Blog que retrata os acontecimentos do mar e porto de Viana e arredores, nos bons e maus momentos, dos pequenos aos grandes senhores.

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Out 07

 

in"Revista de Marinha"

Fotos de Luis Miguel Correia

publicado por dolphin às 18:57
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Out 07

 

in "Revista de Marinha"

Fotos de Luis Miguel Correia

publicado por dolphin às 23:11
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Out 07
Eramos o grupo de sobreviventes mais próximo do São Jorge. À nossa volta só viamos mar e o navio em chamas, cujo clarão iluminava uma distância de cerca de 200 metros, não mais do que isso, devido ao espesso nevoeiro que nos envolvia.  Do Novos Mares e dos outros náufragos  nada sabíamos, mas deviam estar como nós, ao sabor das ondas geladas no meio do oceano.
Enquanto nos organizavamos no estabelecimento das tarefas a executar por cada membro da "embarcação" insuflável, um estampido despertou-nos e começaram as explosões dos bidões de gasolina. Era o fim do São Jorge, as labaredas aumentavam, toda a área da popa estava em chamas de cores diversas em resultado dos diversos materiais combustíveis. O tabuado da rabada começou de rebentar até ao cadaste, saltando tábuas a arder para o mar gelado. A água começou a entrar pela popa e o navio lentamente começou a levantar a proa para o céu como que a implorar misericórdia. A roda de proa estava fora d'água e toda a popa estava metida começando a apagar-se as labaredas que instantes antes consumiram a gasolina e outros materiais inflamáveis. Como que num fôlego o mar engoliu o navio e tal como eu previa, uma corrente forte puxou-nos naquela direcção. Ficamos a rodar naquele remoinho provocado pela sucção do navio e tudo ficou calmo à nossa volta, num silêncio fúnebre apenas quebrado pelo marujar da ondulação contra o costado emborrachado da frágil jangada.
 

O Imediato e o enfermeiro

E agora? - Pairava no ar esta inquietação.
- Agora vamo-nos manter unidos e organizados, não devemos esquecer-nos que temos um navio perto que mais tarde ou mais cedo nos vai recolher, pior seria se não tivessemos ninguém.
Desta forma sosseguei os mais receosos e acalmei  os ânimos dos mais exaltados e destemidos pondo ordem no grupo,  evitando o pânico, factor importante para o êxito de qualquer operação de salvamento.
Uma das técnicas de ocupação do espaço do habitáculo da jangada era sentarmo-nos de costas para o mar e os pés para o centro da jangada, duma forma radial. Teóricamente e com calmaria penso que seria a solução adequada, mas não naquelas condições adversas de mar cavado e desencontrado obrigando a jangada a mover-se erráticamente, sem controlo, ora subindo até à crista ora descendo até à cava da onda, qual casca de noz que se atira para a água e fica ao sabor da agitação.Dá a sensação que o estômago sai pela boca fora, o meio elástico de borracha que serve de fundo parece que não existe e que estamos  constantemente a ser mexidos por baixo como que a ser apalpados pela água gelada. Um cheiro a azedo começa a invadir o reduzido habitáculo onde doze homens respiram, transpiram e vomitam ao mesmo tempo. Até os mais fortes de estômago não resistem ao vómito.
 

O 3.º motorista e o Contramestre

Ao redor o escuro é a cor dominante, nem uma luz no mar ou no ar, parece que estamos no fundo de um poço onde nada se vislumbra, nem mesmo um buraco de céu. Alguns, cansados e enojados dos vómitos adormeceram embalados pelo incerto movimento do fundo elástico da jangada, enquanto outros prescrutam o horizonte na esperança de verem ou ouvirem alguma luz ou som que se aproxime e venha em nosso socorro.
- Sr. Imediato, Sr. Imediato! - gritava um dos que com a cabeça de fora estava de vigia.
- Parece que ouço um motor nesta direcção! - e apontava com o braço esticado a direcção donde ouvia o barulho.
- Schiu! Schiu! - mandei calar o pessoal que entretanto acordara sobressaltado com o grito do vigia querendo abeirar-se da janela para também escutar.
Coloquei a cabeça fora da janela e escutei atentamente, mas só ouvia o rugir do mar. Estava na cava da onda, no buraco,mais uns segundos até subir à crista e muito longe ouvi um barulho que ora se ouvia ora deixava de se ouvir. Não estavamos sós, concentrei o ouvido e não havia dúvida era o motor duma embarcação, pensei tratar-se da lancha de aliviar os botes do navio Novos Mares, só podia ser ela.
Lancei um Verylight (espécie de foguete de sinalização) na direcção do ruído, esperançado que fosse visto, apesar do espesso manto de névoa que nos envolvia.
- Apitem! Apitem com quanta força tiverem! -gritei e, ainda não tinha acabado, já um barulho estridente saído dos onze apitos dos homens se fazia ouvir, amontoados junto às duas janelas da jangada.
- Párem, párem de apitar! - gritei e fui-me colocar com a cabeça de fora junto a uma das janelas. O barulho era agora mais nítido, menos entrecortado, dava a sensação que se dirigia na nossa direccção. Voltei a insistir que apitassem com força e tentassem manter a jangada com uma das janelas "aproada", para o lado de onde vinha o ruído, com a ajuda dos pequenos remos. 
Aparecia e desaparecia uma luz ténue e mortiça e o barulho era agora bem perceptível, não havia qualquer dúvida que se tratava de uma embarcação que vinha na nossa direcção. Pouco a pouco a embarcação aproximava-se com um projector varrendo o mar de um lado para o outro como que a procurar algo. O pessoal continuava a apitar e a fazer uma algazarra ensurdecedora. A lancha estava quase a alcançar-nos. Passou rente a nós e atirou-nos uma retenida(cabo fino com uma pinha num dos chicotes para mais fácilmente ser atirado a alguém) que um dos pescadores apanhou à primeira.
Alem a retenida e prendam o cabo à jangada! - assim dizia o contramestre do Novos Mares que comandava a lancha e que passara um cabo ao outro chicote (extremo) para rebocar a jangada até ao Novos Mares.
 

Preparando os botes

- Já está passado, senhor Capitão! -ouvi o contramestre transmitir para o Novos Mares.
- Governa a Norte quarta de Noroeste ! - ordenava o capitão do bacalhoeiro Novos Mares. Estavamos prestes a ser salvos, mas outras aventuras ainda havia que vencer, a viagem a reboque da lancha e o embarque para o navio com condições de mar adversas.
Não foi fácil vencer essa pequena distância que nos separava do navio salvador, cerca de uma milha, como viemos a saber mais tarde. Os esticões originados pela diferença do comprimento do cabo/comprimento de onda, agravado pela amplitude da ondulação, pareciam que iam romper com a pega de amarração da jangada e, mais grave seria, se provocassem um rombo na câmara de ar que a fazia flutuar. Este cenário foi dos mais trágicos que vivemos, pela grande probabilidade de vir a acontecer. Naquelas condições adversas o mestre da lancha não podia fazer melhor, porque era difícil, senão impossível, avaliar as condições de ondulação,  prevenindo ou atenuando os esticões, reduzindo ou dando máquina consoante a situação. Por outro lado a visibilidade era nula e o barulho do motor abafava qualquer voz que tentasse fazer chegar a bordo da lancha.
Os da jangada bem gritavam alto: - Devagar mestre, devagar que vai partir tudo! - mas em vão porque os da lancha não conseguiam ouvir nada. A bordo da jangada o ambiente estava num caos, o pânico, até aí contido, apoderava-se dos homens que , impotentes e descontrolados pelos solavancos que os faziam cair uns sobre os outros, blasfemavam e irados esmurravam-se uns aos outros, sem saber o que faziam e a quem batiam.
O caos estava instalado. Por mais que eu gritasse tentando impor a ordem, ninguém me ouvia e muito menos obedecia. Um clarão pálido, duma luz difusa escoada por entre os milhões de gotículas de água do nevoeiro e da surriada, estava na nossa frente, era o nosso salvador. Foi sem dúvida o motivo apaziguador daquela balbúrdia infernal que se tinha instalado a bordo da jangada e que ninguém conseguia controlar e sossegar.
Um a um foram saltando para a escada de quebra-costas instalada a  meia-nau, por vante da ponte, com o navio fazendo socairo(abrigo) para permitir o embarque das pessoas em segurança. Apesar disso, por vezes, o contramestre que manobrava a lancha, não conseguia evitar que esta batesse com força contra o costado do navio, estremecendo e estalando numa convulsão que parecia que estava a partir-se. Foram momentos de nervosismo e ansiedade indescritíveis que cada um viveu a seu modo.
 

Partindo para a faina

Fui o último a embarcar. As condições de embarque tinham piorado entretanto com o navio a atravessar-se à vaga, a lancha não conseguia aproximar-se com o balanço transversal do navio, por motivo do rolo de mar. A escada de quebra-costas balouçava ora afastando-se do costado ora embatendo fortemente contra ele. Era assustador este cenário numa noite fria e nevoenta  com  mar de vaga cavada, pouca luz e uma escada de corda balouçando. Era preciso ser acrobata para abordar esta aventura e eu não o era. Por momentos pensei em desistir mas, uma força interior, que se consegue encontrar nos momentos difíceis e quando tudo já está perdido apossou-se de mim uma adrenalina que me impeliu para a escada no momento em que se aproximava da lancha conseguindo agarrá-la com a mão esquerda no chicote e ainda em balanço segurar-me com a direita ao outro lado da escada. O estrondo contra o costado do navio foi enorme e quase me obrigava a largar a escada mas, um força estranha e sobrehumana, ajudou-me a vencer esta adversidade e consegui colocar um pé no último degrau da escada. Naquele instante agradeci a Deus ter-me dado forças, agilidade, instinto, eu sei lá o que me ajudou a vencer a queda quase certa na água gelada e ficar imobilizado por hipotermia e perdido para sempre na noite de bréu naquele oceano agreste.
Quando me vi no convés do Novos Mares nem queria acreditar. Chorei de alegria, de comoção por estar salvo. Levaram-me para a ponte onde se encontrava o Capitão do São Jorge que se abraçou a mim num comovente abraço de felicidade e me disse: - Graças a Deus estamos todos salvos. O pesadelo acabou, só faltava você.
O nosso salvador rumou a St. John's onde chegou pela manhã para descarregar os náufragos.
 
 
 
 
publicado por dolphin às 22:16

Os últimos representantes da famosa White Fleet (frota branca) largaram finalmente do cais da cidade, junto à igualmente famosa Water Street na acolhedora cidade de S. João da Terra Nova, ou simplesmente St. John's. Eram eles o Novos Mares e o São Jorge da praça de Aveiro, que em Abril largaram de Lisboa juntamente com o Ilhavense, para a última campanha da pesca do bacalhau à linha. Havia um mês que o Ilhavense se perdera nos Virgin's Rocks e  os dois navios sobreviventes recolheram os náufragos, levaram-nos para St. John's e desde essa altura não mais regressaram aos bancos.

As negociações com os pescadores, seus representantes e armadores foram infrutíferas e não havia outra solução senão regressar ao porto de origem. Durante o impasse das negociações, uma delegação de altos representantes da Junta de Salvação Nacional , deslocou-se a St. John's numa tentativa de aproximar as partes apelando ao bom senso, mas desistiu, após uma reunião que se realizou na casa dos pescadores.

 

O Imediato

Nada fazia demover os pescadores de regressar a Portugal. Estavam ansiosos para ver as modificações que tinham ocorrido recentemente no seu país. As notícias que recebiam de casa fazia-os imaginar um "Eldorado" que mais tarde verificaram  não existir.

Era compreensível esta ansiedade, duma forma geral todos nós estavamos curiosos para saber ao certo o que estava a acontecer.

Pouco passava do meio dia quando deixamos de ver a garganta estreita da embocadura do porto de St. John's, envolta num manto de neblina que pairava sob as frígidas águas do oceano.

Os dois navios navegavam lado a lado a cerca de duas milhas, só vistos no écran do radar juntamente com pequenos growlers (blocos de gelo) errantes, quais pintaínhos de tenra idade à volta da mãe, dum iceberg encalhado a pouca distância da costa.

 

Icebergs encalhados pelo norte de St. John's

 

Era o quarto dos capitães que, através do VHF, traçavam a estratégia da viagem de regresso, ainda crentes no convencimento das companhas arriarem nos Virgin Rocks para pescarem peixe fresco para a viagem.

Enquanto esperavamos no salão pela chegada do Capitão para o jantar, fomos sacudidos pelo balanço transversal do navio, impelido por um mar cavado de sudoeste que o fazia estremecer e vibrar de proa à popa, qual miúdo apavorado com o temporal. Ele que tantos temporais vencera, nas idas e vindas para os bancos, estava agora temeroso como que pressentindo algo de estranho.

O criado, cambaleando, tentando equilibrar a terrina da sopa que a custo conseguiu trazer na tormentosa viagem da proa para a popa, amparado pelas pilhas de botes que protegiam da surriada que "chiparrava" de estibordo, serviu uma concha em cada prato para não entornar. Ainda não tinha acabado de servir todos os "oficiais", uma voz aflita e amedrontada gritava:

-Fogo, acudam há fogo na casa da máquina ! Senhor capitão está tudo a arder, estamos perdidos! - era o ajudante de máquinas do quarto do 2º motorista que este mandara pedir socorro na tentativa de poder debelar o incêndio que deflagrara no quadro eléctrico da casa da máquina junto à rabada.

 

O capitão e o Imediato

Num àpice, como se uma mola nos impulsionasse, enquanto o capitão corria para a casa da máquina para se inteirar da situação e tentar controlar o incêndio, cada um correu para os seus postos de salvamento.

A primeira ideia que me ocorreu foi galgar as escadas de acesso à ponte e chamar pelo "Novos Mares":

- Alô "Novos Mares" aqui "São Jorge", temos fogo a bordo, venham rápido!

E acto contínuo, comecei de emitir um Mayday (pedido de socorro) para toda a navegação. Enquanto isso, olho pela vidraça da porta da ponte do lado de estibordo e vejo sair pela chaminé do navio uma nuvem de fumo escuro e espesso e um cenário macabro e fantasmagórico perpassou pelo meu cérebro confuso e antevi a explosão dos inúmeros bidons de gasolina, para os motores dos botes, entre eles um tanque de mil litros peado(preso) no tombadilho das baleeiras junto à chaminé. Um arrepio invadiu todo o meu corpo num estremeção que não sei se era de frio se de medo. Desci ou "voei", não sei bem, para o convés onde o contramestre tentava fazer disparar a válvula de insuflação de uma jangada e fazendo parelha com ele conseguimos abrir a totalidade das jangadas do lado de estibordo, enquanto do outro bordo o Capitão com o chefe de máquinas fazia o mesmo.

 

O São Jorge a navegar

O navio balouçava incessantemente, atravessado à vaga cavada, projectando-nos ora contra a antepara ora contra o varandim. As jangadas, uma a uma, iam-se enchendo de tripulantes que partiam, cortando a boça que os ligava ao navio, afastando-se na bruma densa e escura. Naquelas latitudes nesta época do ano às seis da tarde já é noite, isto aconteceu precisamente por volta dessa hora quando iniciavamos o jantar. Depressa a noite caiu sobre nós como um manto escuro e húmido da neblina que volatizava do mar gelado que salpicava os corpos de pingos de gelo fazendo-nos tiritar de frio sem agasalhos que na azáfama do salvamento nem sequer houve tempo de ir buscar ao camarote.

As labaredas do incêndio deflagravam em laivos amarelo rubro crepitando pela chaminé. Pelos espaços abertos, portas, vigias, albóios, saíam fumaradas espessas entrecortadas de labaredas intermitentes, tentei entrar no meu camarote que ficava por baixo da ponte do lado de estibordo mas fui impedido, quase intoxicado pelo fumo espesso. Num reflexo instintivo deitei a mão a um casaco de cabedal castanho que antes da partida pendurara num cabide por cima do sofá à esquerda de quem entra no camarote. Não havia luz no camarote, mas um brilho intenso invadiu-o como um relâmpago mal me dando tempo de fechar a porta estanque do camarote evitando que as labaredas me queimassem.

 

Arriando os botes 

No meio deste cenário tétrico, acossado pelo balanço desencontrado, consigo agarrar-me ao varandim e deparo com um pescador de navalha na mão, prestes a cortar a boça da última jangada. Agarro num ferro que por ali andava solto e ameaço atirar-lho à cabeça se ele tentar  cortar o elo de ligação da jangada ao navio, único meio de salvamento que me resta.

Já não há movimento de pessoas a bordo, só se ouve o crepitar das faúlhas  e o ranger das tábuas, o fogo está prestes a atingir os bidons de gasolina que se encontram por cima da minha cabeça, o navio baloiçava ora aproximando-se ora afastando-se do costado do São Jorge. Por fora da borda, com os pés no trincaniz e as mãos no varandim, olhando para o mar tentando divisar a jangada que ora aparecia ora desaparecia da minha vista, desloquei-me longitudinalmente na esperança de conseguir dar um salto certeiro e cair dentro da jangada evitando cair na água gelada.

Ao fim dum longo tempo que não sei quantificar, exausto, sem forças para me aguentar mais tempo, os braços e as pernas cederam e deixei-me cair no abismo, qual jogador desesperado aposta num golpe de sorte ou tudo ou nada, assim eu entreguei o meu destino nesse salto para o desconhecido.

Uma dor aguda e profunda na perna direita como um cutelo sobre um osso acordou-me para a realidade, dando a sensação imediata de que tinha partido a perna, mas estava a salvo dentro da jangada.

Ainda mal refeito da dor que me invadia a perna, felizmente não estava partida, pela abertura da lona da cobertura da jangada vejo o clarão das chamas brotando pelo albóio da casa da máquina e imediatamente ordenei que pegassem nos pequenos remos da jangada e começassem a remar para nos afastarmos do navio o mais rápido possível afim de evitar o efeito de sucção  quando o navio fosse para o fundo. (Continua)

publicado por dolphin às 21:57

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