Blog que retrata os acontecimentos do mar e porto de Viana e arredores, nos bons e maus momentos, dos pequenos aos grandes senhores.

25
Mar 10

4 - NAUFRÁGIO DO NIETA

 

No dia 21 de Julho de 1861, pelas 2 horas e meia da manhã, varava (1) na costa, a meia milha ao norte do Castelo de São Tiago da Barra, o vapor espanhol NIETA, de 447 tons, do comando do capitão D. João Baptista Alegria, propriedade de D. José Sierra, registado no porto de Barcelona.

O navio partira de Barcelona, com escala por outros portos do Mediterrâneo, com destino a Liverpool, com escala em Vigo. Trazia um carregamento incompleto de azeite, aguardente, panos, passas, etc. A tripulação era composta por 28 tripulantes e 7 passageiros. Tratava-se de um bonito navio novo, movido a hélice.

A zona da costa em que encalhou é rochosa e cheia de escolhos, pelo que as diligências tomadas para o salvar foram difíceis de executar. Apesar das dificuldades sentidas, foi possível, através de lanchas, descarregar toda a carga, sem avaria, para os armazéns da Alfândega.

Pensavam os peritos que depois do navio aliviado (2) da carga, seria possível, na preia mar, desencalhá-lo. Tal não se verificou, no entanto, às 14.00 horas do dia 22 de Julho, conseguiram safar o navio da cama(3) onde estava assente, porém, com muita água dentro, fruto dos rombos sofridos no costado.

Para o bom êxito deste salvamento contribuíram muito as acertadas providências tomadas pelos srs. Director da Alfândega, Administrador do Concelho, Capitão do Porto e Vice-cônsul Espanhol. O Director das Obras Públicas, Sr. Eng.º Nogueira Soares, estava no local do sinistro, pronto a actuar com os mergulhadores das obras da barra, para, caso necessário, proceder ao quebramento de alguns rochedos para facilitar a saída do navio, o que não foi preciso, devido ao vapor, por acção duma volta de mar se ter desentalado dentre os rochedos.

Safo das rochas, o navio foi para o fundeadouro(4) da Cal, a aguardar ordens do armador, carregadores e seguradoras. Por ordem da companhia de seguros do navio e da carga, de Liverpool, foi determinado ao Capitão do navio que seguisse para Vigo a fim de reparar as avarias sofridas. Em consequência destas ordens, foi feita uma peritagem ao vapor, por peritos que foram de bordo do navio de guerra LYNCE que se encontrava também fundeado fora da barra. Depois da peritagem, os peritos declararam que o navio podia fazer a viagem para Vigo sem risco, apesar dos rombos que tinha no casco.

A pedido do vice-cônsul Espanhol em Viana do Castelo, o comandante do vapor português de guerra LYNCE, anuiu em acompanhar  o NIETA até à entrada de Vigo, de prevenção para acudir a algum acidente que pudesse surgir. Os peritos de Vigo, após vistoria detalhada à zona arrombada, concluiram que o navio podia  sem risco, seguir viagem para Liverpool, depois de receber a carga que ficara estivada e guardada em Viana. Em face de tão boa nova o capitão rumou imediatamente para Viana do Castelo onde recebeu a carga fora da barra.

Na madrugada do dia 4 de Agosto de 1861, o vapor NIETA, suspendeu (5) do fundeadouro onde recebeu a carga e seguiu para Liverpool, com todo o seu carregamento salvo e em bom estado.

Glossário: (1) - Varar - dar à costa numa praia. (2) - Aliviar - Tornar o barco mais leve, deitando carga ao mar ou transferindo-a para outro barco. (3)- Cama - Também se chama "berço" quando o navio assenta com a quilha no fundo. (4) - Fundeadouro - Local em que o navio larga a âncora ou ferro em segurança para se manter preso ao fundo. (5) - Suspender - Levantar a âncora ou ferro através do molinete (aparelho de viragem destinado para esse fim).

Fontes: A Aurora do Lima: 22,24,26,29,31-07-1861; 02,05-08-1861

Viana do Castelo 2010-03-24

Manuel de Oliveira Martins

publicado por dolphin às 18:04

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