Blog que retrata os acontecimentos do mar e porto de Viana e arredores, nos bons e maus momentos, dos pequenos aos grandes senhores.

23
Jan 15

 

Mais uma vez o Alto Minho ficou de fora no plano de investimentos da estradas de Portugal para o quinquénio 2015-20. A região do Alto Minho é uma das mais pobres da Europa e menos dotada em termos rodo-ferroviários.

Os acessos rodoviários ao porto de mar de Viana do Castelo, há décadas prometidos por diversos governos, não passaram do papel. Não existe a nível nacional uma estratégia para o desenvolvimento desta região, que se vai desertificando cada vez mais, apesar de ficar situada na orla litoral, com todas as condições para se tornar numa plataforma logística estratégica entre Portugal e a Galiza.

Por vezes, passa-me pela cabeça que existe um estratagema montado, para desviar investimentos previstos e devidos para esta região, para outras regiões concorrentes em termos estratégicos e geográficos. Existem lobies muito poderosos e influentes que conseguem mover obstáculos à partida intransponíveis e já decididos, que voltam atrás.

Ultimamente, e por constrangimentos políticos, a região Alto Minhota, mais uma vez não foi contemplada com as estruturas necessárias ao seu desenvolvimento e melhoria das condições de vida dos residentes. A maioria dos que por cá nasceram, amam a sua terra como nenhuns outros, mas ao contrário do slogan, não ficam, por que não têm condições para sobreviverem e voltam pela Agonia numa romagem de saudade e nada mais.

Os políticos, antes de tomarem decisões, que jogam com a sobrevivência das populações, devem pensar profundamente nas consequências desastrosas decorrentes da leviandade dessas posições.

Santa Luzia (44).JPG

 

O que aconteceu recentemente dos dois lados da barricada foi um medir forças desnecessário, com perda para as populações, sem atender ao interesse geral, como ficou demonstrado pela injusta decisão agora tomada relativamente à não atribuição de verbas que promovam a coesão do território e garantam a sustentabilidade económica e social, em favor de outras regiões mais desenvolvidas.

Por natureza não tenho jeito para a política e nem gosto de comentar as atuações dos políticos, mas há atitudes que alguns políticos tomam que me desiludem e me deixam descrente. A sensibilidade e humildade para reconhecer a perda, são dois fatores, para mim, muito importantes em qualquer registo de vida. Por outro lado, a arrogância e o cinismo enojam-me e revoltam-me.

Existem nos verdadeiros políticos outros predicados que os diferenciam positivamente e os levam a conseguir resultados insondáveis que se transformam em potencialidades jamais imaginadas e benéficas para as populações. Esses políticos não fazem alarde, exigem sem afrontar, sempre tendo em mente o objetivo que os move – o interesse dos eleitores.

Infelizmente, a política descambou para um poço sem fundo, donde dificilmente sairá, a menos que uma cheia de boas práticas democráticas a venha libertar do atoleiro de insanidades que em nome da liberdade se têm cometido.

Esta divagação, vem a propósito da injustiça cometida com o corte de verbas, que devia ter sido atribuído para a construção dos acessos ao Porto de Mar (depois de todo o trabalho de expropriações) e que com a resolução recente de integrar o porto de Viana do Castelo no porto de Leixões, parece estar integrado numa concertação já previamente definida, que acaba definitivamente com qualquer veleidade.

É um preço demasiado elevado a pagar pelas gerações vindouras, fruto de arrufos entre políticos, desprezando os superiores interesses das populações desprotegidas, únicos perdedores neste contexto trágico-cómico.

A conjugação destas duas efemérides tão nefastas para Viana do Castelo, arruma definitivamente com o porto de Viana do Castelo, transformando-o ainda mais num caixote de lixo, para onde vai só aquilo que não presta. Adeus Porto de Mar…

Viana do Castelo, 2014-12-14

Manuel de Oliveira Martins

maolmar@gmail.com

publicado por dolphin às 14:44
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01
Set 13

Esta manhã entrou no porto de Viana do Castelo o navio de passageiros «Minerva» numa visita curta de algumas horas.

Arredado das lides marítimas há alguns anos, mantenho ainda o «bichinho» que, quando vejo um navio a manobrar, não resisto à tentação de tirar umas imagens para mais tarde recordar.

Faltava-me a máquina que por hábito costumo trazer no carro para registar acontecimentos, pessoas, paisagens, etc., que me chamam à atenção. Na falta dela serviu o telemóvel com o qual tirei as imagens que vos mostro e que não são de grande qualidade mas servem para ilustrar o texto que escrevo.

 

 

 Enquanto tirava as fotografias lembrei-me duma ideia antiga que me ocorreu, ainda Leixões nem sonhava com os cruzeiros e o terminal, precisamente quando o navio «Funchal» veio em visita a Viana do Castelo. Já lá vão mais de dez anos, seguramente.

A ideia era simples e viável. Incentivar a vinda de pequenos paquetes, até 180 metros de comprimento, durante os meses de Verão, numa parceria de autoridades portuárias, municipais, regionais, envolvendo os agentes de viagens o turismo e o comércio, numa operação integrada.

 

 

 

As potencialidades são muitas, precisam de ser bem divulgadas e exploradas. Numa primeira fase pode ser aproveitado o cais comercial para arranque do serviço. Posteriormente, e num curto prazo, (1, 2 anos no  máximo) a construção de um cais na margem direita, como estava previsto no projeto inicial do porto de Viana do Castelo.

 

 

 

 

Viana do Castelo merece e precisa que o poder central e as autoridades regionais e locais se interessem pelo aproveitamento das potencialidades existentes em belezas naturais, gastronomia, arquitetura, arqueologia e qualidade ambiental.

As carências da região, a todos os níveis, teem de ser olhadas na perspetiva de melhoria de vida das populações locais, sem a qual não é possível fixar as pessoas a que o êxodo para outras paragens vai cada vez mais empobrecendo.

 

Leixões está a ser dotado de um terminal de cruzeiros que vai custar mais de cem milhões de euros, Portimão vai aumentar o cais para receber mais navios de cruzeiros e em Lisboa vai ser feito um monumental terminal de cruzeiros em Santa Apolónia.

Um cais na margem direita do rio Lima, (na zona do atual pontão de embarque/desembarque dos «ferries») simples e aberto, para deixar as correntes fluirem livremente, não seria muito dispendioso.

Apelo a todos, em especial às autoridades interessadas no desenvolvimento sustentado desta bela região (Alto Minho) para que deem as mãos e, paralelamente à implementação deste serviço, exijam ao poder central a feitura desse cais que há muito devia ter sido construído.

 

 

 

 

 

publicado por dolphin às 17:43

28
Ago 11

O porto de Viana do Castelo recebeu entre 22 e 26 do corrente mês o navio «E-SHIP 1» pertencente à terceira maior companhia de sistemas de energia eólica do mundo - ENERCON - que esteve à carga de três torres de aerogeradores com destino à Lituânia.

 

 


O «E-SHIP 1» é um navio do tipo Ro-Ro Heavy Lift que utiliza o efeito Magnus aplicado a quatro cilindros verticais, com 4 metros de diâmetro e 27 metros de altura acima do convés principal, denominados rotores Flettner, em homenagem ao engenheiro alemão Anton Flettner, que primeiro experimentou este tipo de propulsão em 1922/5.


 


O navio constitui um projeto inovador de construção naval, especialmente desenhado e estudado para o transporte de pás,torres,turbinas e outros componentes dos aerogeradores, podendo transportar outro tipo de carga utilizando o sistema Roll-on Roll-off.

 

 

Construído nos Estaleiros Lindenau Werft GmbH em Kiel, foi lançado à  água em 2 de Agosto de 2008. Por motivo de fecho destes estaleiros em 25 de Janeiro de 2009, só viria a ficar concluído e a efectuar a 1ª viagem em 6 de Agosto de 2010.

Apresenta como características principais: - Comprimento total- 130,42 m;Comprimento entre perpendiculares- 123,42 m;Boca- 23,99 m;Pontal-11,3 m; Calado- 7 m;Dwt- 10 020 t; Grt-12 968 t.

Para além destas características, o navio está equipado com 6 motores Mitsubishi diesel-elétricos de 16cy S16R-MTK de 1992 bhp de potência cada x 1500 rpm. A «potência ecológica» que permite uma economia de combustível da ordem dos 30 a 40% desenvolvendo uma velocidade de cerca de 16 nós, é fornecida por um grupo de caldeiras que alimentam uma turbina a vapor Siemens que faz acionar os quatro rotores Enercon que foram desenvolvidos pela Flettner.

A velocidade é aproximadamente de 17,5 nós e conferida por um hélice de passo variável. Como auxiliares de manobra possui ainda dois thrusters - 1 AV e 1 AR ( com tunel transversal).

Em termos de meios de elevação está equipado com dois guindastes instalados a bombordo com capacidade de carga de 80 e 120 toneladas. O navio tem três porões com capacidade de carga para 853 teus.

O «E-SHIP 1» foi registado no porto alemão de Emden e classificado pela Germanisher Lloyd com a classificação: 100 A5 E3 com bordo-livre 2.010 m; Navio multi-usos para cargas secas; IW NAV-OC BWM SOLAS-II-2, Reg.19 C2P49; Passaporte ambiental, equipado para transporte de contentores, equipado para transporte de carga Ro-Ro, reforçado para cargas pesadas. 


publicado por dolphin às 01:15

25
Jun 11

Até quando continuaremos a ver imagens como estas? ... até quando ...

 

 

 

 

Como estas, muitas outras fotografias que ao longo dos anos fomos tirando, preservando um património visual que os vianenses tanto estimam e se habituaram a visualizar diáriamente.

Com as recentes notícias, nada animadoras, quanto ao futuro dos Estaleiros Navais de Viana do Castelo, interrogamo-nos até quando será possível manter estes quadros vivos que registam a actividade desta indústria de construção naval que remonta aos meados do século passado (1944).

De quem é a culpa? Não sabemos e certamente não haverá ninguém que o possa afirmar em concreto. Pouco importa agora descobrir ou atribuir culpas a A, B, ou C. É tempo perdido. O que importa agora, e já, é encontrar uma solução que viabilize duma vez por todas, sem remendos, o barco que está a afundar-se. Quem anda no mar sabe que por vezes é necessário deitar carga ao mar para salvar o navio de naufragar, é custoso ter de o fazer, mas é melhor do que irem todos para o fundo. A menos que se queiram tornar todos em heróis, o que duvido.

A indústria de construção naval é ingrata, porque incerta. Tem picos. Sempre assim foi e sempre assim será. Neste momento, no Ocidente, está a atravessar uma crise, derivado à concorrência dos países asiáticos. Esta situação não vai durar eternamente, é necessário adaptar as estruturas para suportar esta fase. Tempos melhores virão, depois de se estabelecer o equilíbrio que a globalização da economia mundial gerou. Até lá é necessário que todos, mas mesmo todos(patrões e operários, governantes e cidadãos), deêm as mãos no sentido de gerarem um consenso para definirem qual é a carga que cada um tem que atirar ao mar para salvar o barco. Se assim não procederem, adeus Estaleiros Navais, adeus país. Ficaremos apenas com as memórias das fotografias que tiramos...

 

publicado por dolphin às 16:17

24
Nov 10

Há cerca de vinte anos, alguém teve a infeliz ideia de prolongar o molhe Sul do Porto de Viana. Na altura chamamos à atenção para quem tinha responsabilidade e apontamos as consequências que poderiam advir se tal empreendimento fosse por diante. Não nos deram ouvidos e até nos quiseram sanear.

 

 

 

Passados três anos da conclusão das obras, tal como previramos, depois do enchimento da praia do Cabedelo (cerca de 150 metros para oeste),começou a formar-se uma coroa de areia na ponta do molhe exterior (oeste) estreitando o canal da barra de acesso ao porto e diminuindo a profundidade. Várias têm sido as intervenções de dragagem ao longo dos anos para evitar o estrangulamento e fecho do porto.

 

 

 

Em Janeiro do corrente ano a draga "Barge R" efectuou uma intervenção no baixo que há 17 anos se formou na cabeça do molhe exterior e que periódicamente é necessário dragar; agora é a vez da draga "Dravo Costa Dorada" a fazer mais uma intervenção, para que navios como os que estão na foto abaixo, possam continuar a operar no porto de Viana do Castelo.

 

 

 

Tudo isto podia e devia ter sido evitado!

publicado por dolphin às 00:01

18
Set 10

Foi no longínquo ano de 1939 que o lugre de 4 mastros, casco em aço e motor auxiliar, entrava nas águas do Lima, para aí fazer hiberneira depois da 1.ª viagem ao mar Ártico.

Durante 26 anos fez de Viana do Castelo o seu porto de abrigo e descanso para repousar das agruras e tormentas dos mares gelados da Terra Nova e Groenlândia até à partida para nova campanha.

Um dia foi vendido pela Empresa de Pesca de Viana, em fase de renovação da frota, à Empresa Ribau da Gafanha da Nazaré.

Em 1970, fui convidado, através de um amigo, a embarcar de Imediato no S.M.Manuela. Apresentei-me ao capitão João Guilherme, mas nesse mesmo dia fui "transferido" para o Avé Maria e passado uma semana estava a matricular de piloto no Lutador para a minha 1ª viagem à pesca do bacalhau.

O S. M. Manuela foi um navio que deixou muitas saudades em Viana do Castelo não só aos que nele embarcaram como aos vianenses em geral, por isso a vinda deste navio em romagem de saudade, vai por certo trazer muita emoção e carinho aqueles que de perto viveram as partidas e chegadas como eram sentidas naqueles tempos distantes.

Esta manhã (17) não resisti à tentação de ir ver entrar o S. Maria Manuela pelo canal de acesso ao Cais Comercial, percurso diferente daquele que estava habituado a fazer no acesso à antiga Doca Comercial e tirei algumas fotos que ficarão como recordação desta visita de cortesia.

 

Entrada entre molhes

 

 

Com dois "roncadores" pelos traveses - a BB o de pedra; a EB o de aço

 

 

Rumo ao novo cais

 

 

Com a bóia de "bifurcação" por BB

 

 

Espreitando os estaleiros com o Atlântida em espera . . .

 

 

Serenamente rio acima

 

 

Com a Estação de Pilotos na amura de BB

 

 

Contemplando a cidade e o Monte de Santa Luzia

 

 

Repousando no Cais Comercial contemplando de longe a cidade

 

 

Até parece que está na Doca Comercial

publicado por dolphin às 00:56

08
Mai 10

 

O MEDO DA GUERRA

 

Na figueira da Foz, principal porto bacalhoeiro no primeiro quartel do Século XX, no ano de 1917, conforme noticiava o “A Aurora do Lima” do dia 13-02-1917, os navios bacalhoeiros daquele porto estavam em risco de não saírem nesse ano para os mares da Terra Nova.

Na origem desta decisão por parte dos armadores, a braços com graves problemas financeiros, resultantes dos encargos com apetrechamento e manutenção dos navios, a falta de saída do produto em consequência da crise e o decréscimo do valor de venda a que se juntou um outro factor que fez cair por terra a viabilidade mínima que os navios tinham de operar nesse ano.

Esse factor era imposto pelas tripulações, nomeadamente pelos capitães que exigiam, no caso de trazerem bastante carga, 6 contos cada um e um subsídio de 1$500 reis por dia a ser pago às famílias dos tripulantes em caso de morte ou por desastre em consequência da guerra. (Penso estar aqui, nestas reivindicações justas, mas que os armadores não podiam pagar, a origem da Mútua dos Armadores, como forma de, associados, poderem fazer face aos encargos em caso de sinistro).

A vida da pesca do bacalhau é árdua e, naqueles tempos mais dura ainda e agravada pelo espectro de naufrágio motivado pela guerra. Não admira, portanto, esta reivindicação dos capitães que temiam pela sua vida e dos pescadores e principalmente dos familiares que deles dependiam.

A razão assistia dos dois lados, armadores e trabalhadores, a culpa era da crise que há muito se havia instalado, não encontrando os governantes forma de a resolver.

Nesse mesmo ano, o país foi confrontado com mais uma revolução liderada por Sidónio Pais, pretendendo mostrar o descontentamento pela forma como a classe política, pós revolução de Outubro de 1910, tinha deixado chegar o país, pior do que estava no tempo da Monarquia.

A Parceria de Pescarias de Viana, jovem empresa do sector pesqueiro, ponderada a situação e baseada nas últimas declarações do governo alemão, que o seu fim não é atacar qualquer navio, mas sim impedir que os países mais directamente interessados e intervenientes na guerra possam abastecer-se, Portugal estava fora desse âmbito, resolveu mandar aprestar os navios, “Santa Luzia” e “Santa Maria” para partirem na época.

 

Fontes : A Aurora do Lima 13-02-1917

 

Viana do Castelo, 2010-04-25

Manuel de Oliveira Martins

publicado por dolphin às 22:47
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29
Abr 10

A GUERRA E A POBREZA EM VIANA

 

Portugal ainda não refeito da mudança radical que se operou com a revolução Republicana de 1910, com uma instabilidade governamental, que impedia a saída da crise, estava envolvido na 1.ª Grande Guerra Mundial agudizando de forma significativa a vida dos seus habitantes.

Viana do Castelo e toda a Região do Alto Minho, sentiu ainda mais os efeitos da crise, política, económica, financeira e social em que o país estava mergulhado.

Havia pobreza em Viana do Castelo, os pescadores não iam ao mar motivado pela escassez de peixe na costa, os lavradores dependentes duma agricultura de subsistência pouco produziam, não havia poder de compra entre as classes mais desfavorecidas que dependiam do seu trabalho e este não havia.

A Parceria de Pescarias de Viana, recentemente constituída estava com dificuldades em vender o bacalhau capturado no 1.ºano da sua actividade. Por este motivo e também para amenizar  a vida dos mais carenciados, decidiu “oferecer ao município o bacalhau que tem armazenado para ser vendido ao preço de 350 reis o quilo do de 1.ª, 310 o de 2.ª e 280 o de 3.ª”.

Foi uma medida acertada tomada pelo gerente da empresa, sr. João Baptista Ferreira que desta forma resolveu duas situações, não ganhou mas não perdeu e possibilitou que as classes trabalhadoras pudessem “tirar a barriga de misérias” adquirindo o “fiel amigo” a um custo acessível às suas bolsas.

Nesse ano de 1916 em que ocorreu o facto que relatamos, a Parceria de Pescarias de Viana mandou os navios para os mares da Terra Nova.

O lugre “Santa Luzia” comandado pelo sr. capitão Manuel Marques Mano Agualusa, fez a viagem de Viana a Lisboa, onde foi abastecer de mantimentos e sal, no tempo recorde de 22 horas e 15 minutos, apesar de ter navegado longe da costa, por supor que os faróis se encontravam apagados por causa da guerra, perdendo caminho e tendo de esperar para entrar, com diz o capitão,“cheguei a Cascaes às 10,30 horas da manhã. Alli obrigaram-me a pairar até às 11 horas da manhã, que foi quando recebi o prático e depois de cumpridas as formalidades da actual situação (1), o navio seguiu para a barra”.

A manobra de entrada na barra de Lisboa à vela foi surpreendente e revela as qualidades náuticas  do navio mas também de quem o comanda e manobra. O relato que faz o capitão Agualusa é disso esclarecedor, “À frente navegava um vapor, puxando (2) 10 milhas.

O vento refrescou mais no apertado da barra (3) e o navio apanhou tal seguimento, que foi preciso arrear alguns pannos para não ver o “Santa Luzia” saltar por cima do vapor.

No dia seguinte, na capitânia, o prático que pilotava o vapor, deu-me os parabéns pela boa marcha do nosso “Santa Luzia”.

E assim pode V. ver que os bons navios muitas vezes encobrem a falta de energia dos seus capitães...”

Os bacalhoeiros que partiram no início de Maio para os bancos começaram a regressar a partir de meados de Outubro como foi o caso  de alguns navios da praça de Lisboa que aportaram a Viana do Castelo para descarregar o pescado para a secagem.

No dia 17 de Outubro de 1916 entraram em Viana o lugre (4) “Argus”, a escuna (5) “Creoula” e o patacho (6) “Neptuno”. Todos eles foram rebocados pelo vapor “Mosquito” propriedade do senhor João Magalhães. Mais uma vez aqui se regista a falta de um rebocador para auxílio das manobras e as dificuldades que os práticos dessa época tinham em manobrar os navios na entrada da eclusa do canal de acesso à doca.

Um dos navios que teve dificuldade em entrar, por ser o de maior boca (7), foi o patacho “Neptuno”. Quando entrava no canal da embocadura da doca, tocou no molhe sul e a unha do ancorote (8) ficou entalada entre o cais e o navio provocando neste um rombo junto à proa.

No cais do norte encontrava-se a ver a manobra o mestre calafate senhor António Gonçalves Pinto que notou que o navio estava a imergir (9) sem que de bordo alguém se apercebesse e, pressuroso, saltou para bordo do navio, descendo para o rancho (10) e procedendo a arrombamento de anteparas até chegar ao local do rombo com o intuito de o tapar.

Como um navio na situação de água aberta (11) constitui um perigo para a navegação em porto, o Capitão do Porto, responsável pela segurança, determinou que o navio seguisse para o Cabedelo a fim de ser encalhado numa coroa de areia.

O “Mosquito” que já se encontrava na amarração, teve de retroceder para rebocar o “Neptuno” para o Cabedelo, onde foi encalhado. Durante o trajecto e apesar das bombas de esgoto do navio terem trabalhado incessantemente para esgotar a água que jorrava pelo rombo, chegando a atingir “a altura de metro e tanto”.

Se não fora o pronto serviço efectuado pelo rebocador e calafate António Gonçalves Pinto, a que se deve associar a Corporação dos Pilotos e outros que intervieram na operação, o “Neptuno” teria submergido na doca ou no canal do rio, causando danos imprevistos à navegação, ao porto e à região.

Mas nem tudo foi mau nesse ano, a 24 de Outubro entrava a barra de Viana, proveniente dos bancos da Terra Nova, o lugre “Santa Maria” com um carregamento de bacalhau, consignado à Parceria de Pescarias de Viana.

Glossário:

(1)  – Deve querer referir-se à guerra.

(2)  – Puxar = Puchar fogo – significa nos navios a vapor aumentar o fornecimento de carvão à caldeira para dar mais velocidade.

(3)  – Apertado da barra – Entre S. Julião da Barra e o Bugio.

(4)  – Lugre – Navio à vela de mais de três mastros que enverga pano latino.

(5)  – Escuna – Navio à vela de dois mastros com um mastaréu em cada um deles.

(6)  – Patacho – Navio de dois mastros (traquete e grande) o traquete com pano redondo e o grande com vela latina e gave-tope.

(7)  – Boca – largura máxima do navio.

(8)  – Ancorote – Âncora pequena.

(9)  – Imergir – afundar.

(10) - Rancho – local onde são servidas as refeições.

(11) - Água aberta – a meter água

Fontes : A Aurora do Lima: 18-02-1916; 09-05-1916; 20-10-1916; 24-10-1916

Viana do Castelo, 2010-04-21

Manuel de Oliveira Martins

publicado por dolphin às 18:27
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01
Abr 10

7-FAROL DE MONTEDOR


A necessidade de dotar  a costa norte de Portugal entre Vigo e o Porto de um farol era premente, devido ao grande número de navios que passavam ao longo da costa, quer da aproximação aos portos de Viana do Castelo e do Porto. A ilustrar esta situação, o articulista do jornal "A Aurora do Lima" referia no nº 1765 de 23-09-1867, "Não há um único pharolim, e, vergonha é dizê-lo, até aos navios que demandam o fundeadouro ao sul da barra de Vianna lhes serve de guia uma pequena luz, que todas as noites  os pescadores collocam junto a um nicho onde está um santo, no forte da barra chamado Fortim".




Pela sua elevada posição e também pelo facto de formar naquele ponto um ângulo reentrante pelo mar (cabo), o monte de Montedor era o local mais indicado para se implantar um farol. A esta conclusão já antes tinha chegado uma comissão de oficiais de Marinha que há mais de 4 anos fizeram um estudo para este efeito e que apresentaram no Ministério da Marinha sem contudo ter sido tomada qualquer providência, como era reclamado com urgência.




Como já referi noutro post anterior, o projecto do farol de Montedor iniciou-se em 1883 e só 27 anos depois, em 20 de Março de 1910 é que foi inaugurado, fez há dias um século. Tive pena de não poder estar presente na cerimónia das comemorações, mas outros afazeres importantes coartaram-me essa presença.

 

Fontes: A Aurora do Lima, n.º1765 de 23-09-1867

M. Marinha - Lista de faróis de 1960

Viana do Castelo, 2010-10-27

Manuel de Oliveira Martins

publicado por dolphin às 23:27
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25
Mar 10

4 - NAUFRÁGIO DO NIETA

 

No dia 21 de Julho de 1861, pelas 2 horas e meia da manhã, varava (1) na costa, a meia milha ao norte do Castelo de São Tiago da Barra, o vapor espanhol NIETA, de 447 tons, do comando do capitão D. João Baptista Alegria, propriedade de D. José Sierra, registado no porto de Barcelona.

O navio partira de Barcelona, com escala por outros portos do Mediterrâneo, com destino a Liverpool, com escala em Vigo. Trazia um carregamento incompleto de azeite, aguardente, panos, passas, etc. A tripulação era composta por 28 tripulantes e 7 passageiros. Tratava-se de um bonito navio novo, movido a hélice.

A zona da costa em que encalhou é rochosa e cheia de escolhos, pelo que as diligências tomadas para o salvar foram difíceis de executar. Apesar das dificuldades sentidas, foi possível, através de lanchas, descarregar toda a carga, sem avaria, para os armazéns da Alfândega.

Pensavam os peritos que depois do navio aliviado (2) da carga, seria possível, na preia mar, desencalhá-lo. Tal não se verificou, no entanto, às 14.00 horas do dia 22 de Julho, conseguiram safar o navio da cama(3) onde estava assente, porém, com muita água dentro, fruto dos rombos sofridos no costado.

Para o bom êxito deste salvamento contribuíram muito as acertadas providências tomadas pelos srs. Director da Alfândega, Administrador do Concelho, Capitão do Porto e Vice-cônsul Espanhol. O Director das Obras Públicas, Sr. Eng.º Nogueira Soares, estava no local do sinistro, pronto a actuar com os mergulhadores das obras da barra, para, caso necessário, proceder ao quebramento de alguns rochedos para facilitar a saída do navio, o que não foi preciso, devido ao vapor, por acção duma volta de mar se ter desentalado dentre os rochedos.

Safo das rochas, o navio foi para o fundeadouro(4) da Cal, a aguardar ordens do armador, carregadores e seguradoras. Por ordem da companhia de seguros do navio e da carga, de Liverpool, foi determinado ao Capitão do navio que seguisse para Vigo a fim de reparar as avarias sofridas. Em consequência destas ordens, foi feita uma peritagem ao vapor, por peritos que foram de bordo do navio de guerra LYNCE que se encontrava também fundeado fora da barra. Depois da peritagem, os peritos declararam que o navio podia fazer a viagem para Vigo sem risco, apesar dos rombos que tinha no casco.

A pedido do vice-cônsul Espanhol em Viana do Castelo, o comandante do vapor português de guerra LYNCE, anuiu em acompanhar  o NIETA até à entrada de Vigo, de prevenção para acudir a algum acidente que pudesse surgir. Os peritos de Vigo, após vistoria detalhada à zona arrombada, concluiram que o navio podia  sem risco, seguir viagem para Liverpool, depois de receber a carga que ficara estivada e guardada em Viana. Em face de tão boa nova o capitão rumou imediatamente para Viana do Castelo onde recebeu a carga fora da barra.

Na madrugada do dia 4 de Agosto de 1861, o vapor NIETA, suspendeu (5) do fundeadouro onde recebeu a carga e seguiu para Liverpool, com todo o seu carregamento salvo e em bom estado.

Glossário: (1) - Varar - dar à costa numa praia. (2) - Aliviar - Tornar o barco mais leve, deitando carga ao mar ou transferindo-a para outro barco. (3)- Cama - Também se chama "berço" quando o navio assenta com a quilha no fundo. (4) - Fundeadouro - Local em que o navio larga a âncora ou ferro em segurança para se manter preso ao fundo. (5) - Suspender - Levantar a âncora ou ferro através do molinete (aparelho de viragem destinado para esse fim).

Fontes: A Aurora do Lima: 22,24,26,29,31-07-1861; 02,05-08-1861

Viana do Castelo 2010-03-24

Manuel de Oliveira Martins

publicado por dolphin às 18:04

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