Blog que retrata os acontecimentos do mar e porto de Viana e arredores, nos bons e maus momentos, dos pequenos aos grandes senhores.

06
Dez 09

Às vezes dou por mim a imaginar, virado para a barra, especialmente nos dias de temporal, quando o mar galga o molhe com a fúria de quem o pretende derrubar, como que dizendo:

- Tirem-me este estorvo daqui. Isto é meu, há séculos que aqui ando!

Esta voz temerosa e impiedosa que tantas vidas tirou, tantas famílias destroçou, transporta-me para o ano de 1916, em pleno conflito mundial, quando os alemães dominavam o mar e não era raro o dia em que a imprensa noticiava o afundamento de mais um navio pelos alemães.

O caso que trago hoje à memória, aparentemente não foi consequência de um ataque alemão, mas tão só  motivado pela abertura da porta de acesso à casa da máquina por uma vaga que partiu no convés e inundou aquela dependência levando o navio a pique.

O facto que vou tentar descrever, refere-se ao vapor  português "Vacuum" da Vacuum Oil Company  que depois de uma tentativa falhada para entrar em Viana no dia 30 de Outubro de 1916 (conforme ficou registado no Livro de Consultas ), conseguiu finalmente entrar e carregar na doca, madeira em pacotes para Almeria.

No dia 6-11-1916 cerca das 12.00 horas, apesar do mar ser "de dúvida" conseguiu sair orientado pelo piloto da barra Manuel de Araújo, que não conseguiu desembarcar para a lancha-gasolina da Corporação dos Pilotos, seguindo viagem até ao próximo porto onde o capitão o desembarcaria, como era,  e é, dos regulamentos.

O vapor ainda estava à vista de terra, cerca de 2 milhas a oeste, quando o piloto Francisco Gonçalves Cachina, que se dirigia de sua casa para o Fortim, o avistou e, pela sua experiência de mestre de cabotagem lidado no mar, notou que o navio adornava a estibordo. Imediatamente avisou o cabo-piloto-chefe José Gonçalves da Cunha e os demais pilotos em serviço. Acto contínuo, o chefe ordenou aos dois pilotos ali presentes, Manuel Gonçalves Pinto e Francisco Gonçalves Cachina que com os pescadores Mateus de Passos e Manuel Gonçalves Pacheco, fossem em socorro do navio em perigo.

Apesar de conseguir imaginar ( por experiência própria) os perigos e apuros porque passaram os tripulantes da "gasolina dos pilotos" (nome por que alguns ainda hoje  se referem à lancha de pilotagem), não resisto a transcrever do jornal "A Aurora do Lima" de 07-11-1916, um excerto da descrição que o colunista faz deste acontecimento:

"N'um instante, a lancha-gazolina pos-se em andamento, galgando ondas encapelladas e desapparecendo no vacuo por ellas aberto. O mar estava "de dúvida"; mas os arrojados pilotos e pescadores que tripulavam a lancha, só viam ante si a satisfação de poderem chegar a tempo para salvar os seus semelhantes.

Não olhavam a perigos.

Depois das devidas manobras para sahir dos "caminhos apertados" da barra, a lancha, em carreira vertiginosa, varrida pelas vagas, com uma bandeira na "roda de prôa", para animar os náufragos, chegou, enfim, ao almejado local, encontrando-os na frágil baleeira, aproada ao mar, mas quasi a submergir-se, porque era pequena para conter as treze pessoas que, entre officiaes e marinheiros, compunham a equipagem do vapor.

Além d'isso não era possível qualquer movimento a bordo da baleeira, que já estava meàda d'água.

Dado de bordo da lancha-gazolina o signal de : - Ânimo marinheiros! - a lancha bordejou, abordou  a baleeira e procedeu-se então ao salvamento dos náufragos, que só tinham alguma esperança no hiate "Santa Luzia", que a distância navegava para a barra.

E a lancha-gazolina, rebocando a baleeira, voltou a sulcar as águas revoltas da barra, parece que cada vez mais agitadas. Alguns "babalhos" recebeu, mas felizmente sem consequèncias de maior.

Estavam salvos os náufragos."

Mais abaixo e em forma de apelo às autoridades, o colunista da Aurora escrevia:

- " Os dois pilotos e os dois marinheiros que tripulavam a lancha-gazolina devem ser galardoados. Isto o disse um dos officiaes do vapor."

Os náufragos foram socorridos na estação de pilotos no Fortim e na Cruz Vermelha a funcionar nas instalações da Associação dos Marítimos. A população da Ribeira  com a sua habitual solicitude e solidariedade , trataram de fornecer aos náufragos roupas para se vestirem e agasalharem, até serem acomodados no Hotel Aliança o 1.º e  2.º engenheiros, respectivamente, António José dos Santos e  William George Allen. O capitão  Eugénio d'Oliveira optou por se hospedar numa casa particular, enquanto que os restantes tripulantes  se alojaram numa casa de pasto da Rua da Piedade.

Assim terminou uma história verídica, empolgante e perigosa, passada à entrada da barra de Viana, como tantas outras, algumas delas de consequências trágicas.

Viana do Castelo, 2009-12-06

Manuel de Oliveira Martins

 

 

 

 

publicado por dolphin às 16:00

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