar o nome. Foram duas viagens a África maravilhosas e que constituíram o meu baptismo de mar.

 

A Madeira

 

Depois de irmos a Leixões onde carregamos calçado e vinho, voltamos a Lisboa terminar o carregamento.

À saída de Lisboa o comandante traçou rumo para o Funchal. Ninguém sabia deste pormenor excepto o comandante, porque estávamos em tempo de guerra (Guerra do Ultramar ou colonial)  o navio transportava material bélico e o convés estava repleto de tambores de gasolina para aviões, altamente inflamável.

 

 

Passado Porto Santo, de imediato se avistou a ilha da Madeira e poucas horas depois desfrutava a bela paisagem da cidade do Funchal que me ficou na retina para sempre. 

A razão do desvio da nossa rota era o abastecimento de nafta (combustível do navio) que habitualmente era feito em Las Palmas de Gran Canária mas que nesta viagem fora estrategicamente determinado ser feito no Funchal por motivo de segurança.

Com pena deixamos o Funchal pela popa. A estadia (tempo em porto) foi curta, somente o necessário para abastecer. Mal deu para escrever um postal e ir ao correio depositá-lo.

Durante a noite, revelou-se a minha inexperiência, no momento em que comecei a ver cair faúlhas no convés que se mantinham incandescentes alguns segundos por sobre os bidões de gasolina.

Que fazer?

Esta questão martelava a minha cabeça incessantemente, sem encontrar resposta adequada. A minha posição a bordo era naturalmente de praticante de piloto de 1ª viagem (trancas), como se diz em linguagem marítima, sem qualquer função responsável, mas subordinado e sob a responsabilidade do capitão do navio. Fazia quarto com o capitão que era o meu tutor de estágio e por isso nada fazia sem lhe dar conhecimento.

A solução estava encontrada, havia que chamar o comandante e ele decidiria o que fazer ou não fazer perante esta situação que à minha vista e na minha ignorância aparentava ser perigosa.

Senhor Comandante pode chegar à ponte! - O comandante estava sentado no camarote a ler, mesmo ao lado da ponte e veio imediatamente logo que o chamei.

Não foi preciso descrever-lhe o que se estava a passar. Observou preocupado as faúlhas que continuavam a cair nos bidões por vante da ponte, impelidos pelo vento do quadrante norte que soprava da popa. Passado pouco tempo dirigiu-se à casa de navegação e traçou rumo a passar por fora das Ilhas Canárias.

Governa a 220º. - Disse para o timoneiro (marinheiro do leme).

Durante algum tempo observou o movimento das faúlhas que começaram a cair na água pelo lado de bombordo (lado esquerdo relativamente ao movimento do navio) apagando-se em contacto com a água.

No dia seguinte o vento abonançou e mudou de direcção possibilitando restabelecer o rumo em direcção ao Cabo Verde, ponto tangencial da nossa rota em direcção a Angola.

publicado por dolphin às 23:28
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18
Jun 07

É uma data marcante na minha carreira nos Pilotos da Barra de Viana do Castelo e é também uma data importante para a cidade de Viana do Castelo.

Nesse dia sucederam-se vários acontecimentos dignos de registo na história de Viana.

A inauguração da Estação de Pilotos de Viana - Departamento de Pilotagem do Porto de Viana do Castelo pelo senhor Prof. Dr. Aníbal Cavaco Silva, na altura primeiro ministro que contou com a presença do então ministro das Obras Públicas,  Engº Ferreira do Amaral e demais autoridades civis e militares e do Sr. Bispo da diocese nesse tempo o D. Armindo Lopes Coelho.

 

 

À tarde realizaram-se as cerimónias militares comemorativas do Dia da Marinha, conjuntamente com o Dia das Forças Armadas e ainda as cerimónias civis comemorativas do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades.

Foi sem dúvida um dia "Maior" para Viana do Castelo e arredores que trouxe a esta pacata cidade do Alto Minho os Estados Maiores da Presidência da República, Conselho de Ministros, Forças Armadas, Exército, Marinha e Força Aérea, muitos acessores e militares e ainda um grande número de pessoas que quiseram associar-se a estes eventos.

 

 

A Marinha estava representada em termos materiais com fragatas, patrulhas e diverso material bélico. Por outro lado a Aporvela fez-se representar com uma réplica da Caravela Boa Esperança que tive oportunidade de manobrar quer na entrada/saída e mudanças da Doca Comercial para o estuário do rio Lima e vice-versa e que não resisti a tirar as fotos que documentam este post. 

 

  A Boa Esperança fundeada no Rio Lima

 

 

 

 A caminho da barra

 

 

 

 

publicado por dolphin às 23:13

17
Jun 07
O regresso à Terra Nova
 
Os franceses começaram a debandar. Uns regressaram a França, caso do “Colonel Pleven” e do “Marie de Grace”, que me lembro, os que ficaram dispersaram-se à procura pelo Mar de Barents, Ilha dos Ursos, Spitzbergen e costa Norueguesa sem jamais se encontrar um contacto credível. Foi então que os portugueses voltaram a conferenciar e decidiram regressar à Terra Nova para aí terminar a viagem.
Entretanto outros navios saídos de Portugal que iam com destino à Noruega, inverteram a rota e rumaram à Terra Nova, lembro-me do Santo André que nem chegou a largar a rede.
Esperava-nos uma longa viagem de cerca de duas mil milhas, ou seja, cerca de seis a sete dias de navegação em condições normais de mar e vento, se não tivéssemos nenhum contratempo como acontecera na vinda com o campo de gelo.
Assim não aconteceu porque a rota foi efectuada mais pelo sul a caminho do Flemish Cap (banco de pesca mais oriental da Terra Nova) passando pelo norte das Ilhas Faröe.
A viagem foi aproveitada para fazer reparações nas artes de pesca que devido à falta de conhecimento dos pesqueiros se danificaram mais do que o previsto.
Na Terra Nova as capturas haviam melhorado, os navios que lá se encontravam tinham efectuado na última semana consideráveis quantidades no Grande Banco. Uma curta passagem pelo Flemish Cap só para tirar dúvidas e no dia seguinte estávamos a pescar no aglomerado de navios surtos no denso nevoeiro que cobria toda a área do Great Bank.
Russos, espanhóis, ingleses e portugueses naturalmente, varriam toda a zona com as redes de pesca que se cruzavam tangencialmente até que dois deles engataram portas e redes a que se lhe juntaram outros debaixo do manto espesso de nevoeiro que não deixava antever o que se passava. Que confusão! Que “molhada” se formou e que dificilmente se iria desenvencilhar sem demoras e sem estragos nas artes. Para mais a falta de comunicabilidade era um impedimento a ter em conta, estavam envolvidos navios de diversas nacionalidades qual torre de Babel.
Percorridos os pesqueiros tradicionais, Horta, Cú do Banco, Flemish, Labrador, Grande Banco, na busca do tão desejado Gadus Morhua (bacalhau), chegou a altura de ir a terra abastecer de combustível e víveres e retemperar forças para nova etapa.
Todos nós ansiávamos pelo dia de arribar à mítica cidade de St. John’s da Terra Nova. Para mim, novato nestas andanças bacalhoeiras, era a primeira vez, por isso mais expectante se tornava a almejada quão tonificante estadia na capital da Terra Nova.

Entrada de St. John’s vista de Signal Hill
 
A estadia foi curta, porque a pesca assim o exigia, mas suficiente para superar desânimos e frustrações acumuladas na fruição diária da insípida e dura vida a bordo.
Apesar do pouco tempo em terra, depois das leituras da correspondência que nos deixa saudosamente tristonhos e abatidos, há sempre um tempinho para alegrar e dar largas à folia contida nos meses de solidão, visitando os bares e night-clubs habituais para beber um copo… ou mais e tentar mais não sei o quê. Só tentar!...

 

St. John’s - Memorial University of Newfoundland
Partíamos para a última etapa desta pouco proveitosa (creio que pescamos cerca de 16.500 quintais, mais o peixe congelado, nessa altura ainda numa fase experimental) mas diversificada e enriquecedora viagem de pesca, que me permitiu percorrer todas as possíveis zonas de distribuição do bacalhau, logo na primeira viagem.
Que experiência memorável!
 
publicado por dolphin às 17:34
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16
Jun 07
Sol da meia noite
 
Era meia noite quando saímos de Hammerfest e o sol mantinha-se acima do horizonte envolto numa atmosfera dourada de raios de luz amarelo pálido que se escoam por entre as montanhas escarpadas que contornam os fiordes profundos da costa recortada do norte da Noruega.
 

 
O sol da meia-noite no Cabo Norte (Nordkapp), Noruega
Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
 
Fora do porto aguardava-nos o Santa Cristina que esperava fazer serviço para receber os planos copiados por mim do original para poder entrar em Hammerfest com segurança e depois passar as outras três cópias aos navios que as tinham pedido ao capitão do Lutador.
Num mar estanhado, caldeado pelos tons metálicos do sol da meia noite, navegamos para nordeste rumo ao cabo Norte onde o sol da meia noite me pareceu mais espectacular, cintilando em tonalidades de um dourado pálido e mortiço como que a pedir que o deitassem para repousar de tantos dias sem descanso. Estávamos em pleno mar de Barents, avistamos alguns navios soviéticos na faina da pesca e largamos a rede numa zona desconhecida com fundos de lama segundo indicação da carta náutica.
Nestas latitudes para além do Círculo Polar Ártico, no Verão o sol mantém-se 67 dias acima do horizonte sem haver pôr-do-sol. Para nós que não estamos habituados a esta claridade e necessitamos de descansar porque o trabalho é por quartos (turnos), a solução encontrada para provocar o escuro foi forrar com papel, plástico ou pano de cor escura as vigias do camarote.
 

 

Sol da meia-noite à saída de Hammerfest, na Noruega
 
Um dia quando pescávamos nesta zona do mar de Barents o imediato quando virou a rede saiu-lhe em sorte uma sacada monumental de “limões”, espécie da família das esponjas mas com uma particularidade, possui uns picos cortantes tipo lã de vidro e é de difícil despejo, ficando presas umas nas outras e cortando as malhas da rede e do saco com as tentativas de as despejar. Para além de se ter perdido um tempo imenso, cerca de três horas para despejar o saco, a rede ficou toda traçada, imprópria para utilização futura.
A antecipação ou iniciativa própria não constituiu nesta viagem o forte dos portugueses que andaram toda a viagem às sobras dos franceses, talvez porque desconheciam a zona e não arriscavam meter-se em aventuras que pudessem ser-lhes prejudiciais. Mais uma vez os franceses um a um desapareceram do mar de Barents e passados dois dias anunciavam boas capturas no Svalbard.
Após conferência entre os capitães, nova emposta para o Spitzbergen e mais uma vez chegamos atrasados. A pesca em zonas baixas é ingrata. O bacalhau pelas suas características hidro-morfológicas e ambientais é um peixe omnívoro e muito voraz que é atraído por outras espécies de peixes como o sandilho, o capelim, a lula e, nas zonas de baixa profundidade relativa para a espécie, corre grandes extensões em busca de engodo. Quando se tem a sorte de andar no encalço do fiel amigo consegue-se fazer óptima pesca.

In “ A Epopeia dos Bacalhaus”
Capelim
 
A pesca estava a rarear. Haviamos percorrido todos os pesqueiros do Atlântico Nordeste e nem sinal do tão famigerado gadiforme.
publicado por dolphin às 19:09
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15
Jun 07
Hammerfest

 
 
Uma vista de Hammerfest em 1970
 
Continuamos a pesca na Noruega, Mar de Barents, Ilha dos Ursos e Spitzbergen, confiantes e crentes nas informações de pesca dos nossos amigos franceses que se antecipavam sempre. Entretanto outros navios portugueses já se nos tinham juntado, os popas “Luís Ferreira de Carvalho”, comandado pelo capitão Humberto Martins e o “Inácio Cunha”, a fazer a primeira viagem sob o comando do capitão Vitorino Ramalheira. Chegavam notícias doutros navios clássicos que vinham a caminho da Noruega, uns partindo directamente dos portos portugueses, outros da Terra Nova onde a pesca estava praticamente nula. Não é que a pesca nos mares do Nordeste Atlântico, onde os portugueses pescavam pela primeira vez estivesse famosa, mas as informações escassas da Terra Nova e alguma curiosidade por novas zonas de pesca motivava os navios à descoberta e à aventura. Era o caso do Santo André e David Melgueiro que estavam em rota para a Noruega.
Antes da emposta (ir de rota para outro pesqueiro) para o mar de Barents, onde mais uma vez os franceses anunciavam capturas dignas de registo, havia necessidade de ir abastecer a Hammerfest, a cidade mais setentrional do mundo, onde diz a lenda, até os cavalos se espantam quando deixa de chover. Era a primeira vez que um pesqueiro português ia a este porto Norueguês, como era a primeira vez que os navios portugueses demandavam tais paragens, por isso não estavam equipados com cartas náuticas de aproximação a este porto, (planos) com excepção do Lutador.

 
A praça principal de Hammerfest em 1970
 
Como o porto era pequeno e o cais não comportava mais que um ou dois navios resolveram ir um de cada vez, começando pelo Lutador que tinha carta náutica e ainda não tinha abastecido. Os outros pediram para comprar cartas náuticas de Hammerfest, mas estavam esgotadas e fui incumbido pelo capitão de copiar a única carta que havia para os outros navios, tarefa que me impediu de durante o dia que estivemos em terra poder passear pela pequena cidade.
Apesar disso fiquei com uma imagem agradável desta pequena mas simpática cidade piscatória da Lapónia Norueguesa, situada a pequena distância do Nordkapp (Cabo Norte) o ponto continental mais setentrional da Europa. O povo Lapão e as renas encantaram-me e guardo na minha memória gratas recordações do pouco tempo que lá passei.
publicado por dolphin às 19:43
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14
Jun 07
A rede pelágica
 
Os nossos amigos portugueses já estavam perto do pesqueiro e aprontavam as redes pelágicas (redes que pescam a meia água, variando o comprimento do cabo e a potência da máquina) com que os navios de arrasto pela popa foram equipados de construção, mas que para além de um teste no início, jamais foram utilizadas. O mestre de redes também recebeu instruções para colocar a rede pelágica pronta para largar quando chegássemos ao pesqueiro e lá foi para o convés sem muita convicção.
O nevoeiro parece que nos estava a perseguir. A zona de pesca onde estavam os arrastões franceses e portugueses, estava invadida por névoa que se estendia por toda a área de manobra utilizável.
Foi uma operação demorada a manobra de largar a rede pelágica. Era uma novidade para todos sem excepção, do convés à ponte. Cada passo era na prática uma aprendizagem, porque em teoria todos tinham umas luzes de algo que leram ou viram noutra altura ou noutro sítio. Finalmente a rede estava na água, era possível através do transdutor (sonda de rede) instalado no cabo da pana (cabo que sustenta a rede na parte superior) visualizar a bordo noutra sonda a abertura vertical da rede e orientar a mesma, subindo-a ou descendo-a em direcção ao cardume que era detectado à passagem do navio. Mais tarde verifiquei que este processo era ainda bastante incipiente, relativamente à forma, um pouco à sorte, como era efectuado, pela falta de detecção à distância do cardume com o sonar (aparelho de detecção localizado na parte de vante do costado do navio junto à quilha e que permite efectuar um varrimento direccional angular lateral e vertical) e a possibilidade de orientar a rede na direcção do cardume obtendo melhores resultados.
Seguimos na popa dos franceses e quando a detecção do cardume desaparecia davam a volta e arrastavam em sentido oposto, procurando seguir o mesmo percurso. Fizemos o mesmo mas o mais difícil estava para vir. Não conseguimos dar a volta num raio de acção curto como eles e retomar o mesmo trilho e, por outro lado, não conseguimos evitar que a rede fosse ao fundo provocando avarias. A solução era virar a rede e ver o que tinha acontecido. Os cabos estavam entrelaçados, as portas de arrasto também e a rede estava toda esgalhada na barriga (parte inferior da rede a seguir ao arraçal – cabo que sustenta a rede inferiormente), mas o saco (parte posterior da rede onde é ensacado o peixe) boiava, sinal que tinha peixe dentro. Do mal o menos, nem tudo estava perdido, há que consertar e voltar a largar. O mesmo tinha sucedido aos outros arrastões portugueses que se queixavam das redes embaraçadas e partidas.

in "Manual de Tecnologias de Pesca" da E.P.P.

 Esquema da arte de pesca pelágica

 

Enquanto estávamos parados na reparação dos estragos causados pela manobra errada que efectuamos por desconhecimento, a névoa dissipou-se, avistamos os navios franceses e pudemos verificar como é que eles efectuavam a manobra de dar a volta. Simples, rápida e eficaz. Viravam os cabos até as portas de arrasto ficarem ao lume de água actuando como leme e fazendo girar o navio quase no mesmo ponto com um raio de rotação muito curto permitindo ir retomar a mesma rota antes percorrida indo ao encontro dos cardumes anteriormente detectados.

Pena que depois de termos a rede pronta o peixe desapareceu e os franceses também, era a sina desta viagem, sempre atrasados no tempo e no momento preciso. Ainda viemos a utilizar a rede pelágica uma vez mais no norte da Ilha dos Ursos com a captura de um cardume de cerca de 200 quintais, foi um lanço lindo e limpo, peixe todo graúdo, homogéneo, vivo, a saltar na praça do peixe, enchendo-a.
 
publicado por dolphin às 23:22
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13
Jun 07
O campo de gelo
 

O Lutador durante as provas de mar
 
Um estremeção forte acordou a tripulação que se levantou de imediato e veio indagar o que tinha acontecido. A princípio pensei que abalroamos com outro navio, porque estávamos longe de terra, não era possível encalharmos e o estrondo foi seco e curto. Quando cheguei à ponte, já lá estava o capitão com o imediato que estava de quarto de serviço. O radar apresentava uma mancha de muitas milhas pela proa, pela nossa frente estava um imenso campo de gelo. O navio tinha parado mas os blocos de gelo disperso batiam no costado e faziam estremecer o navio, parece que cortavam o costado como um diamante deslizando lentamente com a corrente.

in a "Epopeia dos Bacalhaus"
Campo de gelo
Tínhamos de sair dali imediatamente. Uma observação no radar permitiu concluir que se rumássemos a sul ficaríamos livres da mancha visível no radar, mistura de growlers e névoa. Tal assim não aconteceu e cedo percebemos que a solução teria sido inverter o rumo, mas agora de nada valia mudar de direcção, a solução era avançar lentamente procurando as clareiras abertas no campo de gelo em decomposição. Tínhamos a nosso favor as noites serem curtas e haver uma luz difusa que permitia avistar as clareiras mais escuras no meio do gelo branco e seguir com precaução, sofrendo com os impactos dos pequenos blocos de gelo que quer dum bordo quer do outro, faziam mossa no costado, causando arrepios de pavor.
Perdemos a noção do tempo, redobrando a atenção ao gelo e às manobras da máquina que era preciso parar e inverter em muitos casos, para atenuar o impacto de um bloco que não tinha sido possível evitar.

in "o Grande Livro dos Oceanos"-Selecções do Reader's Digest
 
O super-petroleiro e quebra gelo "Manhattan"em 1969 lutando contra o gelo
 
Os navios que tinham ido a Reyqjavik abastecer estavam de saída e rumavam pelo sul da Islândia para a Ilha dos Ursos, nós continuávamos encurralados no campo de gelo, sem vislumbrar caminho para a saída, a nossa velocidade era pouco maior que o deslocamento do gelo que se dirigia para sul, por isso a nossa progressão era pequena correlativamente.
Parecia que estávamos no meio dum labirinto sem encontrar a saída. Imaginava-se o pior, tomaram-se precauções para a eventualidade dum rombo as baleeiras e jangadas a postos, na máquina a máxima atenção, alerta máximo.

in "O Grande Livro dos Oceanos"- Selecções do Readers Digest
O Manhattan no meio do gelo
Ninguém dormia a bordo. Todos queriam colaborar dando indicações para bombordo e estibordo. Teve que ser posta ordem nas orientações que cada um dava, mandando desocupar a ponte, para se poder trabalhar com atenção.
Ao fim de mais de dois dias de sofrimento e cansaço, respiramos de alívio quando o mar à nossa frente estava limpo de growlers. Máquina a toda a força avante rumo à costa da Noruega onde os franceses estavam a fazer boa pescaria com redes pelágicas.
 
publicado por dolphin às 22:30
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12
Jun 07
O LUTADOR
 
Fui apresentado ao Capitão do “Lutador” no dia seguinte à saída do Ave Maria.

 

 
O Lutador atracado na ponte cais do Testa e Cunha
 
O navio partia dentro de duas semanas para os mares da Terra Nova, já tinha docado (operação que consiste em colocar o navio em seco para pintar e fazer reparações diversas), estava atracado numa das pontes cais em frente à Empresa Testa & Cunha na Gafanha da Nazaré. Comecei de imediato ao serviço, porque o actual imediato Arménio, tinha feito a última semana nas funções de piloto e precisava de descansar e tratar de assuntos pessoais antes de partir para a viagem.
Dali a dias partimos para Lisboa. Deu-nos saída o senhor Borges, piloto da barra de Aveiro que veio a terminar a sua carreira como piloto da barra de Viana do Castelo.
Em Lisboa, abastecíamos de gasóleo, mantimentos e bebidas, efectuávamos a regulação de agulhas, calibração do gónio (radiogoniómetro). Por vezes íamos a Setúbal meter sal, como dessa vez, e regressávamos a Lisboa para embarcar e matricular os últimos tripulantes antes de partir para a viagem.
Saímos em meados de Abril com destino à Terra Nova, a meio da viagem, depois dos Açores, devido a informações de pesca relevantes de navios que operavam na costa oeste da Groenlândia, com quem tínhamos código,(informações mais ou menos secretas entre navios de pesca com vista a salvaguardar as capturas) rumamos em direcção ao cabo Farewell (ponta sul da ilha da Groenlândia).
Entre os navios que se encontravam a pescar na Groenlândia, estavam os popas, Santa Isabel, do comando do capitão Manuel Mendes, Santa Cristina comandado pelo capitão José Rocha e o Santa Mafalda comandado pelo capitão João São Marcos, todos pertencentes à Empresa de Pesca de Aveiro do senhor Egas Salgueiro.
Avistamos os primeiros growlers a cerca de cem milhas a sul do cabo Farewell e o capitão recomendou-me muita atenção, bem como aos vigias. Ainda largamos a rede na zona do cabo Farewell para fazer tempo à espera dos outros navios que se encontravam a pescar no banco Fillas e que navegavam para sul, mas pouco pescamos, contudo foi surpresa para mim todo o processo porque nunca tinha observado a maneira como se larga e vira a rede de arrasto. Por outro lado tive a oportunidade de ver ao vivo um bacalhau ainda a saltar. São momentos inesquecíveis que ficaram filmados na minha retina para sempre.
No dia seguinte quando entrei de quarto (período de serviço de quatro horas podendo ir até seis horas), já navegávamos para nordeste em direcção à Islândia onde se encontravam navios franceses do mesmo código a fazer boas capturas.
Antes de chegarmos aos pesqueiros da Islândia o telegrafista recebia novo comunicado dos navios franceses nossos amigos, que rumavam para a Ilha dos Ursos, situada a noroeste da Noruega, onde outros navios do mesmo grupo estavam a fazer boas pescas.
Os capitães dos quatro navios conferenciaram ao VHF (aparelho de comunicação em Frequência Muito Alta) e resolveram dar um lanço (largar ou lançar as redes por um período de tempo variável) de experiência nos bancos da costa Norte da ilha, no estreito da Dinamarca.
A experiência foi bem sucedida e atrás daquele lanço sucederam-se outros e outros, um dia, dois dias, uma semana quase, até que, o aviso de um campo de gelo vindo da costa leste da Groenlândia aproximava-se da costa norte da Islândia. Não havia muito tempo para decidir o que fazer.
Os franceses continuavam na Ilha dos Ursos a efectuar boas capturas, mais uma vez os quatro popas trocaram impressões e optaram por rumar ao encontro dos franceses. Parecia que andávamos à caça do gato e o rato sempre na cauda dos franceses. Não havia outra hipótese, os arrastões clássicos (navios que largam/viram a rede lateralmente) que operavam no Grande Norte (banco da Terra Nova) faziam capturas insignificantes e estavam a pensar rumar à Islândia ao nosso encontro.
Entretanto, os navios da EPA (Empresa de Pesca de Aveiro) pediram autorização ao armador (aquele que arma ou prepara o navio para a viagem) para irem abastecer de combustível a Reyqjavik, capital da Islândia e partiram um dia antes, enquanto nós ficamos na pesca aguardando que eles saíssem para irmos em comboio para a Ilha dos Ursos.
A proximidade do campo de gelo, empurrando-nos cada vez mais para junto da costa, obrigou-nos a meter a rede dentro e rumarmos a Leste onde esperávamos encontrar mais segurança. Fomos avançando com velocidade reduzida para dar tempo a que os outros navios saíssem de Reyqjavik, mas desconhecíamos o evoluir do campo de gelo.

in "A Epopeia dos Bacalhaus"
Distribuição do bacalhau no Atlântico Norte (segundo Wise, 1961)
Estávamos numa latitude superior ao Círculo Polar Àrtico que tangencia o norte da Islândia. Nesta altura do ano , fins de Maio, os dias são longos e o sol põe-se por pouco tempo abaixo da linha do horizonte. Ao fim do dia surgiu uma névoa rota, fruto de um dia quente de primavera num oceano quase gelado e mantivemos a rota em direcção à Ilha dos Ursos debaixo do manto de névoa que entretanto se adensou um pouco em consequência também da chegada da noite, pequena porém, para nosso alívio.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
publicado por dolphin às 23:52
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11
Jun 07
As Matrículas
 
A apresentação ao capitão Manuel Machado foi fria e tensa, apesar de já nos conhecermos informalmente como amigo do capitão Ferreira da Silva, das minhas idas à seca por ocasião das férias do Natal, porque nas férias grandes era impossível encontrá-lo, estava nos mares da Terra Nova ou Groenlândia.
Traçou-me o panorama e o programa da próxima semana quando devia apresentar-me ao serviço e que consistia nas matrículas dos pescadores da zona norte, conforme me havia já referido o capitão Ferreira da Silva.
O capitão Manuel Machado combinou apanhar-me em Oliveira de Azeméis, ponto de passagem a caminho da Capitania do Douro, primeiro local de matrícula, previamente combinada entre as partes. Acompanhavam-no o sr. Dias, guarda-livros (contabilista) da empresa e o ZéTó, escrivão, que habitualmente era recrutado para estas tarefas.
No Douro a matrícula foi rápida, apenas dois pescadores da Afurada, pertenciam à tripulação do Ave-Maria. A próxima paragem era em Vila do Conde, aí sim, concentrava-se a maioria dos pescadores, verdes e moços. Estavam concentrados à porta da Capitania aguardando a chegada do senhor capitão. Uma algazarra enorme à nossa chegada, mal o carro estacionou em frente à capitania, abeiraram-se do capitão que a custo saiu do automóvel, tantos eram os que queriam fazer pedidos e exigências:
- Ó senhor capitão veja se me leva o meu irmão de moço, o senhor prometeu-me!
Enquanto o capitão ia tentando dirigir-se para a porta da capitania, outro ameaçava-o:
- Olhe que se o meu primo não for de verde eu não vou na viagem, tome sentido!
E as perguntas e “ameaças” sucediam-se em catadupa, todos querendo chamar a atenção do capitão que pacientemente ia atendendo e sossegando os mais inconformados.
-Este é que é o novo Imediato? Veja lá se aponta bem o peixe, homem de Deus! Olhe que é o nosso ganha pão. E com este mar de questões, conseguimos finalmente chegar dentro da capitania, onde nos esperava o escrivão, já conhecido do capitão doutros anos.
-Vamos então à matrícula senhor capitão? Dizia o escrivão e lá começou a chamar um a um os pescadores primeiro, depois os verdes e por fim os moços, voltando a surgir as exigências e as negas de embarcar ( se…isto, se… aquilo), sendo necessário pôr ordem por vezes aqueles que se exaltavam por não conseguirem fazer valer as suas pretensões.
Alguns pescadores poveiros devido à proximidade da Póvoa de Varzim, apareciam para reivindicar direitos e exigir coisas antes de chegar a vez de assinar a matrícula. Era uma estratégia já conhecida do capitão que há muito sabia destes truques e a todos dava resposta duma forma sábia e convincente, não permitindo abusos nem se deixando levar por intimidações.
- Devemos tratar todos por igual, não nos devemos deixar levar na conversa, nem prometer nada: - dizia-me o capitão durante a viagem para norte.
- Se eles nos apanham um fraquinho nunca mais nos largam com exigências e chantagens. É preciso ser firme e determinado, não vacilar.
Antes de matricular na Póvoa de Varzim, fomos almoçar num restaurante poveiro já conhecido de anos anteriores, quer do capitão, quer do senhor Dias, que fazem este percurso há anos e experimentaram outros restaurantes, acabando por escolher este porque tem bom peixe a gosto de todos e fica perto da capitania.
O panorama das matrículas na Póvoa não diferiu muito das de Vila do Conde, com a vantagem de não haver tanta pressão, os queixosos e os reivindicativos, já tinham feito as suas queixas e reivindicações em Vila do Conde de manhã e, ou já tinham o que queriam ou chegaram à conclusão que de nada adiantava reclamar ou exigir porque o capitão não cedia a chantagens.
Seguiram-se as matrículas em Esposende, Viana do Castelo e Caminha, que demoraram pouco, porque o número de pescadores a matricular era reduzido, um, dois, três no máximo. O grosso dos pescadores concentrava-se em Vila do Conde (Caxinas) e na Póvoa de Varzim.
Havia ainda outras matrículas a fazer dos pescadores a sul de Aveiro, Figueira da Foz, Nazaré, Peniche e os do Algarve, normalmente da Fuzeta, mas como o navio ia a Lisboa abastecer para a viagem essas matrículas eram lá feitas.
Durante a estadia do navio em Aveiro, na semana de serviço, hospedava-me em casa do sr. Capitão e da D. Bárbara, era uma imposição deles, levavam a mal se eu lhe fizesse essa desfeita.
Um dia à noite, ao jantar, o capitão F. da Silva disse-me:
- Já não vais no Ave Maria, vais de piloto para o “Lutador”. O Lutador era um moderno arrastão de popa que eu conhecia bem porque ainda estudante na Escola Náutica, tinha-o visitado nos Estaleiros de São Jacinto, antes da viagem inaugural, durante as provas de mar e conhecera o capitão Luís António, o imediato Peixoto e o piloto Arménio Figueiredo.
Fiquei mais uma vez surpreendido, mas contente, porque era isto que sempre ambicionara, ainda nem pensava entrar na Escola Náutica, fruto da minha convivência a bordo dos navios durante as férias que passava em casa do sr. Capitão e mais tarde das conversas com os colegas de Ílhavo e Aveiro no colégio de Albergaria.
- Mas senhor capitão, quem me vai substituir no Ave Maria? – perguntei perplexo, pois sabia da dificuldade em contratar oficiais para os navios de pesca à linha, cuja sobrevivência estava prestes a terminar, por obsolescência do tipo de pesca, por falta de pescadores e devido à dureza e pouca produtividade comparada com a pesca de arrasto.
- Cada coisa a seu tempo, temos agora é de resolver o problema do Lutador, o imediato Peixoto despediu-se, vai para os Pilotos da Barra, o Arménio passa a imediato e tu vais preencher o lugar de piloto deixado vago pelo Arménio. Além disso é melhor para ti, é a pesca do futuro e vais para um navio novo e que usa tecnologia moderna.
Assim disse e assim fez, eu não tinha voto na matéria, limitei-me a aceitar. A procura por lugares num popa era feroz, eram mais de sete cães a um osso, como se costuma dizer. Estava-me a ser oferecido um lugar de mão beijada, sem que tivesse movido uma palha para o conseguir. Porquê contestar ou recusar?
O capitão Manuel Machado também não fez a viagem no Ave Maria, resolveu rumar a Luanda, mas antes teve a amabilidade de me endereçar um cartão de despedida e uma fotografia do Lutador.
 

 

 Antes de partir para Luanda ainda me enviou outro cartão de despedida. Fiquei sempre a pensar que um dia nos iríamos encontrar num navio qualquer o que não chegou a acontecer.

 

publicado por dolphin às 23:47
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Jun 07
PESCA DO BACALHAU – 1ª VIAGEM
 
O AVÉ MARIA
 

O navio “GANDA”, pertencente à CCN (Companhia Colonial de Navegação) estava atracado em Lisboa na Doca de Alcântara (Espanhola) no cais do lado sul, junto à sede da Companhia quando o cap. Manuel Ferreira da Silva (Sardo) entrou pelo meu camarote na companhia do comissário Pestana dos Santos, filho do despachante oficial do mesmo nome, com escritório na Rua do Arsenal, ali mesmo em frente ao Zarzuela (bar restaurante que habitualmente frequentava quando no Curso Geral de Pilotagem).
A princípio fiquei surpreendido e naquele momento vieram-me à cabeça situações dramáticas que daí a pouco bani do meu pensamento, face à pergunta do cap. Ferreira da Silva:
- Queres ir ao bacalhau no Avé Maria ?
Não sabia o que dizer, fiquei perplexo e antes que tivesse tempo de responder ele completou:
- Sabes, tenho conversado com o teu pai e ele acha que ganhas pouco na Marinha de Comércio, comparado com o que se ganha na pesca do bacalhau. Tenho uma vaga de Imediato no meu navio Avé Maria, o capitão é da minha confiança e um bom profissional, vais em boa companhia, já o conheces porque to apresentei na seca, é o Manuel Machado.
Acenei com a cabeça em sinal de assentimento relativamente a conhecer o capitão e quando ia para falar, ele continuou :
- Vais ganhar bastante mais do que o que ganhas aqui porque eu sei o teu vencimento, o teu pai disse-me quanto ganhas e vais ganhar o triplo.
- Mas, senhor capitão, eu ainda estou no princípio da minha vida de mar e não tenho experiência alguma da pesca do bacalhau; respondi atónito, face a tamanha e surpreendente oferta. Ainda não estava refeito do impacto que tinha causado em mim esta súbita e inesperada oferta de emprego, quando ele ordenou:
- Vais falar com o capitão do navio, se possível ainda hoje, pedes-lhe o bilhete de desembarque e vê se consegues estar amanhã na minha casa na Gafanha da Nazaré para te apresentar ao Capitão do Ave Maria. Quando chegar ao escritório do senhor Pestana vou telefonar ao teu pai a dar-lhe a notícia. Estou certo que ele vai ficar contente.
Ia tentar justificar-me, argumentar que não podia tomar essa atitude perante o capitão do “GANDA” em cima da hora, o navio partia para África dentro de dias, não era uma acção muito digna da minha parte, o capitão Armando Artur Soares Machado tinha sido como um pai para mim, um amigo, um professor e não merecia que lhe fizesse isto tão abruptamente, mas de nada valeu, o capitão Ferreira da Silva acenando ao sr. Pestana dos Santos para descer as escadas, ia dizendo:
- Então até amanhã, tenho de ir andando porque tenho umas coisas ainda a tratar em Lisboa e não quero perder o comboio, porque amanhã tenho muitas coisas a tratar em Aveiro. Com dois navios a apetrechar há muito trabalho. Amanhã lá te espero para te apresentar ao capitão Manuel Machado, porque para a semana são as matrículas nos portos do norte. Referia-se aos portos do Douro (Afurada), Vila do Conde (Caxinas), Póvoa de Varzim, Esposende, Viana do Castelo, Vila Praia de Âncora e Caminha.
Acompanhei-os à escada de portaló e fiquei a pensar, confuso, sem saber o que fazer e como fazer. Sabia que o comandante Armando Machado costumava passar pelo navio por volta do meio dia. Por um lado agradava-me a ideia de ir à pesca do bacalhau, mas não nesta altura e desta forma, preferia ir quando tivesse mais alguma experiência de mar, tinha pensado em tirar a carta de Piloto de 2.ª classe e depois então fazer uma viagem num arrastão de popa como piloto, por outro temia desempenhar o lugar de imediato, ainda para mais num navio de pesca à linha, sabia da dureza da vida a bordo e ainda não me sentia preparado para enfrentar tarefa tão importante e árdua.
A referência ao vencimento manietava-me o pensamento e não me deixava decidir em conformidade com o meu querer. Parecia que tinha sido propositada a menção do dinheiro que iria ganhar na viagem. O capitão F. da Silva sabia que o meu pai se endividara para eu e o meu irmão estudarmos e tirarmos um curso, a amizade que havia entre as nossas famílias, possibilitara ao meu pai em certas alturas de dificuldade para pagar o colégio, recorrer a ele para cumprir com essas obrigações.
Tinha que encontrar uma solução antes que o comandante do “GANDA” chegasse. Era de facto muito dinheiro que estava em jogo e a possibilidade de enveredar por uma carreira que sempre ambicionara, por outro lado era faltar aos meus princípios de dignidade, de integridade moral que sempre me fora incutida pelo meu pai, mas como, meu Deus, como?
Sentia-me baralhado, impotente, perdido no meio do oceano como um náufrago, abandonado à sua angústia, sem solução para tomar no imediato e esse imediato era dentro de uma hora quando chegasse o capitão Armando Machado. Como é que havia de abordar o assunto? Qual iria ser a reacção? Tudo isto impedia-me de racionar friamente, sem pressas e sem pressões.
A situação económica pesou substancialmente na minha decisão, aliada à referência que o capitão Ferreira da Silva fez do meu pai, deixando para traz os princípios que sempre orientaram a minha vida, mas que com certeza o meu pai iria atenuar com bons e sábios conselhos, como o fez mais tarde e que me restituíram essa dignidade e moralidade que na confusão da minha mente pensava infringir ao pedir ao capitão a cessação do meu contrato através do pedido de passagem do bilhete de desembarque.
Na verdade, mais tarde e raciocinando com serenidade, não infringira nenhuma regra ou código de conduta, porque o meu contrato tinha terminado quando o navio chegara a Lisboa e ainda não tinha assinado o rol de matrícula para nova viagem, que simbolizava em termos marítimos a assinatura de um novo contrato.
Fiquei mais calmo e com a consciência tranquila, quando no dia seguinte, instalado confortavelmente no comboio que me levaria até a Aveiro, fumava um cigarro tranquilamente deixando espairecer um sorriso de prazer reconfortante, antevendo o reencontro com o capitão Ferreira da Silva e sua esposa D. Bárbara quando chegasse a casa deles com a novidade, já esperada, de embarcar num navio da Empresa de Pesca de Lavadores, Lda., assim se chamava a firma que detinham em sociedade com o mestre Manuel Maria Bolais Mónica e a D. Utelina, viúva do Sr. Conde, pais do amigo Tozé Conde, mais tarde Eng.º Conde que veio a ocupar o seu lugar na empresa, já eu estava em Viana do Castelo nos Pilotos da Barra.
O capitão Ferreira da Silva veio-me buscar à estação da CP em Aveiro no seu Opel último modelo que fazia questão em trocar sempre que surgia no mercado o mais moderno.
- Fizeste bem Manuel, não te vais arrepender, o teu pai está contente, já telefonei a dar a notícia. Amanhã vais a casa depois de te apresentar ao capitão Manuel Machado e receberes as instruções que ele tem para te dar. Não te esqueças que agora és o Imediato do Ave Maria e como deves calcular é um lugar de muita responsabilidade.
Enquanto ele falava eu ia pensando que não tinha transmitido ao meu pai a minha decisão, preferia transmitir-lha pessoalmente, ler-lhe nos olhos o seu assentimento e consentimento, sabia que isso lhe iria dar prazer e alegria, foi uma coisa com que sempre sonhara, ouvira-o dizer embevecido que trabalhava para que os filhos um dia pudessem ter uma vida melhor que a dele.
A senhora D. Bárbara, recebeu-me com uma doçura e carinho inolvidáveis, tecendo elogios e augurando um futuro risonho e promissor, relembrando tempos em que professora na minha terra, na serra da Senhora da Saúde, lá para as bandas de Cambra,  esperava pacientemente, sem notícias, a vinda do marido, então capitão do lugre “D. Dinis“ da Empresa Pascoal e Filhos, Lda. Que tempos, sem nada saber durante meses a fio, só quando o navio chegava à barra é que se sabia se tudo tinha corrido bem na viagem, se tinha morrido alguém, o navio arvorava uma bandeira preta em sinal de luto. Hoje é tudo muito diferente, há a rádio, mandam telegramas e cartas pelo Gil Eanes, navio hospital de apoio à frota bacalhoeira à linha, a frota branca como é conhecida em St. John’s da Terra Nova, por o costado dos navios ser pintado de branco. Quem diria que um dia o filho do Armando, o Manuelsinho, como ela carinhosamente me tratava, havia de ser um oficial Imediato do Ave Maria. Nem ela, nem eu, supunha naquele momento que tal não ia acontecer.
publicado por dolphin às 19:06
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