Blog que retrata os acontecimentos do mar e porto de Viana e arredores, nos bons e maus momentos, dos pequenos aos grandes senhores.

17
Abr 10

OS PRIMEIROS NAVIOS DA PARCERIA

 

Depois de constituída a Parceria, tendo como objectivo a exploração do "fiel amigo" nos mares da Terra Nova era necessário apetrechá-la dos meios de captura dessa espécie, os navios.

Embora já nessa altura a pesca do arrasto estivesse a dar os primeiros passos com navios movidos a motor, a predominância dos navios à vela era ainda superior, por isso foi decidido pela gerência depois de auscultar a Comissão Consultiva, adquirir na América dois veleiros, os lugres "Santa Luzia" e "Santa Maria".

O lugre "Santa Luzia", primeiro navio adquirido pela Parceria em Nova Iorque, fez a travessia do Atlântico apenas com 4 homens de tripulação, para além do capitão Joaquim Fernandes Batata sendo um deles o piloto, outro o cozinheiro e dois marinheiros.

Foi de grande ousadia enfrentar tão desgastante viagem com tão poucos homens, num navio tão trabalhoso como é um navio à vela, facto que se regista, dando um louvor a tão valentes como arrojados homens do mar, sinal que ainda havia marinheiros nesse tempo.

O segundo navio comprado na América pela Parceria de Pescarias de Viana, foi o lugre "Santa Maria" que fez a viagem de Gulfport no Golfo do México à barra de Viana em 34 dias de viagem, o que se reconheceu na época como uma travessia muito rápida.

Ao chegar à barra de Viana do Castelo no dia 23-02-1914, o temporal era grande, pelo que o navio sómente se aproximou à distância necesária para ser reconhecido e "fez prôa de O.N.O. e lá se sumiu pelo interior do mar".

O temporal na costa portuguesa foi tão intenso que nos dias 21 a 26 de Fevereiro de 1914, nada entrou ou saiu do porto de Viana. No dia 27, como o tempo melhorou um pouco, entraram o vapor alemão "Christine Sell" do comando do capitão P. Viereck, de 777 tons, 15 tripulantes e carga de carvão de pedra, consignado à Fábrica do Gás, procedente de Newcastle com 10 dias de viagem e de Villa Garcia com 1 dia de viagem o vapor "Jamaica" do comando do capitão Torbjorn Vik, de 790 tons e 14 tripulantes, vazio, consignado a D. Eduardo Puentes Duval. Nesse mesmo dia saiu para Las Palmas, o vapor "Valhall" do comando do capitão Danier Thoraldsen, de 750 tons e 14 tripulantes com carga de madeira em pacotes. No dia 28 de Fevereiro nada entrou ou saíu, mantendo-se fora da barra o lugre "Santa Maria", aguardando condições favoráveis para entrar.

No dia 28 de Fevereiro de 1914, sábado, quando entrava a barra de Viana "com vento N franco e mar um tanto agitado", faltou o vento ao lugre "Santa Maria" próximo do Bugio, foi largado imediatamente o ferro que garrou (1) indo o navio encalhar na ponta da Tornada. A assistência da parte do salva-vidas foi rápida, mas devido à impossibilidade deste se aproximar do navio por causa da forte rebentação, optaram por lançar à água a jangada que apanhou uma retenida do lugre passando-a para a catraia dos pilotos e esta a atou a um grosso cabo que foi preso no Bugio no intuito de manter o navio aproado ao mar.

Foi mais uma vez notória a falta de um rebocador que prestasse assistência aos navios na entrada e/ou saída. A pronta intervenção do Capitão do Porto que solicitou a Leixões a vinda de um rebocador, não resultou  por que o rebocador "Mars" que chegou a sair às 6 horas, teve que retroceder e regressar a Leixões devido "ao muito mar e vento".

Cedo se reconheceu que atendendo ao muito mar que implacávelmente batia contra o costado do navio e as marés serem mortas seriam infructíferas quaisquer esforços que se intentassem naquele momento.

Entretanto, a corporação dos pilotos reuniu em consulta, estando presente o sr. Capitão do Porto e decidiram por unânimidade, propôr que se fizesse um rombo no costado do lugre, afim de que este "assentando no fundo, não batesse quando axovalhado (2) pelo mar". Os entendidos acharam esta sugestão boa tendo-se verificado posteriormente que tinha dado resultado, caso contrário o navio teria sido desfeito.

Apesar destas medidas acidentais para evitar o pior, o navio acabou por partir ao meio, na tarde do dia 2-3-1914, acabando por se perder, sem ter feito viagem alguma aos mares da Terra Nova, ao serviço da Parceria.

O lugre "Santa Maria" viria a ser substituído pelo lugre "TYN" que entrou em Viana do Castelo em 29-04-1914  a reboque do vapor "Arcádia".

Glossário:

(1) - Garrar - Ir o navio arrastando o ferro ou ferros pelo fundo, sem estes fazerem presa sufuciente para aguentar o navio

(2) - Axovalhado - acossado pelas ondas

Fontes:

A Aurora do Lima: 02-03-1914, 29-04-1914

Viana do Castelo, 2010-04-15

Manuel de Oliveira Martins

publicado por dolphin às 17:29

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