Blog que retrata os acontecimentos do mar e porto de Viana e arredores, nos bons e maus momentos, dos pequenos aos grandes senhores.

25
Mai 10

LUGRE "BRILHANTE"

 

O lugre "Brilhante" foi construído nos estaleiros da Companhia Marítima de Transportes e Pesca, no Largo 5 de Outubro, pelo construtor naval sr. José Lopes Ferreira Maiato, para a Sociedade Vianense de Cabotagem, Lda., pela quantia de 20.000$00.

Esta sociedade era constituída pelos srs. Jerónimo Vieitas Costa, Rodolfo Vieitas Costa, João Alves Cerqueira, José António de Matos e pela firma Magalhães & Filhos, Lda.

O lugre "Brilhante" foi lançado à água no dia 05-05-1921 e teve como primeiro comandante o Capitão da Marinha Mercante José Bixirão, de Ílhavo. O navio tinha as seguintes características: Tab - 350,670 tons ; Tal - 312,980 tons;Lpp - 47,25 m; Boca - 9,97 m ;Pontal - 3,82 m. Devido ao avançado do tempo para apetrechar e fazer o abastecimento de mantimentos e sal, não fez a campanha de 1921, aproveitando para fazer algumas viagens comerciais até à campanha do próximo ano.

Foi registado na Capitânia do Porto de Viana do Castelo no dia 7 de Junho de 1921, para o transporte marítimo, com armação de lugre de três mastros. Segundo averbamento de 27-03-1922 exarado no registo, passou nesta data a pertencer à Sociedade Nacional de Pesca, Lda. e, de acordo com a comunicação n.º 286 de 06-03-1924 da Capitânia do Porto de Aveiro passou a ter novo registo naquela praça com o nome de "Condestável".

Como era costume nos "bota-abaixo" dos navios naquela época, foi um acontecimento que mobilizou a afluência de um grande número de pessoas provenientes das redondezas. O cabo que prendia o navio ao berço, foi cortado pelo sr. Fernando Costa de Lisboa, gerente da casa Vieitas & Cia.

À noite, no restaurante da sra. D. Margarida de Lemos Pereira, a "Margarida da Praça", foi servido um lauto banquete aos mais íntimos amigos dos societários e em que participaram algumas senhoras.

De realçar o ressurgimento do "Restaurante da Praça que teve a melhor tradição como uma das casas de maiores primores culinários...". O restaurante foi gerido por outras direcções, mas retomou a direcção da sua primitiva proprietária.



 

Restaurante "Margarida da Praça"

 

A D. Margarida de Lemos Pereira, presenteou os convivas com uma lista genuinamente portuguesa, reavendo os seus antigos créditos, com um serviço primoroso.

A festa prolongou-se noite dentro com brindes e homenagens aos societários da empresa.

 

Fontes :

"A Aurora do Lima" - 13-05-1921

Capitânia do Porto de Viana do Castelo -Livro de registo de navios n.º 5

 

Viana do Castelo, 2010-05-25

Manuel de Oliveira Martins

publicado por dolphin às 22:37

18
Mai 10

O SEGUNDO SANTA LUZIA

 

Como referimos atrás, a direcção da Companhia Marítima de Transportes e Pesca, liderada pelo sr. Joaquim Soares, pôs em execução a construção, nos estaleiros da companhia, de uma nova unidade destinada à pesca do bacalhau.

Os trabalhos de construção estiveram a cargo do prestigiado mestre de construção naval sr. José Lopes Ferreira Maiato, e o navio foi concluído em escassos oito meses de trabalho intenso, com o fim de efectuar a campanha de 1921.

O navio apresentava as seguintes características:

Tonelagem de arqueação bruta (Tab)       = 325,99 toneladas

Tonelagem de arqueação líquida (Tal)      = 261,92      "

Comprimento entre perpendiculares (Lpp) = 48,10 metros

Boca (1) =  9,93 metros

Pontal (2) =  3,90 metros

Equipagem                                            = 43 tripulantes

O lugre "Santa Luzia" foi lançado à água cerca das 16.00 horas do dia 10-04-1921, domingo, nos estaleiros do Campo da Feira perante um mar de gente que aí afluiu, vinda das aldeias, em bandos alegres, para assistir ao "bota-abaixo", coisa nova para a maioria delas.



 

"Bota-abaixo" de um navio nos estaleiros do Campo da Feira

 

Era uma autêntica romaria,fazendo antever a Romaria d'Agonia "Aqui e alli, grupos de camponezas com trajes da região, cantavam e dançavam ao som da viola dedilhada por um rapagão...", assim se referia "A Aurora do Lima" a tão extraordinário evento para a cidade, onde também a alta sociedade e a juventude (feminina) participava, como se depreende pela referência "O Lima estava lindo. As suas águas, límpidas e serenas, mostravam assim como que um contentamento inesperado. Pudéra!... pois se vogavam sobre ellas pequenas embarcações conduzindo formosos palminhos de cara, que, para mais as envaidecerem, faziam das mesmas águas espelho para se verem!...".

Nesse dia de "bota-abaixo" era permitida a visita ao navio a todos sem excepção e a empresa proprietária do navio, contratava bandas filarmónicas e ranchos folclóricos para abrilhantar a festa como se percebe pela descrição, "De um lado, na estrada, um grupo de lindas cachopas dançavam o vira, ao som da philarmonica que junto ao escritório da Companhia se fazia ouvir para mais animar a cerimónia do lançamento".

Neste clima de festa se viviam os lançamentos à água dos navios nesses primórdios do Século XX. A mais alta sociedade vianense participava activamente ostentando a sua riqueza e estatuto social, cujo espelho disso, se comprova por, "Nas janellas dos prédios vizinhos, distinctas senhoras ostentavam vestidos pesados, próprios da sua edade e da sua posição, umas ostentando os seus lorgnons,(3) outras primaverilmente vestidas..."

 

Glossário:

(1) Boca - Largura máxima

(2) Pontal - Altura da quilha ao convés

(3) Lorgnon - Luneta com cabo

 

Fontes: A Aurora do Lima: 12-04-1921

Viana do Castelo, 2010-05-18

Manuel de Oliveira Martins

publicado por dolphin às 21:27

16
Mai 10

COMPANHIA MARÍTIMA DE TRANSPORTES E PESCA

 

A Companhia Marítima de Transportes e Pesca, S.A.R.L., sucedeu à extinta parceria de Pescarias de Viana, que durante 7 anos desenvolveu a indústria da pesca do bacalhau.

A Pescarias de Viana já vinha desenvolvendo outras actividades para além da pesca do bacalhau (seu fim prioritário), como a construção naval com os Estaleiros do Largo 5 de Outubro ou do Campo da Feira, e os transportes com o primeiro navio de nome "Gaspar", construído nesses mesmos estaleiros.

A nova companhia, que agora surgia, assentava nas bases da anterior Pescarias de Viana, mas integrava um grupo de accionistas da cidade do Porto e Viana. Entre eles estavam a casa Pinto & Sotto Maior, Cândido Sotto Maior, Joaquim Soares, Adelino Cardoso, Abílio Azevedo, dr. Rendeiro, dr.Correia de Barros e João Baptista Ferreira que geriu de forma eficaz a anterior empresa de pescarias.

Entre eles subscreveram o capital social de 1.000 contos com que iniciaram a sociedade, podendo esse capital elevar-se até 5.000 contos, caso houvesse necessidade, fruto das oportunidades de negócio.

O objectivo da companhia, relativamente à anterior parceria, era alargado, visando englobar as actividades da construção naval e dos transportes marítimos.

A nova empresa elegeu os corpos sociais, ficando como directores os srs. Joaquim Soares, Adelino Cardoso, representantes da casa Pinto & Sotto Maior, a designar, e João Baptista Ferreira. Como gerente ficou o sr. Camilo Sá Pinto Sotto Maior. Ao Conselho Fiscal ficaram a pertencer nomes da cidade do Porto e Viana, tais como, António Gonçalves da Silva Carvalho, drs. Gabriel Fânzeres, Martins Delgado e Manuel Martins do Couto Viana.

Ficaram a pertencer à nova companhia quase todos os sócios da anterior parceria Pescarias de Viana que conjuntamente com os novos elementos e o capital aumentado levantarão a nova empresa.

No momento da constituição da firma, Julho de 1920, já se encontrava na Terra Nova o lugre "Rio Lima" recentemente construído e também adquiriram para o transporte marítimo o lugre "Nuno Álvares" que podia transportar mil toneladas de carga e tinham em construção nos seus estaleiros do Campo da Feira, um novo lugre, o segundo "Santa Luzia", para a pesca do bacalhau.

As três actividades propostas nos objectivos da empresa, estavam todas em laboração, razão suficiente para os accionistas estarem satisfeitos e expectantes.

Os bons resultados desta companhia reflectiram-se de imediato nos primeiros anos do exercício, possibilitando a distribuição pelos accionistas, do pagamento de dividendos. No primeiro ano, foi determinado em Assembleia Geral, realizada na sede da companhia, à Praça da Liberdade, n.º 28, 3.º no Porto, a distribuição de dividendos pelos accionistas no valor de 8$00 por acção. Nesta mesma reunião foi eleito um novo director, o sr. Amador Valente, em substituição do sr. Adelino Cardoso que por motivo de falta de saúde pediu a sua exoneração.

No ano seguinte, 1923, em consequência das boas campanhas feitas pelos navios, "Santa Luzia" e "Rio Lima" e das boas vendas, foi possível distribuir pelos accionistas um dividendo de 10 escudos por acção.

A companhia estava de boa saúde, e mais uma vez em meados de Abril, o "Santa Luzia" e o "Rio Lima" partiam para Lisboa para abastecer de mantimentos e sal e seguirem viagem para os bancos da Terra Nova.

 

Fontes: A Aurora do Lima:23-07-1920; 20-02-1923

 

Viana do Castelo, 2010-05-09

Manuel de Oliveira Martins

publicado por dolphin às 09:50

12
Mai 10

LUGRE "RIO LIMA"

 

Em 12 de Setembro de 1919 o jornal "A Aurora do Lima" fazia referência ao início da construção do lugre "Rio Lima", destinado à pesca do bacalhau nos mares da Terra Nova para a Parceria de Pescarias de Viana. O Rio Lima era o terceiro navio daquela empresa construído para esse efeito, em resultado do cumprimento do plano inicial de aquisição de três navios que só agora foi possível pôr em execução devido à guerra.

O lugre "Rio Lima" foi construído nos estaleiros da Parceria, no Largo 5 de Outubro e lançado à água no dia 22-01-1920, cerca das 15:20 horas perante numerosa assistência vinda dos mais recônditos locais de Viana e arredores, como era hábito em acontecimentos semelhantes.

Este belo navio foi construído sob orientação do mestre construtor naval sr. José Lopes Ferreira Maiato e tinha como características principais: Tonelagem de arqueação bruta 317,33 tons; tonelagem de arqueação líquida 264,42 tons; comprimento entre perpendiculares 48,00 metros; boca (1) 9,80 metros; pontal (2) 4,47 metros e alojamentos para 41 tripulantes.

A curiosidade que despertava nas pessoas o lançamento à água de um navio novo, especialmente para a pesca do bacalhau, como nos dá conta "A Aurora do Lima", é disso digno de registo "... fez com que em toda a margem, desde a Alfândega até à doca, os caes se coalhassem de gente da cidade e das aldeias próximas, e no rio uma grande porção de barcos que vogavam cheios de espectadores concorria para a bellesa d'aquelle espectáculo sugestivo e brilhante, que oxalá repetisse por muitas vezes".

Estes eventos, importantes na vida de uma empresa, eram aproveitados para festejar com autoridades, amigos e trabalhadores, que de uma forma ou de outra contribuíram para o processo, trocando impressões uns, outros dando largas à sua fogosidade e animação num convívio retemperador de energias para novas tarefas.

O momento do bota- abaixo é sempre precedido de alguma expectativa e ansiedade, mas, logo que se cortam as amarras que prendem o navio ao berço que o viu nascer e crescer, e o volume inerte desliza nos carris e mergulha nas águas calmas do Lima, estralejam os foguetes, as businas e apitos dos navios surtos no porto vibram incessantemente; assobios, palmas, clamores de alegria soam por todo o lado onde as pessoas se amontoam para ver tão importante como estranho fenómeno para muitos um "milagre", tão incrédula é a sua visão.

Um acontecimento desta natureza numa cidade da província onde tão poucas coisas dignas de monta acontecem, é sempre aproveitado para comemorar com "opíparo" banquete, como aconteceu com o lançamento à água do lugre "Rio Lima".

A casa da D. Anna Malheiro Pitta de Vasconcellos, contígua ao estaleiro, por gentileza desta senhora, foi aproveitada pela Parceria, para oferecer um lanche que foi muito concorrido por grande número de pessoas da mais alta sociedade Vianense que aos brindes dos srs. Dr. Jesus Araújo, Rodrigo de Abreu e Lima e Álvaro de Araújo desejaram as maiores prosperidades à Parceria e ao comércio em geral, agradecendo no final, em nome da empresa o sr. João Baptista Ferreira.

Terminado o lanche, nos escritórios da firma, que ficavam situados nos baixos do prédio onde este decorreu (3), foi inaugurado um "... excellente retrato do nosso ilustre amigo sr. dr. Gaspar Teixeira de Queiroz, integérrimo Juiz de Direito, que foi sem dúvida alguma, a alma mater da creação d'aquella sociedade mercantil.",como refere o "A Aurora do Lima" de 23-01-1920.

A apologia do ilustre homenageado foi feita pelo gerente da Parceria o sr. João Baptista Ferreira, também ele um fundador, enaltecendo as qualidades morais e o dinamismo e empenho que o homenageado devotou a Viana do Castelo e ao seu crescimento e engrandecimento (4).

Neste acontecimento tão importante para os Estaleiros, Parceria de Pesca de Viana e para a cidade, não podiam ficar de fora os principais intervenientes, os que deram corpo e forma a tão belo como robusto navio, dando o melhor do seu saber e do seu esforço, quantas vezes suportando riscos que a profissão comporta, que são os trabalhadores.Também para eles houve reconhecimento da Parceria que na carpintaria dos Estaleiros mandou montar uma longa mesa, onde coubessem todos, belíssimamente decorada e onde não faltou comida com abundância para todo o pessoal.

Para rematar tão brilhante festa, que movimentou muita gente na cidade, especialmente a Confeitaria Brasileira, que serviu o banquete, realizou-se nas salas do palacete, uma animadíssima e concorrida festa onde se dançou até cerca das três horas da madrugada.

Eram assim naquele tempo os "bota-abaixo" dos navios da Parceria, que primava e fazia jus em assinalar de forma impressiva tão importantes datas.

 

Glossário:

(1) Boca - largura máxima

(2) Pontal - altura da quilha ao convés

(3) Local onde se situa actualmente o restaurante "Casa de Armas"

(4) O Dr. Gaspar Teixeira de Queiroz era natural dos Arcos de Valdevez

 

Fontes:

"A Aurora do Lima": 12-09-1918;23-01-1920

 

Viana do Castelo, 2010-05-07

Manuel de Oliveira Martins


publicado por dolphin às 19:23
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08
Mai 10

 

O MEDO DA GUERRA

 

Na figueira da Foz, principal porto bacalhoeiro no primeiro quartel do Século XX, no ano de 1917, conforme noticiava o “A Aurora do Lima” do dia 13-02-1917, os navios bacalhoeiros daquele porto estavam em risco de não saírem nesse ano para os mares da Terra Nova.

Na origem desta decisão por parte dos armadores, a braços com graves problemas financeiros, resultantes dos encargos com apetrechamento e manutenção dos navios, a falta de saída do produto em consequência da crise e o decréscimo do valor de venda a que se juntou um outro factor que fez cair por terra a viabilidade mínima que os navios tinham de operar nesse ano.

Esse factor era imposto pelas tripulações, nomeadamente pelos capitães que exigiam, no caso de trazerem bastante carga, 6 contos cada um e um subsídio de 1$500 reis por dia a ser pago às famílias dos tripulantes em caso de morte ou por desastre em consequência da guerra. (Penso estar aqui, nestas reivindicações justas, mas que os armadores não podiam pagar, a origem da Mútua dos Armadores, como forma de, associados, poderem fazer face aos encargos em caso de sinistro).

A vida da pesca do bacalhau é árdua e, naqueles tempos mais dura ainda e agravada pelo espectro de naufrágio motivado pela guerra. Não admira, portanto, esta reivindicação dos capitães que temiam pela sua vida e dos pescadores e principalmente dos familiares que deles dependiam.

A razão assistia dos dois lados, armadores e trabalhadores, a culpa era da crise que há muito se havia instalado, não encontrando os governantes forma de a resolver.

Nesse mesmo ano, o país foi confrontado com mais uma revolução liderada por Sidónio Pais, pretendendo mostrar o descontentamento pela forma como a classe política, pós revolução de Outubro de 1910, tinha deixado chegar o país, pior do que estava no tempo da Monarquia.

A Parceria de Pescarias de Viana, jovem empresa do sector pesqueiro, ponderada a situação e baseada nas últimas declarações do governo alemão, que o seu fim não é atacar qualquer navio, mas sim impedir que os países mais directamente interessados e intervenientes na guerra possam abastecer-se, Portugal estava fora desse âmbito, resolveu mandar aprestar os navios, “Santa Luzia” e “Santa Maria” para partirem na época.

 

Fontes : A Aurora do Lima 13-02-1917

 

Viana do Castelo, 2010-04-25

Manuel de Oliveira Martins

publicado por dolphin às 22:47
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