Blog que retrata os acontecimentos do mar e porto de Viana e arredores, nos bons e maus momentos, dos pequenos aos grandes senhores.

21
Dez 10

 

Pouco se sabe da vida deste ilustre vianense. Tudo leva a crer que nasceu em Viana, antes de 1498 por que nessa data surge como testemunha na formação do primeiro Tombo das rendas e bens da Câmara[1].

João Álvares Fagundes é descendente de uma família de clérigos que vieram do Porto acompanhar o Administrador da Comarca Eclesiástica de Entre-Lima-e-Minho,  D. João Afonso Ferraz (1464-1477) que era bispo eleito de Ceuta.[2]



Era filho de Álvaro Anes e sobrinho de Rodrigo Anes “Fagundo”;  o primeiro foi pároco em S. Vicente de Távora, S. Pedro de Seixas, Lanhelas e Argela, o segundo foi o primeiro arcipreste da Colegiada de Viana e seu filho Rui Fagundes ocupou o mesmo cargo. Eram pessoas influentes na Corte e na região.[3]

Herdou do pai os patronímios “Álvares Fagundes”. Teve uma filha de nome Maria Fernandes e em 1517 habitava numa casa da Rua Grande, da Vila de Viana  e, como possuía “carta de armas”, estava dispensado de contribuição para a finta da ponte sobre o Guadiana.[4]

Em 1521 o rei D. Manuel concedeu-lhe a capitania das terras descobertas. João Álvares Fagundes, para levar em frente essa grande aventura que foi a descoberta da parte meridional da Terra Nova, teve de se desfazer dos seus bens e até se endividado, por fim, veio a perder tudo o que havia conquistado com tanto sacrifício, em favor dos espanhóis que devido a um erro de longitudes cometidas pelos portugueses vieram a reclamar a inclusão do estreito de Cabot e  da Nova Escócia no seu hemisfério.

 


Deve-se a este Vianense a descoberta da Nova Escócia, a que chamou Terra Firme, depois navegou ao longo  da costa que segue na direcção SW-NE, entrou no Estreito de Canso onde fez aguada e a que deu o nome de Baía da Aguada, mais para norte contornou as ilhas do Cabo Bretão  e rumou na direcção de S.Pedro e Miquelon, chegando ao arquipélago de S.Pantaleão e à Ilha de Pitigão, resolveu mudar de rumo na direcção do sul onde encontrou a ilha de Sta. Cruz  que apelidou de Ilha Fagunda e daí para Oeste em direcção ao arquipélago das Onze Mil Virgens.

Como era costume dos descobridores de quatrocentos, julgava-se que também João Álvares Fagundes se teria socorrido do calendário litúrgico para nomear as descobertas que ia fazendo. Assim teria recorrido ao santoral cristão para baptizar as ilhas que ia descobrindo em função da data: no mês de Junho, no dia 13, a ilha com o nome do Santo António; no dia 24, dia de S. João, a ilha com o mesmo nome do santo desse dia; e a 29 desse mês S.Pedro. No mês de Julho surgiram as duas ilhas de Sant’Ana no dia 26 e no dia 27 o arquipélago de S. Pantaleão, “com a ilha de de pitiguoem”[5].

Como veremos mais adiante, existe outra hipótese provável. Em Agosto não houve nenhum achado, tudo levando a crer que estivessem entretidos na pesca do bacalhau na tranquila baía de Placência, ao sul da qual se situa a ilha de Santa Cruz que é refernciada como ficando no pé do banco que só podia ser o banco onde estavam a pescar.

Então, como agora, o clima não diferia muito. No fim de Agosto, princípios de Setembro começam-se a sentir os efeitos dos furacões. Era altura de regressar. No dia 14 de Setembro encontrou a ilha de Sta. Cruz que apelidou de Fagunda “ ...que esta no pee do banco E...[6]”, situada a sul do Cabo Race e rumou para ocidente na busca do caminho de regresso e foi dar ao arquipélago das Onze Mil Virgens no dia 21 de Outubro, retomando o caminho de retorno a Viana.

João Álvares Fagundes, estava entre os homens-bons de Viana, que em 6 de Novembro de 1512 se reuniram em concelho, para tomarem posição acerca do padroado do mosteiro de Sant’Ana, recentemente construído a expensas camarárias[7]. Dois anos passados, voltou a ser eleito para o cargo de juiz  do concelho de Viana[8].

Deve ter falecido no final de 1522 princípio de 1523, porque no Livro de Receita e Despesa da Câmara, primeiro fólio, pode ler-se: “...por ser falecydo, o dicto joham alvarez, foy emlygido martym fernandez, q servyse de vereador” [9].

O Dr. Manuel António Fernandes Moreira no livro “O Porto de Viana do Castelo e as Navegações para o Noroeste Atlântico” tece algumas considerações a propósito da data das descobertas, muito pertinentes. Assim, considera que o texto do alvará de concessão das terras descobertas tem dois limites: 1521 – ano da concessão da capitania a Fagundes, e 1501/1502, anos em que se realizaram as descobertas dos Corte-Reais. Atendendo à política que vinha sendo seguida por D. Manuel para aquela zona, depois do tratado de Tordesilhas, no pressuposto que pertencia ao hemisfério português, que era de descobrir e povoar antes dos espanhóis, que procuravam àvidamente uma passagem para o Pacífico, e também porque era uma zona rica  de peixe, apontava como ano provável da expedição de João Álvares Fagundes o ano de 1504, baseado no facto registado na Alfândega de Viana, deste ter comprado 2 moios de trigo dos Açores, o equivalente a 120 alqueires. Em face de tão grande quantidade de pão, que por certo não se destinava a consumo próprio, uma vez que os Fagundes eram uma família abastada que possuía grande número de terras dentro do perímetro da própria vila e recebiam avultadas rendas provenientes de comendas e igrejas, talvez que a grande quantidade de trigo adquirido se destinasse a organizar a expedição[10].

Considera ainda o mesmo autor, que embora fosse norma o uso do santoral romano nas descobertas, e alguns autores o tenham apontado a João Álvares Fagundes também como tendo atribuído a descoberta no dia 13 de Junho da Ilha de Santo António; dia 24, S. João; dia 29, S. Pedro. No dia 26 do mês de Julho as duas ilhas de Sant’Ana e o arquipélago de S.Pantaleão com a ilha de Pitigão no dia 29  desse mês. Em 14 de Setembro a Ilha de Santa Cruz e a 21 de Outubro, o arquipélago das Onze Mil Virgens. Apesar deste critério ser plausível, aponta outro como provável, os nomes das quatro portas da antiga alcáçova de Viana correspondem precisamente aos nomes S.João, S. Pedro, Santo António e Sant’Ana. Por outro lado as designações Onze Mil Virgens e S. Pantalião são devoções que ligam particularmente os marentes de Viana. Por último, refere, que o nome Santa Cruz,  está intimamente ligado à família Fagundes que tinha uma veneração profunda com o Santo Crucifixo, tendo-lhe, por esse motivo, consagrado a pedra  tumular da igreja Matriz de Viana.[11]

Outro facto desmitificado pelo Dr. Manuel António Fernandes Moreira, refere-se  ao nome da filha de João Álvares Fagundes  que se pensava ser Violante Fagundes, porém, o Livro das Sisas dos Panos da Alfândega de Caminha do ano de 1519, veio esclarecer que o nome correcto da verdadeira filha de João Álvares Fagundes era Maria Fernandes, que adquiriu 11 varas de pano de Tenebim (Teneby) por 770 reis.[12].



[1] Moreira, Manuel António Fernandes, O porto de Viana do Castelo e as Navegações para o Noroeste Atlântico, p.77

[2] Moreira, Manuel António Fernandes, O Porto de Viana do Castelo na Época dos Descobrimentos, p.155

[3] Idem, Ibidem

[4] Idem, Ibidem, p.156 e 157

[5] Idem, Ibidem,p.163

[6] Moreira, Manuel António Fernandes, O Porto de Viana na Época dos Descobrimentos, p.162

[7] A.M.V.C., Foral Grande, p.168

[8] Idem, p.170

[9] Moreira, Manuel António Fernandes, O Porto de Viana do Castelo e as Navegações para o Noroeste Atlântico,p.79

[10] Idem

[11]Idem, p.79 e 80

[12] Idem, p.78 e80

 

COM ESTE TEXTO TERMINO O ANO DE 2010, DESEJANDO AOS MEUS AMIGOS E SEGUIDORES DESTE BLOG,

FESTAS FELIZES.

publicado por dolphin às 19:24
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