Blog que retrata os acontecimentos do mar e porto de Viana e arredores, nos bons e maus momentos, dos pequenos aos grandes senhores.

29
Dez 09

O MILAGRE...

Naquela época, em que as comunicações eram ainda muito incipientes, e não se tendo encontrado sinais da tripulação, restava a esperança que tivessem sido recolhidos por algum navio.

No dia 12-12-1913 o jornal “A Aurora do Lima” noticiava “No combóio das 7 da tarde de ante-hontem chegou a esta cidade a tripulação da chalupa “Rasoilo”, que, como desenvolvidamente noticiamos, appareceu abandonada e desmastreada ao mar da Guardia, sendo rebocada para Vigo, onde se ultimam negociações para que volte ao nosso porto.”

Entre as gentes do mar a esperança é sempre a última a morrer. Foi o que aconteceu com o mestre da chalupa “ Mensageira” que sempre acreditou que os tripulantes estavam vivos e por isso “O mestre da chalupa “Mensageira”, sr. António Machado, que é um verdadeiro crente e devoto da Virgem d’Agonia, prometteu uma missa pedida, caso os tripulantes da “Rasoilo” fossem levados a porto de salvamento.”

A explicação de como aconteceu o acidente e consequente abandono, é-nos dada pelos tripulantes em discurso directo que se transcreve na íntegra:

“Sahimos de Setúbal no dia 4 de Novembro, com destino a Vianna. A “Rasoilo” trazia carga diversa. Seriam 7 horas da manhã do dia 9, entre o Porto e Espinho, a 30 milhas(10 léguas) de longitude, uma violenta volta de mar arrebentou a vela e partiu, rente ao convés, o mastro grande.

Imagine o nosso desalento ante semelhante desastre. Só Deus nos poderia salvar. Uns rezavam, outros choravam. E olhe que o caso não era para menos!...

Só em me lembrar este bocadinho, arrepiam-se-me os cabellos!... Era um quadro digno de ver-se; um navio desmantellado, à mercê das ondas, e a sua tripulação de joelhos sobre o convés, a implorar a protecção divina!...

Mas vamos à narrativa. Depois de ganharmos um pouco de ânimo, tratamos de pôr as coisas em estado de algum caminho podermos fazer, embora entregues ao mar e tempo, pois que o navio não tinha governo.

O mastro quando cahiu arrastou a cozinha, que foi pela borda fora. Escusado será dizer que não se podia comer coisa alguma.

O navio era constantemente enxovalhado pelas vagas. Conforme podémos e fomos alliviando, para que assim resistisse ao embate das ondas e alguma volta de mar nos não limpasse. E nesta afflictiva situação nos conservamos sem que ao menos ao largo se divisasse uma vela que nos trouxesse uma leve esperança!...

Só Deus nos podia valer.

- E que tempo durou tal conjuntura?

Às 7 da manhã do dia 9 cahiu o mastro e só às 9 da manhã do dia 11 é que avistamos um vapor! O sr. não calcula a impressão que nós sentimos quando lhe vimos o fumo!

Os srs. dos jornais talvez não acreditem em Deus; pois vão para o mar, assistam aos transes afflitivos a que estão sujeitos os que por lá andam, e venham depois, por mais livres-pensadores que sejam, dizer-nos que Deus não existe.

Obtemperamos ao nosso interlocutor de que somos cathólicos, sem carolismo, e portanto crentes de que Deus existe.

Pediu-nos desculpa e prosseguiu na narrativa.

O vapor, ao qual fazíamos signal  pedindo socorro, a nós se dirigiu.

Estabeleceu-se então o serviço de salvação. O sr. não imagina o afan com que a tripulação do vapor trabalhou no lançamento, ao mar, do salva-vidas. Foi um trabalho insano! Uma lucta mais que humana! O salva-vidas no mar e os seus seis tripulantes, cada um a seu remo, eram seis leões; cada qual dando o que mais podesse para se approximar da “Rasoilo”. Foi um bocado bem difficil, mas na graça de Deus e Maria Virgem, cá estamos em terra firme.

O mestre não queria abandonar o navio; mas nós e os nossos salvadores, que bem reconheciam a emminência do perigo, impozemo-nos e elle não teve remédio senão abandonar a nossa querida “Rasoilo”.

(O nosso interlocutor emocionou-se e teve um momento de pausa, parecendo engulir as lágrimas).

Pedimos ao comandante do vapor para rebocar a chalupa, mas elle disse que o mar era muito e por isso só podia salvar as vidas.

Depois approximou-se um vapor de cabo submarino e a seguir passou um paquete, que parou, para nos prestar auxilio, que não necessitavamos por já estarmos a bordo do “Scawby”, navio de 6.010 toneladas.

O commandante disse-nos que ia telegrafar para terra participando levar náufragos a bordo. Pedimos para nos deixar no porto mais próximo; não esteve pelos autos, allegando, e com razão, o violento temporal que fazia; e lá fomos até Newport.

Que santo homem elle é. Que de carinhos elle nos dispensou! Ainda há boas almas!

A tripulação tambem não teve mais que nos fazer.

Em Newport estivemos cinco dias e fomos sempre muito bem tratados.

A propósito: Diga no seu jornal aquillo que já hontem lhe pedimos quando fomos à redacção. O nosso reconhecimento ao capitão do vapor “Scawby”, aos marinheiros e aos consules portugueses. Diga que os marinheiros da “Rasoilo” lhes beijam as mãos reconhecidamente.”(1)

Foram rezadas missas a pedido do sr. António Machado, mestre da chalupa “Mensageira” e no dia seguinte em cumprimento de voto da tripulação da “Rasoilo”, ambas acompanhadas por vozes e orquestra de Carvalho& Cruz.

 

Viana do Castelo, 2009-12-28                                                                    

 Manuel de Oliveira Martins

_________________________

(1)-A Aurora do Lima - 15-12-1913

 

publicado por dolphin às 17:53

28
Dez 09

 

CHALUPA “RAZOILO”

 

 

 Chalupa "Razoilo"

 

A chalupa de comércio “Razoilo” de 260 toneladas, foi construída em 1896 para os armadores Razoilo e Batata, de Aveiro e João Màcara, de Olhão, tendo como mestre, distinto na arte de navegar, Manuel Batata.

Durante muitos anos foi utilizada pelo comércio vianense no transporte de vinho verde, madeiras e milho para Lisboa e no retorno carregava sal de Setúbal para a seca do bacalhau.<!--[if !supportFootnotes]-->[1]<!--[endif]-->

Foi numa das viagens de Setúbal para Viana que se deu o acidente que a seguir se descreve, motivado pelo temporal que no mês de Novembro de 1913 assolou a costa e território de Portugal, causando naufrágios, cheias, derrube de árvores e estragos diversos por todo o território continental, conforme a imprensa noticiou.<!--[if !supportFootnotes]-->[2]<!--[endif]-->

O avistamento de uma embarcação desarvorada ao largo de La Guardia, cerca das 12 horas do dia 13/11/1913, por um tripulante do navio “Valhall” que ali tinha ido visitar uns parentes, fê-lo supor tratar-se de um navio português procedente do sul e, de imediato, alertou o cônsul português naquele porto galego para tomar as providências necessárias. Enquanto debatiam o que fazer, um piloto do porto de La Guardia comunicou ao ajudante de marinha daquele porto ter avistado ao largo uma embarcação necessitada de ajuda. Este oficial solicitou aos srs. Candeira Irmãos de Camposancos  o concurso do vapor de reboque “Maria”,  que estava sempre fundeado na Foz do Rio Minho, que, depois de embarcar dois práticos e um marinheiro, para auxiliar no reboque, seguiu em busca da embarcação em perigo.

Não houve necessidade de telegrafar para Leixões para mandar vir o rebocador “Tritão”, já que em Viana não existe qualquer reboque, nem de Vigo por que as operações de assistência e salvamento do pequeno rebocador “Maria” estavam a surtir efeito.

O veleiro desarvorado apresentava o mastro do traquete partido rente ao convés e a cosinha que ficava contígua tinha sido varrida eventualmente por uma volta de mar, enquanto o fogão rolava pelo convés. A roda do leme estava desmontada e o escaler fortemente amarrado sobre o porão do centro, sinal da luta travada pela tripulação para defender alguns pertences do navio da inclemência do temporal que sobre eles se tinha abatido.

Sómente a meio da tarde conseguiram estabelecer o cabo de reboque, seguindo para Vigo, devido ao estado do mar os  impossibilitar de entrar no pequeno e desabrigado porto de La Guardia, onde chegaram pela madrugada do dia 14. Logo de manhã, o capitão do rebocador, deu conhecimento do achado ao comandante de marinha, sr. Conde de Villar de Pontes que ordenou  se efectuassem as necessárias investigações, o que foi feito, tendo-se encontrado durante as buscas, numerosas cartas e outros documentos, o que levou a concluir que o capitão  da “Razoilo&Cia.” era o sr. Manuel António Caravella natural de Viana do Castelo.

Por que não foi encontrado nem o rol de bordo nem qualquer outra coisa importante e também porque sómente deixaram alguma roupa velha, levaram os investigadores a concluir que a embarcação fora abandonada, levando apenas as coisas de maior valor e importância. A carga era constituída essencialmente por sal e algumas mercadorias que, conjuntamente com algumas cartas encontradas, levou a concluir que a chalupa se dedicava à cabotagem entre Viana e portos do Sul de Portugal.<!--[if !supportFootnotes]-->[3]<!--[endif]-->

(Continua)

Viana do Castelo, 2009-12-27

Manuel de Oliveira Martins

<!--[if !supportFootnotes]-->

<!--[endif]-->

<!--[if !supportFootnotes]-->[1]<!--[endif]--> Museu Municipal - Últimos veleiros do Porto de Viana

<!--[if !supportFootnotes]-->[2]<!--[endif]--> Comércio do Porto e A Aurora do Lima - 12-11-1913

<!--[if !supportFootnotes]-->[3]<!--[endif]--> Jornal “ A Aurora do Lima” - 13 e 14-11-1913

 

publicado por dolphin às 23:06

27
Dez 09

SALVAMENTO DAS BAGAGENS E CARGA

No dia seguinte ao naufrágio do “México” entraram a barra de Viana os rebocadores “Galgo” e “Flávio” com o encargo de salvarem as bagagens dos passageiros e a carga, e não o navio como seria de esperar, o que se depreende dos protestos de mar efectuados pelo capitão.

O capitão do “México” D. Julian Oslé considerou perdido o navio, razão porque fez três protestos de mar, tendo no último, na presença do cônsul de Espanha sr. António São Miguel declarado,  ”ter empregado todos os esforços para salvar o navio; porém como o considerava perdido, pedia que se fizesse  a respectiva informação ao sr.Bretel, agente da Companhia de Seguros “ La Foncier”, para tomar conta d’elle. Este cavalheiro, por considerar que o navio ainda podia salvar-se, não tomou conta.

O sr. Oslé reiterou o seu protesto e fez o abandono.”

Apesar das autoridades marítimas, aduaneiras e fiscais terem tomado todas as medidas possíveis para evitar a pilhagem, quer de bordo quer dos objectos que deram à praia, não impediu que alguns casos fortuitos acontecessem, como foi o caso da lancha poveira “Fé em Deus”, cujo arrais e tripulantes foram presos por suspeita de desviarem grande quantidade de malas pertencentes aos passageiros do “México”. De facto esta lancha carregou alguma bagagem que depois passou para outras embarcações  que a seguir as conduziram para a praia. As contradições flagrantes em que caíram alguns tripulantes da lancha levou a que as autoridades os prendessem por suspeita.

As operações de salvamento da carga e bagagens prolongaram-se por bastante tempo por motivo da localização do navio e da dificuldade das embarcações acostarem. Um mês depois do sinistro, ainda a “A Aurora do Lima” noticiava em listagem fornecida,  graças à “amabilidade de um nosso presadissimo amigo”, os objectos retirados e encontrados do vapor “México”.

Curiosa a referência à recuperação dos paramentos religiosos da capela do navio, quando se julgava que tinham sido roubados da praia para onde tinham sido transportados (outra vez os boatos).

O café que foi possível recuperar, cerca de 75 sacas, foram exportadas por ordem dos carregadores, enquanto os demais salvados ficaram nos armazéns da Alfândega, à guarda da mesma, esperando instrucções da Companhia Transatlântica sobre a venda ou re-exportação.

Em consequência dos roubos ocorridos nas bagagens e na carga, e participados às autoridades judiciais, o capitão do navio “México” D. Julian Oslé, teve de permanecer em Viana  para prestar declarações no tribunal da comarca desta cidade, enquanto que os oficiais e restante tripulação que aqui haviam permanecido para ultimar o processo se retiravam para Espanha.

No dia 23/07/1901 o casco do “México” partia em três, obrigando a companhia salvadora a retirar o pessoal que ali trabalhava.

Fonte: “A Aurora do Lima”

Viana do Castelo, 2009-12-27

Manuel de Oliveira Martins

 

publicado por dolphin às 15:49

26
Dez 09


Eram cerca das quatro e meia da tarde do dia 10/07/1901 quando em Viana do Castelo se soube que era de facto verdade o naufrágio do vapor espanhol “México” da Companhia Transatlântica,de 2021 toneladas.
A visibilidade era fraca devido ao denso nevoeiro, não sendo possível de terra divisar qualquer vulto no horizonte nas imediações da barra.
O capitão do Porto de Viana do Castelo , sr. Eduardo Augusto de Andrade e Sousa ordenou de imediato a saída de um barco tripulado por pilotos da barra, com o objectivo de correr a costa e localizar o lugar exacto onde se tinha dado o naufrágio.
Após quatro longas horas de espera o barco dos pilotos regressou com a notícia que o navio se encontrava a cerca de 6 milhas ao sul da barra de Viana entre as praias do Bispo e do Castelo do Neiva, encalhado nas pedras a cerca de uma milha da costa e que o desastre havia ocorrido cerca das 3 horas da tarde.
O “México” era um belo navio, construído em 1886 nos Estaleiros de Barcelona, que antes da guerra “Hispano-americana” fazia carreira entre as Filipinas e Cuba. Nesta viagem era procedente de Buenos Aires com destino a Vigo e com escala por Cádis e Lisboa, onde recebeu e desembarcou passageiros. Tinha de equipagem 71 homens.
O encalhe deu-se devido ao nevoeiro e o navio ficou aproado a NE. Na preiamar a água cobria quase por completo o navio considerando-se que estava perdido e a sua carga composta de milho, café e cacau, dificilmente se conseguiria salvar.
Os passageiros, em número de 208 conseguiram salvar-se nos escaleres de bordo e nos pequenos barcos de pesca pertencentes aos pescadores locais.
O Consul de Espanha em Viana do Castelo, senhor António São Miguel com o chefe da delegação aduaneira sr. Francisco Malheiro e demais autoridades, dirigiram-se para a praia do Castelo do Neiva a fim de prestar apoio aos náufragos, entre os quais se encontravam pessoas importantes do país vizinho, “tais como o General Marquês do Real Tesouro e família, D.Maria Goury e familia, João Garcia de Auqulo e esposa e ainda outros de quem não podemos tirar os nomes”, como refere o jornal “A Aurora do Lima” no seu número de 12/07/1901.
Os náufragos foram conduzidos para Viana do Castelo ficando alojados nos hotéis e casas de pasto.
Entretanto, vindo de Vigo, chegava a Viana um representante do navio, o senhor António Lopes Neira, para tratar dos preparativos necessários para transportar os passageiros para aquela cidade. Graças aos bons serviços do Chefe da Estação foi providenciado a vinda de um combóio especial que transportou até Valença os passageiros vítimas do naufrágio.
Enquanto isto sucedia na cidade, nos baixios em frente da praia do Castelo do Neiva, onde o vapor “México” se encontrava encalhado, os tripulantes, com alguns pescadores da freguesia de Anha, procediam ao salvamento dos haveres dos passageiros e carga, sobre as vistas do chefe da delegação aduaneira sr. Francisco Malheiro, que, por se encontrar no local onde devia estar, na Praia do Castelo do Neiva, foi acusado por alguns jornais espanhóis, de não estar presente com os homens da alfândega na Estação do caminho de ferro de Viana para despachar os passageiros e bagagens. Tratou-se simplesmente de um mal entendido porque o sr. Malheiro não sabia da vinda do representante do navio sr. Neira, porque se soubesse atempadamente por certo estaria presente.
Neste como noutros acidentes há sempre o boato infundado. Constou em Viana do Castelo que o navio abrira, e, todos os trabalhadores e tripulantes ocupados no salvamento das bagagens e da carga haviam perecido. Tal assim não aconteceu, como o confirmou o chefe da Delegação Aduaneira que, instado sobre o assunto, disse ter havido por momentos uma espessa neblina que encobriu o vapor e, as mulheres dos pescadores que se encontravam na praia e que tinham os maridos a bordo, começaram a gritar dizendo que o vapor se havia partido. Naturalmente que este alarido causou uma dolorosa impressão entre aqueles que se encontravam presentes na praia do Castelo do Neiva, mas que depressa desapareceu com a dissipação da neblina que deixou ver distintamente o navio na posição primitiva.
Também acerca das causas do acidente os comentários são habituais, “ Se...não teria sucedido, etc.”, mas neste caso concreto as críticas não são de todo infundadas. Embora as regras para evitar acidentes recomendem que com nevoeiro se deve parar e fazer os sinais sonoros correspondentes, um jornal do Porto “ A Província”, atacava ferozmente o governo da seguinte forma: “...mas custe a quem custar,acima de tudo está a verdade; o principal culpado dos sinistros marítimos que se tem dado nas nossas costas, é o nosso governo, pello indifferentismo com que olha para as coisas a que devia ligar a máxima importância. Temos uma costa pessimamente pharolada (ainda não existia o farol de Montedor que só viria a ser inaugurado em 21-03-1910) e com uma ausencia completa de aparelhos que indiquem os sítios perigosos para a navegação!” E mais adiante prosseguia "Desgraçado paiz, que não tem quem olhe pelo que tão necessario e util era para a marinha, quer de guerra, quer mercante...Haja dinheiro e grosso para a pandega que é o que se leva deste mundo; quanto a pharoes e bóias, isso não enche barriga, nem dá honras.”

(continua)

Fonte:- "A Aurora do Lima"

 

Viana do Castelo, 2009-12-26

Manuel de Oliveira Martins

publicado por dolphin às 17:52

11
Dez 09

Estava um dia lindo, com vento fraco de Leste e o mar estava calmo com uma pequena ondulação de NW. O Abel Matutes que veio aos Estaleiros Navais de Viana do Castelo, fazer alguns trabalhos de aprestamento partia para Vigo.

 

 


 

Ainda dentro de molhes, o maior navio que entrou em Viana do Castelo.

 


 

Controlado por rebocadores, prestes a sair os molhes.

 


 

Movimentação dos rebocadores na popa do navio, prestes a aproar ao mar

 


 

Rebocadores e rebocado

 


 

Aproado ao NW com as 5 embarcações que o auxiliaram a sair

 


 

Desembarcado o piloto da barra  segue rebocado para Vigo

 


 

A silhueta eleva-se acima do molhe

publicado por dolphin às 18:09

06
Dez 09

Às vezes dou por mim a imaginar, virado para a barra, especialmente nos dias de temporal, quando o mar galga o molhe com a fúria de quem o pretende derrubar, como que dizendo:

- Tirem-me este estorvo daqui. Isto é meu, há séculos que aqui ando!

Esta voz temerosa e impiedosa que tantas vidas tirou, tantas famílias destroçou, transporta-me para o ano de 1916, em pleno conflito mundial, quando os alemães dominavam o mar e não era raro o dia em que a imprensa noticiava o afundamento de mais um navio pelos alemães.

O caso que trago hoje à memória, aparentemente não foi consequência de um ataque alemão, mas tão só  motivado pela abertura da porta de acesso à casa da máquina por uma vaga que partiu no convés e inundou aquela dependência levando o navio a pique.

O facto que vou tentar descrever, refere-se ao vapor  português "Vacuum" da Vacuum Oil Company  que depois de uma tentativa falhada para entrar em Viana no dia 30 de Outubro de 1916 (conforme ficou registado no Livro de Consultas ), conseguiu finalmente entrar e carregar na doca, madeira em pacotes para Almeria.

No dia 6-11-1916 cerca das 12.00 horas, apesar do mar ser "de dúvida" conseguiu sair orientado pelo piloto da barra Manuel de Araújo, que não conseguiu desembarcar para a lancha-gasolina da Corporação dos Pilotos, seguindo viagem até ao próximo porto onde o capitão o desembarcaria, como era,  e é, dos regulamentos.

O vapor ainda estava à vista de terra, cerca de 2 milhas a oeste, quando o piloto Francisco Gonçalves Cachina, que se dirigia de sua casa para o Fortim, o avistou e, pela sua experiência de mestre de cabotagem lidado no mar, notou que o navio adornava a estibordo. Imediatamente avisou o cabo-piloto-chefe José Gonçalves da Cunha e os demais pilotos em serviço. Acto contínuo, o chefe ordenou aos dois pilotos ali presentes, Manuel Gonçalves Pinto e Francisco Gonçalves Cachina que com os pescadores Mateus de Passos e Manuel Gonçalves Pacheco, fossem em socorro do navio em perigo.

Apesar de conseguir imaginar ( por experiência própria) os perigos e apuros porque passaram os tripulantes da "gasolina dos pilotos" (nome por que alguns ainda hoje  se referem à lancha de pilotagem), não resisto a transcrever do jornal "A Aurora do Lima" de 07-11-1916, um excerto da descrição que o colunista faz deste acontecimento:

"N'um instante, a lancha-gazolina pos-se em andamento, galgando ondas encapelladas e desapparecendo no vacuo por ellas aberto. O mar estava "de dúvida"; mas os arrojados pilotos e pescadores que tripulavam a lancha, só viam ante si a satisfação de poderem chegar a tempo para salvar os seus semelhantes.

Não olhavam a perigos.

Depois das devidas manobras para sahir dos "caminhos apertados" da barra, a lancha, em carreira vertiginosa, varrida pelas vagas, com uma bandeira na "roda de prôa", para animar os náufragos, chegou, enfim, ao almejado local, encontrando-os na frágil baleeira, aproada ao mar, mas quasi a submergir-se, porque era pequena para conter as treze pessoas que, entre officiaes e marinheiros, compunham a equipagem do vapor.

Além d'isso não era possível qualquer movimento a bordo da baleeira, que já estava meàda d'água.

Dado de bordo da lancha-gazolina o signal de : - Ânimo marinheiros! - a lancha bordejou, abordou  a baleeira e procedeu-se então ao salvamento dos náufragos, que só tinham alguma esperança no hiate "Santa Luzia", que a distância navegava para a barra.

E a lancha-gazolina, rebocando a baleeira, voltou a sulcar as águas revoltas da barra, parece que cada vez mais agitadas. Alguns "babalhos" recebeu, mas felizmente sem consequèncias de maior.

Estavam salvos os náufragos."

Mais abaixo e em forma de apelo às autoridades, o colunista da Aurora escrevia:

- " Os dois pilotos e os dois marinheiros que tripulavam a lancha-gazolina devem ser galardoados. Isto o disse um dos officiaes do vapor."

Os náufragos foram socorridos na estação de pilotos no Fortim e na Cruz Vermelha a funcionar nas instalações da Associação dos Marítimos. A população da Ribeira  com a sua habitual solicitude e solidariedade , trataram de fornecer aos náufragos roupas para se vestirem e agasalharem, até serem acomodados no Hotel Aliança o 1.º e  2.º engenheiros, respectivamente, António José dos Santos e  William George Allen. O capitão  Eugénio d'Oliveira optou por se hospedar numa casa particular, enquanto que os restantes tripulantes  se alojaram numa casa de pasto da Rua da Piedade.

Assim terminou uma história verídica, empolgante e perigosa, passada à entrada da barra de Viana, como tantas outras, algumas delas de consequências trágicas.

Viana do Castelo, 2009-12-06

Manuel de Oliveira Martins

 

 

 

 

publicado por dolphin às 16:00

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