Blog que retrata os acontecimentos do mar e porto de Viana e arredores, nos bons e maus momentos, dos pequenos aos grandes senhores.

18
Mai 10

O SEGUNDO SANTA LUZIA

 

Como referimos atrás, a direcção da Companhia Marítima de Transportes e Pesca, liderada pelo sr. Joaquim Soares, pôs em execução a construção, nos estaleiros da companhia, de uma nova unidade destinada à pesca do bacalhau.

Os trabalhos de construção estiveram a cargo do prestigiado mestre de construção naval sr. José Lopes Ferreira Maiato, e o navio foi concluído em escassos oito meses de trabalho intenso, com o fim de efectuar a campanha de 1921.

O navio apresentava as seguintes características:

Tonelagem de arqueação bruta (Tab)       = 325,99 toneladas

Tonelagem de arqueação líquida (Tal)      = 261,92      "

Comprimento entre perpendiculares (Lpp) = 48,10 metros

Boca (1) =  9,93 metros

Pontal (2) =  3,90 metros

Equipagem                                            = 43 tripulantes

O lugre "Santa Luzia" foi lançado à água cerca das 16.00 horas do dia 10-04-1921, domingo, nos estaleiros do Campo da Feira perante um mar de gente que aí afluiu, vinda das aldeias, em bandos alegres, para assistir ao "bota-abaixo", coisa nova para a maioria delas.



 

"Bota-abaixo" de um navio nos estaleiros do Campo da Feira

 

Era uma autêntica romaria,fazendo antever a Romaria d'Agonia "Aqui e alli, grupos de camponezas com trajes da região, cantavam e dançavam ao som da viola dedilhada por um rapagão...", assim se referia "A Aurora do Lima" a tão extraordinário evento para a cidade, onde também a alta sociedade e a juventude (feminina) participava, como se depreende pela referência "O Lima estava lindo. As suas águas, límpidas e serenas, mostravam assim como que um contentamento inesperado. Pudéra!... pois se vogavam sobre ellas pequenas embarcações conduzindo formosos palminhos de cara, que, para mais as envaidecerem, faziam das mesmas águas espelho para se verem!...".

Nesse dia de "bota-abaixo" era permitida a visita ao navio a todos sem excepção e a empresa proprietária do navio, contratava bandas filarmónicas e ranchos folclóricos para abrilhantar a festa como se percebe pela descrição, "De um lado, na estrada, um grupo de lindas cachopas dançavam o vira, ao som da philarmonica que junto ao escritório da Companhia se fazia ouvir para mais animar a cerimónia do lançamento".

Neste clima de festa se viviam os lançamentos à água dos navios nesses primórdios do Século XX. A mais alta sociedade vianense participava activamente ostentando a sua riqueza e estatuto social, cujo espelho disso, se comprova por, "Nas janellas dos prédios vizinhos, distinctas senhoras ostentavam vestidos pesados, próprios da sua edade e da sua posição, umas ostentando os seus lorgnons,(3) outras primaverilmente vestidas..."

 

Glossário:

(1) Boca - Largura máxima

(2) Pontal - Altura da quilha ao convés

(3) Lorgnon - Luneta com cabo

 

Fontes: A Aurora do Lima: 12-04-1921

Viana do Castelo, 2010-05-18

Manuel de Oliveira Martins

publicado por dolphin às 21:27

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