Blog que retrata os acontecimentos do mar e porto de Viana e arredores, nos bons e maus momentos, dos pequenos aos grandes senhores.

26
Dez 09


Eram cerca das quatro e meia da tarde do dia 10/07/1901 quando em Viana do Castelo se soube que era de facto verdade o naufrágio do vapor espanhol “México” da Companhia Transatlântica,de 2021 toneladas.
A visibilidade era fraca devido ao denso nevoeiro, não sendo possível de terra divisar qualquer vulto no horizonte nas imediações da barra.
O capitão do Porto de Viana do Castelo , sr. Eduardo Augusto de Andrade e Sousa ordenou de imediato a saída de um barco tripulado por pilotos da barra, com o objectivo de correr a costa e localizar o lugar exacto onde se tinha dado o naufrágio.
Após quatro longas horas de espera o barco dos pilotos regressou com a notícia que o navio se encontrava a cerca de 6 milhas ao sul da barra de Viana entre as praias do Bispo e do Castelo do Neiva, encalhado nas pedras a cerca de uma milha da costa e que o desastre havia ocorrido cerca das 3 horas da tarde.
O “México” era um belo navio, construído em 1886 nos Estaleiros de Barcelona, que antes da guerra “Hispano-americana” fazia carreira entre as Filipinas e Cuba. Nesta viagem era procedente de Buenos Aires com destino a Vigo e com escala por Cádis e Lisboa, onde recebeu e desembarcou passageiros. Tinha de equipagem 71 homens.
O encalhe deu-se devido ao nevoeiro e o navio ficou aproado a NE. Na preiamar a água cobria quase por completo o navio considerando-se que estava perdido e a sua carga composta de milho, café e cacau, dificilmente se conseguiria salvar.
Os passageiros, em número de 208 conseguiram salvar-se nos escaleres de bordo e nos pequenos barcos de pesca pertencentes aos pescadores locais.
O Consul de Espanha em Viana do Castelo, senhor António São Miguel com o chefe da delegação aduaneira sr. Francisco Malheiro e demais autoridades, dirigiram-se para a praia do Castelo do Neiva a fim de prestar apoio aos náufragos, entre os quais se encontravam pessoas importantes do país vizinho, “tais como o General Marquês do Real Tesouro e família, D.Maria Goury e familia, João Garcia de Auqulo e esposa e ainda outros de quem não podemos tirar os nomes”, como refere o jornal “A Aurora do Lima” no seu número de 12/07/1901.
Os náufragos foram conduzidos para Viana do Castelo ficando alojados nos hotéis e casas de pasto.
Entretanto, vindo de Vigo, chegava a Viana um representante do navio, o senhor António Lopes Neira, para tratar dos preparativos necessários para transportar os passageiros para aquela cidade. Graças aos bons serviços do Chefe da Estação foi providenciado a vinda de um combóio especial que transportou até Valença os passageiros vítimas do naufrágio.
Enquanto isto sucedia na cidade, nos baixios em frente da praia do Castelo do Neiva, onde o vapor “México” se encontrava encalhado, os tripulantes, com alguns pescadores da freguesia de Anha, procediam ao salvamento dos haveres dos passageiros e carga, sobre as vistas do chefe da delegação aduaneira sr. Francisco Malheiro, que, por se encontrar no local onde devia estar, na Praia do Castelo do Neiva, foi acusado por alguns jornais espanhóis, de não estar presente com os homens da alfândega na Estação do caminho de ferro de Viana para despachar os passageiros e bagagens. Tratou-se simplesmente de um mal entendido porque o sr. Malheiro não sabia da vinda do representante do navio sr. Neira, porque se soubesse atempadamente por certo estaria presente.
Neste como noutros acidentes há sempre o boato infundado. Constou em Viana do Castelo que o navio abrira, e, todos os trabalhadores e tripulantes ocupados no salvamento das bagagens e da carga haviam perecido. Tal assim não aconteceu, como o confirmou o chefe da Delegação Aduaneira que, instado sobre o assunto, disse ter havido por momentos uma espessa neblina que encobriu o vapor e, as mulheres dos pescadores que se encontravam na praia e que tinham os maridos a bordo, começaram a gritar dizendo que o vapor se havia partido. Naturalmente que este alarido causou uma dolorosa impressão entre aqueles que se encontravam presentes na praia do Castelo do Neiva, mas que depressa desapareceu com a dissipação da neblina que deixou ver distintamente o navio na posição primitiva.
Também acerca das causas do acidente os comentários são habituais, “ Se...não teria sucedido, etc.”, mas neste caso concreto as críticas não são de todo infundadas. Embora as regras para evitar acidentes recomendem que com nevoeiro se deve parar e fazer os sinais sonoros correspondentes, um jornal do Porto “ A Província”, atacava ferozmente o governo da seguinte forma: “...mas custe a quem custar,acima de tudo está a verdade; o principal culpado dos sinistros marítimos que se tem dado nas nossas costas, é o nosso governo, pello indifferentismo com que olha para as coisas a que devia ligar a máxima importância. Temos uma costa pessimamente pharolada (ainda não existia o farol de Montedor que só viria a ser inaugurado em 21-03-1910) e com uma ausencia completa de aparelhos que indiquem os sítios perigosos para a navegação!” E mais adiante prosseguia "Desgraçado paiz, que não tem quem olhe pelo que tão necessario e util era para a marinha, quer de guerra, quer mercante...Haja dinheiro e grosso para a pandega que é o que se leva deste mundo; quanto a pharoes e bóias, isso não enche barriga, nem dá honras.”

(continua)

Fonte:- "A Aurora do Lima"

 

Viana do Castelo, 2009-12-26

Manuel de Oliveira Martins

publicado por dolphin às 17:52

Sabem qual as cordenadas de GPS do naufragio do MEXICO ???
Marcos Pereira a 14 de Maio de 2011 às 17:39

Alguém tem as coordenadas do NAUFRÁGIO DO TRANSATLÂNTICO ESPANHOL "MÉXICO" em Viana do Castelo ??
marcos pereira a 2 de Agosto de 2011 às 14:11

As coordenadas não tenho, o que sei é que naufragou a Norte da Foz do Neiva a uma milha da costa,cerca de 8 quilómetros de Viana do Castelo, devido a nevoeiro.
dolphin a 2 de Agosto de 2011 às 14:50

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