Blog que retrata os acontecimentos do mar e porto de Viana e arredores, nos bons e maus momentos, dos pequenos aos grandes senhores.

17
Abr 10

A SECA DO BACALHAU

 

O bacalhau "Gadus Morhua", depois de capturado, pelas linhas e aparelhos dos pescadores, embarcados nos pequenos botes de madeira - os dóris - era trazido para bordo do navio-mãe onde era processado. A primeira operação feita ao fiel amigo era o "trote",(1) seguia-se o partir da cabeça, a escala,(2) lavagem e salga.

 

1 - Bacalhau - Gadus morhua


O bacalhau depois destas operações, apresenta a forma espalmada, como o conhecemos comercialmente, sem a parte trífida da espinha dorsal, e é salgado nos porões em panas e hinos (3) até ao final da viagem, sofrendo o efeito de prensa, espalmando-o e comprimindo-o em espessura.


 

2 - Dóri  cheio de bacalhau

 

Nos dias de hoje a operação de prensagem (4) é diminuta. O bacalhau é, na maioria ou quase todo, importado da Noruega e da Islândia, onde permanece pouco tempo salgado e prensado, por isso se houve vulgarmente as cozinheiras mais antigas dizerem que o bacalhau já não é como antigamente, não cresce na panela.

Depois de descarregado, o bacalhau ia para a seca onde era lavado e colocado em pilhas ou prensas, ficando, o que vinha por cima no navio, por baixo nas prensas da seca a escorrer, sendo o último a secar, como forma de compensar a falta de prensagem que o bacalhau que foi pescado por último não recebeu, comparado com o que foi pescado primeiro que aguentou o peso do outro que foi colocado por cima e ficou sujeito ao balanço do navio que o foi acamando de tal forma que à descarga o bacalhau do fundo dos porões, de tão comprimido, era difícil de arrancar.


 

3 - Seca do Cais Novo - Darque


Em Viana existiram secas de bacalhau, primitivamente no Campo do Castelo, no Cabedelo, nas Azenhas de D. Prior e no Cais Novo em Darque.

Antes de existirem as empresas de pesca do bacalhau em Viana do Castelo, já se secava bacalhau nas secas do Cabedelo. A empresa Bensaúde  & Cia  de Lisboa, que na altura não tinha ainda as secas no Barreiro, vinha secar o bacalhau a Viana atendendo às excelentes condições de secagem. Ainda em 1914 o lugre "Gamo", com 3.000 quintais, comandado pelo capitão Manuel dos Santos Labrincha e o patacho "Neptuno" , com 3.500 quintais, comandado pelo capitão João José da Silva Caldas daquela empresa, vieram descarregar as safras (5) desse ano para secarem em Viana. As casas importadoras do "fiel amigo" que operavam há longos anos em Viana e no Porto, como era o caso de Lind&Couto, Hunt, Roope e Teague, Lda., também secavam o bacalhau importado em verde nas secas de Viana.


 

4 - Escala de bacalhau a bordo de um bacalhoeiro


A Parceria de Pescarias de Viana quando se formou, resolveu adquirir terrenos apropriados à implantação de uma seca de bacalhau. Encontrou esses terrenos, abrigados do ar do mar, com pouca humidade e expostos aos ventos do Norte, mais secos que os do quadrante sul, no Cais Novo a montante da ponte Eiffel.

Nem sempre é possível encontrar o lugar ideal, que reúna todos os parâmetros necessários, temperatura, humidade, exposição solar, etc, porém , o local escolhido pela Parceria de Pescarias de Viana, reunia o mínimo indispensável para o efeito. Não é por acaso que o bacalhau da seca de Viana tinha fama em todo o país. Naturalmente que outros factores influíram para a fama criada, como seja o maneio e o tipo de cura, mas a secagem é fundamental para o paladar do gadídeo.(6) Nem muito sol nem muita humidade, são os ingredientes básicos, para além das voltas e cuidados que se deve ter com o peixe.


 

5 - Mesas de secagem do bacalhau


A seca do Cais Novo da Parceria de Pescarias de Viana estava maravilhosamente implantada entre o rio Lima a Norte, os campos verdejantes de Darque a Leste, os montes do Galeão e do faro d'Anha a Sul e os pinheirais do Cabedelo a Oeste. Tinha um equilíbrio climatérico benéfico para a secagem, sem necessidade de grande trabalho em retirar o pescado nos picos de calor, possuindo por baixo das mesas de secagem um coberto vegetal que lhes transmitia um aroma e frescura propícios à secagem equilibrada.

Os armazéns da seca do bacalhau destinados a receber o fiel amigo proveniente das capturas dos navios da Parceria que naquele ano de 1914 foram aos mares da Terra Nova, ficaram concluídos em 30-10-1914, quase na mesma altura da chegada do primeiro navio à barra de Viana, que foi como referi atrás o Santa Maria em 27-10-1914.

Foi encarregado dos trabalhos de construção o conceituado e competente mestre de obras sr. José Gonçalves do Rego Viana, que foi elogiado por muitas pessoas, "especialmente pelos capitães dos navios de pesca do bacalhau, que affirmam não haver melhor lá fora".

Como nota última, convém referir que o primeiro bacalhau seco na seca do Cais Novo em Darque foi comercializado pela firma Lind & Couto na qualidade de concessionária.

Glossário:

(1) - "Trote" - Golpe que o "troteiro" dá no bacalhau, com uma faca de trote,desde a queixada até ao fundo da barriga, esventrando-o e eviscerando-o.

(2) - Escalar - Abrir o bacalhau pela barriga com uma faca apropriada, chamada faca de escalador, retirar-lhe a parte trífida da espinha dorsal de forma que fique aberto e espalmado.

(3) - Panas e hinos  - Pilhas transversais de salga do bacalhau nos porões.

(4) - Prensagem - Operação a que é sujeito o bacalhau devido às camadas sucessivas de um sobre o outro nos porões do navio e depois em terra após a lavagem.

(5) - Safra - Produto da campanha, quantidade de peixe pescado.

(6) Gadídeo - Diz-se da família de peixes teleósteos cujo género tipo é o gadus, como o bacalhau, gadus morhua.

Fontes:

A Aurora do Lima : 16-10-1914, 30-10-1914

Fotografias:

4 - A Epopeia dos Bacalhaus - Francisco Manso e Óscar Cruz

3 e 5 - Viana e o mar - G.D.C.E.N.V.C.

2 - História da Pesca do Bacalhau;Arquivo CRCB - Mário Moutinho

Viana do Castelo, 2010-04-17

Manuel de Oliveira Martins

publicado por dolphin às 17:37

( CONTINUAÇÃO )

 

O início da actividade da Parceria foi cheio de sobressaltos. O lugre "Santa Luzia", quando saía a barra de Viana do Castelo, no dia 06-05-1914, com destino aos bancos, viu-se em apuros, sendo prontamente socorrido pelas catraias dos pilotos, que, depois de um trabalho árduo e desgastante conseguiram evitar que lhe acontecesse o mesmo que ao lugre "Santa Maria", verificando-se mais uma vez a necessidade de um rebocador para atender nestas circunstâncias.

A viagem do "Santa Luzia" para os Bancos efectuou-se com excelentes condições para a navegação à vela tendo demorado apenas 15 dias de viagem, porém, à chegada ao banco, foi surpreendido por uma violenta pancada contra um growler,(1) tendo resistido ao impacto devido à forte solidez da sua construção.

Não ficaria por aqui a história da 1.ª viagem do "Santa Luzia" aos mares da Terra Nova. Concluída a safra e com 3.500 quintais de bacalhau graúdo estivado e salgado nos porões, o capitão do "Santa Luzia", sr. João Fernandes Mano mandou dar a volta à faina (2) e rumou a Viana no dia 11 de Outubro de 1914. A viagem correu normalmente até ao dia 24 de Outubro, altura em que apenas a dois dias da chegada, faleceu a bordo o pescador Custódio Rolão Léguas, de 28 anos, casado, natural da Fuzeta, no Algarve, que deixou dois filhos e viúva. O falecimento do infeliz pescador foi provocado por um ataque cerebral, como ficou registado no Diário de Navegação, sendo o cadáver lançado à água, vinte e quatro horas depois, às 8 horas do dia 25 de Outubro de 1914, na posição de 40º 28' 11" de Latitude Norte e 20º 17' 42" de Longitude Oeste de Greenwich, na presença do capitão, oficiais, mestrança e marinhagem

O cadáver, depois de preparado conforme os procedimentos habituais de bordo, "foi envolto n'um cobertor e enleado n'outros pannos cosidos a palomba,(3) sendo antes d'isso lavado e vestido com a sua melhor roupa". Feitas as orações e preces, encomendando a sua alma a Deus pelo descanso eterno, foi colocado numa prancha no portaló (4) de bombordo e à voz rouca de comoção do capitão - Ao mar - a prancha foi inclinada e o corpo caiu ao mar afundando-se nas profundezas do oceano, por acção de pesos colocados nos pés do defunto.

No peíodo heróico da "Epopeia do Bacalhau" que está ainda por contar, foram muitos os acontecimentos funestos como este que ensombraram de tristeza e dor os corações de muitas famílias.

Entretanto, no dia 27-10-1914 tinha entrado a barra de Viana e ancorado na bacia da doca, o lugre "Santa Maria" que partira para os bancos a 20 de Maio e fizera uma excelente campanha tendo levantado ferro (5) a 13 de Outubro de regresso a Portugal, com 3.500 quintais de bacalhau fresco.(6)

O lugre "Santa Luzia" que levantou ferro nos bancos no mesmo dia  do "Santa Maria", era esperado com ansiedade por familiares, amigos e armadores. O navio esteve à vista de Montedor no dia 28 de Outubro a cerca de 11 milhas, mas, devido ao temporal que ameaçava incrementar, amarou (7) e correu (8) até alturas de Lisboa  aguardando melhoria de tempo para se aproximar de Viana.

O Santa Luzia, carregado com 3.500 quintais de bacalhau graúdo acabaria por entrar a barra de Viana ao fim de seis longos meses, no dia 6 de Novembro de 1914, de velas enfunadas (9) menos no mastaréu (10) de prôa que se partiu ainda o navio estava nos bancos em plena faina.

Glossário:

(1) Growler - Pedaço de gelo proveniente de um campo de gelo em decomposição com o peso de aprox. 20 tons

(2) Faina - Serviço de bordo em que está empregada parte ou toda a tripulação

(3) Palomba - Ponto usado para coser as tralhas das velas

(4) Portaló - Abertura na amurada, por onde se entra e sai do navio. O de Bombordo é chamado portaló de honra.

(5) Levantar ferro - Suspender a âncora

(6) Bacalhau fresco - Bacalhau salgado por secar, também se diz " bacalhau verde"

(7) Amarar - Seguir para longe da costa

(8) Correr - Navegar com o mar à popa ou na alheta por não poder aguentar-se de outra maneira
(9) Enfunar - Encher de vento, também se diz de velas pandas

(10) Mastaréu - Pequeno mastro por cima do mastro real

Fontes:

"A Aurora do Lima" - 06-05-1914; 08-07-1914; 16-10-1914; 28-10-1914; 04-11-1914; 09-11-1914

Museu Municipal - Últimos veleiros do Porto de Viana: Lugre "Santa Luzia"

Viana do Castelo 2010-04-15

Manuel de Oliveira Martins

publicado por dolphin às 17:31

OS PRIMEIROS NAVIOS DA PARCERIA

 

Depois de constituída a Parceria, tendo como objectivo a exploração do "fiel amigo" nos mares da Terra Nova era necessário apetrechá-la dos meios de captura dessa espécie, os navios.

Embora já nessa altura a pesca do arrasto estivesse a dar os primeiros passos com navios movidos a motor, a predominância dos navios à vela era ainda superior, por isso foi decidido pela gerência depois de auscultar a Comissão Consultiva, adquirir na América dois veleiros, os lugres "Santa Luzia" e "Santa Maria".

O lugre "Santa Luzia", primeiro navio adquirido pela Parceria em Nova Iorque, fez a travessia do Atlântico apenas com 4 homens de tripulação, para além do capitão Joaquim Fernandes Batata sendo um deles o piloto, outro o cozinheiro e dois marinheiros.

Foi de grande ousadia enfrentar tão desgastante viagem com tão poucos homens, num navio tão trabalhoso como é um navio à vela, facto que se regista, dando um louvor a tão valentes como arrojados homens do mar, sinal que ainda havia marinheiros nesse tempo.

O segundo navio comprado na América pela Parceria de Pescarias de Viana, foi o lugre "Santa Maria" que fez a viagem de Gulfport no Golfo do México à barra de Viana em 34 dias de viagem, o que se reconheceu na época como uma travessia muito rápida.

Ao chegar à barra de Viana do Castelo no dia 23-02-1914, o temporal era grande, pelo que o navio sómente se aproximou à distância necesária para ser reconhecido e "fez prôa de O.N.O. e lá se sumiu pelo interior do mar".

O temporal na costa portuguesa foi tão intenso que nos dias 21 a 26 de Fevereiro de 1914, nada entrou ou saiu do porto de Viana. No dia 27, como o tempo melhorou um pouco, entraram o vapor alemão "Christine Sell" do comando do capitão P. Viereck, de 777 tons, 15 tripulantes e carga de carvão de pedra, consignado à Fábrica do Gás, procedente de Newcastle com 10 dias de viagem e de Villa Garcia com 1 dia de viagem o vapor "Jamaica" do comando do capitão Torbjorn Vik, de 790 tons e 14 tripulantes, vazio, consignado a D. Eduardo Puentes Duval. Nesse mesmo dia saiu para Las Palmas, o vapor "Valhall" do comando do capitão Danier Thoraldsen, de 750 tons e 14 tripulantes com carga de madeira em pacotes. No dia 28 de Fevereiro nada entrou ou saíu, mantendo-se fora da barra o lugre "Santa Maria", aguardando condições favoráveis para entrar.

No dia 28 de Fevereiro de 1914, sábado, quando entrava a barra de Viana "com vento N franco e mar um tanto agitado", faltou o vento ao lugre "Santa Maria" próximo do Bugio, foi largado imediatamente o ferro que garrou (1) indo o navio encalhar na ponta da Tornada. A assistência da parte do salva-vidas foi rápida, mas devido à impossibilidade deste se aproximar do navio por causa da forte rebentação, optaram por lançar à água a jangada que apanhou uma retenida do lugre passando-a para a catraia dos pilotos e esta a atou a um grosso cabo que foi preso no Bugio no intuito de manter o navio aproado ao mar.

Foi mais uma vez notória a falta de um rebocador que prestasse assistência aos navios na entrada e/ou saída. A pronta intervenção do Capitão do Porto que solicitou a Leixões a vinda de um rebocador, não resultou  por que o rebocador "Mars" que chegou a sair às 6 horas, teve que retroceder e regressar a Leixões devido "ao muito mar e vento".

Cedo se reconheceu que atendendo ao muito mar que implacávelmente batia contra o costado do navio e as marés serem mortas seriam infructíferas quaisquer esforços que se intentassem naquele momento.

Entretanto, a corporação dos pilotos reuniu em consulta, estando presente o sr. Capitão do Porto e decidiram por unânimidade, propôr que se fizesse um rombo no costado do lugre, afim de que este "assentando no fundo, não batesse quando axovalhado (2) pelo mar". Os entendidos acharam esta sugestão boa tendo-se verificado posteriormente que tinha dado resultado, caso contrário o navio teria sido desfeito.

Apesar destas medidas acidentais para evitar o pior, o navio acabou por partir ao meio, na tarde do dia 2-3-1914, acabando por se perder, sem ter feito viagem alguma aos mares da Terra Nova, ao serviço da Parceria.

O lugre "Santa Maria" viria a ser substituído pelo lugre "TYN" que entrou em Viana do Castelo em 29-04-1914  a reboque do vapor "Arcádia".

Glossário:

(1) - Garrar - Ir o navio arrastando o ferro ou ferros pelo fundo, sem estes fazerem presa sufuciente para aguentar o navio

(2) - Axovalhado - acossado pelas ondas

Fontes:

A Aurora do Lima: 02-03-1914, 29-04-1914

Viana do Castelo, 2010-04-15

Manuel de Oliveira Martins

publicado por dolphin às 17:29

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