Blog que retrata os acontecimentos do mar e porto de Viana e arredores, nos bons e maus momentos, dos pequenos aos grandes senhores.

25
Jul 14

ONDE ESTAVA NO 25 DE ABRIL (5)

 

Dormitava, por efeitos do cansaço e do enjoo (já ultrapassado pela habituação), quando um dos homens de vigia me abanou alertando-me para um barulho que lhe parecia ser de um motor que por vezes se deixava de ouvir. Supus e não me enganei, que era a lancha de aliviar os botes do Novos Mares que vinha ao nosso encontro. Quando a lancha estava na crista das ondas ouvia-se perfeitamente, quando caía para a cava deixava de se ouvir. Ordenei então a todos, que tinham os coletes vestidos, para sacarem o apito dos respetivos coletes e começarem a apitar com quanta força tivessem, enquanto eu batia com os pequenos remos um no outro. De quando em vez mandava parar os apitos para escutar o barulho do motor que me parecia estar a dirigir-se na nossa direção por se tornar mais nítido.

Quando se avistou o clarão da pequena embarcação, quase impercetível, devido ao nevoeiro, quase todos se precipitaram para a abertura da jangada tornando eminente esta voltar-se. Tive de dar um berro a pôr ordem e serenar aquela euforia que poderia redundar em tragédia, mesmo à beira do salvamento.

Faltava ainda a viagem para o navio «Novos Mares» e a escalada pela escada de quebra costas. Um a um, com muita precaução para não cair ao mar gelado, lá foram subindo para bordo os náufragos da última jangada, aplaudidos pela algazarra dos outros que já se encontravam a bordo, em sinal de regozijo por verem o camarada a seu lado, são e salvo. Fui o último a saltar, não nas melhores condições. Durante o embarque dos tripulantes da lancha para o navio, o capitão tinha posicionado o navio por forma a fazer socairo[1] para o embarque se processar em melhores condições. No momento em que se deu a minha vez de saltar para a escada de quebra costas, o navio tinha descortinado[2] e rolava[3] bastante, obrigando a escada a balouçar como um pêndulo, tornando-se difícil embarcar nestas condições. Depois de várias tentativas infrutíferas, atirei-me para a escada agarrando o extremo com a mão esquerda e nesse momento houve um afastamento da lancha em relação ao navio e vice-versa e fiquei suspenso pela mão esquerda que aguentou com o meu peso e o impacto contra o costado do navio, enquanto tentava apanhar com a outra mão o outro lado da escada, o que consegui milagrosamente, no momento em que o navio rolava em sentido contrário e fiquei suspenso no ar até tocar com a ponta dos pés na água gelada no extremo do ângulo do balanço. Naquele momento pensei que não iria resistir e em segundos vejo-me novamente projetado contra o costado do navio dando-se aqui um milagre, uma força extrema e sobrenatural ajudou-me a subir dois degraus e colocar os pés na última travessa da escada de quebra costas. Estava salvo pensei eu. Agora podia vir o balanço que viesse que eu já conseguiria aguentar. Entretanto o capitão já conseguira posicionar o navio de forma ao balanço ser menor e pude subir para bordo mais facilmente e em segurança. No momento em que pousei os pés no convés do navio, respirei fundo e elevei os olhos para o céu, agradecendo a Deus a dádiva de me ter salvo a vida.

Estes momentos são inesquecíveis e gratificantes. Seguiu-se o repatriamento de que se encarregou o sr. Ângelo Silva, fretando um avião da Canada Air Pacific, para transportar as tripulações de dois navios, São Jorge e Capitão Ferreira, o navio «fantasma», e mais alguns tripulantes doutros navios que tinham ficado em terra doentes.

A chegada ao aeroporto da Portela em Lisboa foi comovente para todos nós especialmente aqueles que tinham familiares à espera. Não era o meu caso que tive de esperar mais algumas horas até que o autocarro chegasse à minha terra. Foram momentos indescritíveis que cada um viveu nos abraços que estreitaram com os familiares e amigos.

Dias depois da nossa chegada, os oficiais e alguns tripulantes foram chamados à capitania do porto de Aveiro para serem ouvidos em inquérito sobre a perda do navio, que se arrastou por semanas, sem qualquer conclusão.

Um dia encontrei na empresa o pescador que uma vez me disse na Terra Nova, que os pobres passavam a ricos e os ricos a pobres. Estava a lamentar-se ao armador, que perdera o motor no naufrágio e a Mútua não lhe pagava nada pela perda. O armador argumentava dizendo: - Você perdeu o motor e eu perdi o navio e também não me pagam. Ainda para mais duvidam do acidente e por isso está a decorrer um inquérito. Vamos lá a ver no que dá!... Tenho muita pena homem, mas não lhe posso valer. Você não quis fazer o seguro do motor como nós aconselhamos e alguns dos seus colegas fizeram e agora tiveram direito à indemnização.

Esperei por ele à saída da empresa e confrontei-o, disse-lhe: - Eu ouvi a sua conversa com o armador e lamento pelo sucedido. Eu bem o avisei que as coisas não eram como você supunha. Nada se faz sem trabalho. Desejo-lhe sorte.

E partimos cada um para seu lado, à procura de melhor sorte.

 

Publicado no jornal «A Aurora do Lima» em 05/06/2014

 

Viana do Castelo, 2014-05-04

Manuel de Oliveira Martins

maolmar@gmail.com

 



[1] Socairo – Proteger do vento e mar.

[2] Descortinar – Mover a proa para um e outro bordo por ação do vento, mar ou corrente e, quando a navegar, por acção do leme ou do hélice.

[3] Rolar – dar rolo significa o navio balouçar lateralmente de bombordo a estibordo.

publicado por dolphin às 18:04

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