Blog que retrata os acontecimentos do mar e porto de Viana e arredores, nos bons e maus momentos, dos pequenos aos grandes senhores.

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Jul 14

ONDE ESTAVA NO 25 DE ABRIL (4)

 

Não havia acordo possível, os pescadores só queriam regressar para participar nas mudanças pós 25 de Abril, que supunham ser de grandes benefícios para a sua classe.

Um dia chegou a notícia do regresso a Aveiro dos dois navios da pesca à linha, o Novos Mares e o São Jorge, onde eu exercia as funções de Imediato. Dum modo geral todos regozijamos com a notícia em especial os que reivindicavam incessantemente essa tomada de decisão – os pescadores.

Não manifestei exteriormente essa alegria, mas no fundo eu era o que tinha mais razões para estar contente. Eu tinha feito um contrato fixo para a viagem de 5 meses e com a vinda mais cedo (metade do tempo) iria receber pela totalidade. Foi o melhor vencimento mensal em toda a minha vida.

Largamos de St. Jonh’s ao meio dia rumo a Aveiro, contentes por podermos encontrar os familiares e passar o verão, o que não era habitual nesta vida da pesca do bacalhau, especialmente na pesca à linha e na pesca com redes de emalhar que aproveitavam as boas condições do verão para efetuarem as campanhas. Já na pesca do arrasto, às vezes, dava para passar uns dias de verão durante a estadia entre a viagem de verão e de inverno.

Eram cerca das 18.00 horas quando o moço da copa veio chamar para a 1.ª mesa do jantar. O 2.º maquinista mandou avisar que viria mais tarde devido a uma avaria na casa da máquina. Comemos a sopa e quando nos preparávamos para o prato de peixe, o ajudante de serviço à casa da máquina veio avisar o capitão que havia fogo na casa da máquina. O capitão foi a correr para a casa da máquina enquanto eu fui para a ponte do navio enviar um SOS a pedir socorro, contactando imediatamente por VHF[1] com o navio «Novos Mares» que seguia a cerca de 2 milhas por nosso estibordo[2]. Olhei para esse lado mas não avistei o navio porque uma neblina difusa não permitia visualizá-lo aquela distância.

O mar apresentava-se cavado[3] tínhamos passado por dois icebergs em decomposição horas antes e a temperatura da água era cerca de dois graus.

O maquinista que se encontrava de serviço teve o bom senso de parar a máquina e o navio ficou parado, atravessado ao mar, balouçando ao sabor das ondas, uma situação muito difícil para se efetuar o salvamento.

O sucesso de uma operação de salvamento é haver ordem e não entrar em pânico. Foi uma sorte o que aconteceu naquele dia naqueles mares gelados e escuros. Os pescadores em vez de se dirigirem aos seus postos de salvamento obrigatoriamente atribuídos, começaram de arriar os botes que não resistiam naquelas condições adversas, em vez de se dirigirem para os seus postos e colaborarem nas tarefas distribuídas a cada um.

O meu lado era o de estibordo e com o contramestre fui atirando para a água e abrindo as jangadas salva vidas, enquanto os pescadores, que não se conseguiam aguentar nos dóris, faziam o transbordo para as jangadas de pessoas e haveres que pretendiam salvar.

Depois de ter aberto todas as jangadas do meu bordo, estava exausto e apesar do esforço, sentia um frio enorme devido às temperaturas baixas (cerca de 7º) agravado por estar em mangas de camisa. Tentei entrar no meu camarote para apanhar um agasalho mais quente, mas, no momento em que abri a porta, as labaredas emergiram do interior e fechei imediatamente a porta e coloquei-me por fora do varandim à popa, para tentar saltar para a única jangada que ainda estava presa ao navio daquele lado. Um tripulante da jangada estava com uma navalha na mão para cortar a boça[4] que prendia a jangada ao navio. De cima do navio onde me encontrava gritei-lhe para não o fazer senão lhe mandava com um ferro à cabeça, dissuadindo da intenção. Ao fim de várias tentativas para saltar para a jangada e não cair à água gelada, já cansado decidi atirar-me na esperança de cair em cima da jangada que ora se afastava ora se aproximava do navio conforme o balanço.

Atirei-me duma altura de cerca de 6 a 7 metros e por sorte caí dentro da jangada, mas bati com a perna direita em algo duro que me deu a sensação de ter partido a perna. Era uma caixa de madeira que um pescador se lembrou de levar para a jangada contra todas as recomendações. Aquela dor foi horrível. Parecia que tinha partido a perna. Passado algum tempo a dor abrandou e apalpei a perna sentindo o sangue escorrer da canela que felizmente não estava partida. A minha preocupação voltou-se instantaneamente para a proximidade do navio e dei ordens para com os pequenos remos de que dispunha a jangada e com as mãos nos afastarmos do navio para não sermos sugados pela corrente de redemoinho quando o navio se afundasse. Conseguimos afastarmo-nos uns bons metros, o suficiente para não sermos arrastados e vermos o crepitar do navio a arder em chamas que iluminava as jangadas que ainda se encontravam nas proximidades do navio e não consegui divisar mais que duas na auréola das chamas do navio.

As labaredas eram enormes, negras e cinzentas, o fumo denso e matizado de cores ocre, o mar estava coalhado de botes vazios uns outros voltados, à deriva. Uma explosão seguida de outra quase imediata ecoou no silêncio sepulcral daquela noite fria e tenebrosa. O navio abriu pela popa projetando labaredas e tábuas incendiadas que caíam na água provocando um ruído aterrador. Em poucos minutos o navio ergueu a proa para o céu como que a pedir misericórdia e afundou-se num ápice. À nossa volta ficou tudo escuro como breu, só o marulhar das ondas por companhia.

A bordo da jangada o cheiro era nauseabundo. Um cheiro a vomitado impestava o ambiente. Um energúmeno, em pé, no meio da jangada, de navalha aberta, apregoava que já tinha sido náufrago do Brites[5]. Ordenei-lhe que fechasse a navalha para não por em perigo a vida de todos quantos estavam ali. Se ele caísse e furasse a jangada íamos todos para o fundo. Basofiando não acatou a ordem e, combalido ainda da pancada e meio enjoado pelo balanço próprio de um meio elástico ao qual não estava habituado, ainda arranjei energias para lhe desferir um murro que o atordoou e pôs a dormir para não nos incomodar por algum tempo.

Era necessário tomar alguma mediada, na expetativa de alguém vir em nosso auxílio. Alimentava a esperança do navio Novos Mares vir em nosso auxílio e providenciei no sentido de estarmos vigilantes e estabeleci um sistema de vigias pela abertura da jangada, atentos a qualquer barulho de motor  que pudesse aproximar-se de nós.(Continua)

 

Publicado no jornal «A Aurora do Lima», em 10 de julho de 2014

 

Viana do Castelo, 2014-05-03

Manuel de Oliveira Martins

maolmar@gmail.com



[1] VHF – Very High Frequence – aparelho de comunicação de ondas de alta frequência usado nas comunicações a curta distância.

[2] Estibordo – lado do navio que fica à direita quando estamos virados para a proa.

[3] Mar cavado – Mar com profundos espaços entre as vagas, cerca de 4 a 5 metros.

[4] Boça – cabo fino destinado a amarrar as embarcações miúdas.

[5] Brites . Lugre de 4 mastros que naufragou nos bancos da Terra Nova

publicado por dolphin às 23:43

ONDE ESTAVA NO 25 DE ABRIL (3)

 

Atracamos no cais do Norte, frente à Water Street, mesmo no centro da baixa da cidade de St. John’s, a uma centena de metros da Fundação George V, onde estava sedeada a Casa dos Pescadores, na época dirigida por um vianense, o senhor Ângelo Silva, de saudosa memória.

Quando chegamos, já se encontrava atracado ao cais o Capitão Ferreira, um navio da pesca à linha que havia sido transformado em navio de redes de emalhar. Tinha arribado a St. John’s com uma revolta do pessoal que se negava a trabalhar por que o navio tinha fantasmas. O Imediato era do meu curso e contou-me os motivos. Da primeira vez um homem ficou esmagado entre a lancha e o turco de suspensão, invocando alguns que a culpa era do imediato que comandava as operações de içar as lanchas. O facto é que quem estava aos comandos do guincho era um motorista e mesmo ele não podia ser responsabilizado pois tratou-se de uma falha mecânica, como veio a ser apurado. A segunda morte ocorreu numa noite de S. João depois de terem festejado a efeméride abundantemente com bebida como é apanágio do pessoal do mar, para esquecer as mágoas. O infeliz pescador durante a noite, ensonado e atormentado ainda pela bebida veio à borda urinar, em vez de ir ao quarto de banho e caiu ao mar, ninguém deu pela queda, só pela manhã notaram a sua falta.

Depois de reunirem no rancho, um grupo foi à ponte comunicar ao capitão que não trabalhavam mais e pretendiam que o navio arribasse a St. John’s e fossem repatriados de avião por causa dos fantasmas; nem admitiam sequer regressar a Portugal no navio por causa dos ditos seres fantasmagóricos que habitavam o navio.

 

O encontro das tripulações dos navios «salvadores» com a do «navio fantasma» enquistou a saída para o mar e os pescadores da linha associaram-se aos colegas das redes de emalhar reivindicando o regresso a Portugal, não pela via aérea como os do Capitão Ferreira, mas nos próprios navios onde tinham os motores e os haveres que lhe eram caros.

Neste impasse se mantiveram e, os navios das redes de emalhar, à medida que iam chegando a St. John’s, aderiam à reivindicação dos outros, até que se juntaram tripulações de 7 ou 8 navios, cerca de 600 homens. As agências consignatárias dos navios não tinham autorização para fornecer dinheiro às tripulações por ordem de Lisboa, que tinha congelado a saída de divisas. Sob a ameaça dos tripulantes que insinuavam assaltar casas comerciais na Water Street, caso não lhes fosse fornecido dinheiro, a polícia montada do Canadá implantou um dispositivo de segurança junto dos navios com cães amestrados, controlando as saídas para terra de toda a gente.

Uma comitiva da Junta de Salvação Nacional, entretanto constituída, deslocou-se a St. John´s para tentar apaziguar os ânimos e resolver a ida dos navios para a pesca. Depois de duas reuniões no auditório da Casa dos Pescadores, onde foram maltratados e enxovalhados e até tomates e ovos foram arremessados, regressou a Lisboa sem nada ter conseguido.

Os armadores, por seu lado, que estavam a sofrer na pele esta paragem, pois tinham feito avultados investimentos nos navios para a campanha, também se deslocaram à Terra Nova para chegarem a um acordo e minimizarem os prejuízos da viagem. Há cerca de um mês que estavam os navios parados, sem meterem um peixe no porão.

Era junho, altura em que a cidade de St. John´s se torna mais atraente com a verdura dos jardins, públicos e particulares, convidando ao lazer nos parques da cidade durante o dia e, nas noites amenas, uma ida aos bares beber um copo e divertir um pouco.

Eu e todos os outros íamos desfrutando o bom tempo que fazia sem as agruras da pesca, mas era tudo ilusório e eu tinha consciência disso. Muitas vezes, em conversa com alguns pescadores, mais ponderados e menos emotivos, tentava persuadi-los do logro em que tinham caído e chamá-los para a realidade, sem resultados.

Os navios das redes de emalhar partiram para a faina ficando amarrados ao cais os últimos bacalhoeiros da pesca à linha e o «navio fantasma». Nada os fazia demover do regresso a Portugal.

 

Publicado no jornal «A Aurora do Lima» em 19/06/2014

 

Viana do Castelo, 2014-05-02

Manuel de Oliveira Martins

maolmar@gmail.com

publicado por dolphin às 00:12

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