Blog que retrata os acontecimentos do mar e porto de Viana e arredores, nos bons e maus momentos, dos pequenos aos grandes senhores.

05
Abr 10

Para os pescadores do mar de Viana e para a navegação em geral, os baixios existentes a Noroeste da barra de Viana a cerca de 5,5 milhas, apesar de navegáveis, constituíam um perigo, principalmente com temporal de Noroeste "o mar rompe violentamente sobre elles, e dizem os velhos que se teem alli dado muitos naufrágios".

Chamam-lhe "as sumalhas" para se referirem às pedras onde costumam pescar quando está calma e de que se contam histórias de naufrágios, segundo a tradição oral dos velhos pescadores da Ribeira de Viana.

Dizia um desses "lobos do mar" que um dia quando pescava aos congros sobre as sumalhas trouxe na linha uma caveira humana e muitas outras e destroços de navios tinham sido capturados e içados nos aparelhos de pesca. Outro chamava-lhe "cemitério de muitas vidas", tal eram os desastres aí ocorridos e que perduraram na memória dos pescadores que apesar da ousadia e arrojo as temiam quando o mar alteava.

Vem isto a propósito da lembrança que fizeram ao Comandante da canhoneira Limpopo, 1.º Tenente Manuel Mendes Norton, um vianense que chefiava a missão encarregada de efectuar um roteiro da Costa Norte de Portugal, desde Viana até Leixões, com o objectivo de encontrar e mencionar nesse roteiro os baixios que existem e que não estão mencionados nos velhos roteiros.



Os cartas náuticas e roteiros feitos a partir de Outubro de 1912 passaram a assinalar os baixios das sumalhas, situados na posição 41º 42' 30" N e 08º 57' 00" W tendo de profundidade 11 braças (cerca de 20 metros).

Deve-se pois a um vianense este feito que passa despercebido à maioria das pessoas mas de muita importância para a navegação.

Fontes: A Aurora do Lima -26-10-1912;

Carta Náutica do Noroeste de Portugal-Rio Minho a Espinho-Novembro de 1913

Viana do Castelo, 2010-04-04

Manuel de Oliveira Martins

publicado por dolphin às 21:33

29
Mar 10

6 - NAUFRÁGIO DO CASTOR

 

A história trágico-marítima do naufrágio do lugre português "CASTOR" é um relato impressionante do que passaram os tripulantes desse belo barco, pertencente à praça de Lisboa e propriedade do sr. António Magalhães, do sr. Joaquim Fernandes Batata, piloto do mesmo navio e de seu pai o mestre da chalupa "Rasoilo&Cia".

A tripulação deste navio era composta exclusivamente por naturais de Ílhavo, ecompunha-se de Capitão Joaquim Oliveira da Velha, piloto Joaquim Fernandes Batata, contra-mestre Manuel dos Santos Malaquias, marinheiros José Maria Carrapichano, Victor Gonçalves Villão, Francisco Abílio, Manuel Gonçalves Vianna, Armindo d'Oliveira, Rodrigo José Russo e Arnaldo Mattos.

A descrição que faz o piloto e co-proprietário do navio que era credor de grande simpatia no bairro da Ribeira de Viana, é impressionante. Este navio de formas bem lançadas, já por diversas vezes tinha estado no porto de Viana. No dia 29 de Janeiro de 1902 encontrava-se em Melaro, porto da ilha de Trindade, tendo saído nesse dia com um carregamento de asfalto e côcos em direcção a Londres.

No segundo dia de viagem, quando navegava junto à perigosa costa de Galera, foi surpreendido por um violento temporal tendo aberto água e, em consequência adormeceu (1). A fim de o aliviar, (2) para o retirar da dormência em que se encontrava, e porque era perigoso manter o navio naquele estado de navegabilidade, resolveram lançar ao mar dois ferros com seis manilhas (3) de corrente. O navio ficou mais leve, mas levado pela forte corrente de água, caiu a oeste de Granada. Entretanto, o tempo amainou e o "CASTOR", sempre com água aberta, mas em menor quantidade, seguiu viagem.

 

 

 

No dia 2 de Fevereiro o tempo piorou, o mar tornou-se encapelado (4) e, por entre o arvoredo (5) do navio o vento sibilava duma forma que amedrontava o mais audaz e experimentado homem do mar. Pela forma e intensidade com que soprava o vento, e o mar ia alteando o navio embarcava água, diminuindo as capacidades náuticas do navio.

Impotente para resolver esta situação, que se agravava hora a hora, não restava outra solução ao capitão, senão tentar arribar (6) ao porto mais próximo para salvar as vidas e o navio.

Seriam 3 horas da madrugada do dia 3, debaixo de um temporal enorme e de uma noite tenebrosa, quando foram surpreendidos por "um escarção enorme - uma montanha de água", como referia o piloto no seu relato de viagem, abateu-se sobre o navio inundando-o de água e voltando a adormecer em consequência do volume e peso de água que entrou no navio.

O navio deixou de governar na escuridão densa daquela noite tempestuosa e nada mais restava que abandonar o navio saltando para os dois escaleres levando apenas, na pressa e confusão do abandono, "algumas mantas, um mapa e uma bússola".

Já passei por um cenário idêntico (ver "Naufrágio do S. Jorge" - 12-10-2007) e por isso posso avaliar o que sentiram os náufragos do "CASTOR" quando, no meio do oceano revolto e da escuridão, viram o seu navio afundar-se "levantando um gorgulhão medonho".

Depois de muitas horas a debater-se com o mar no pequeno escaler, cheios de frio e fome, e de já terem quase perdido as esperanças de salvação, deram à costa numa praia da ilha de Margarita. O estado da maior parte dos tripulantes era, como podemos imaginar, débil e fragilizado devido a nada terem comido durante muitas horas, por não haver víveres no escaler e pela luta árdua que tiveram de travar contra a fúria do mar. Alguns, quando desembarcaram caíram, tal era o estado de abatimento e fraqueza.

Durante a permanência na ilha Margarita, e para sobreviverem, tiveram de vender o escaler que tão milagrosamente os salvou e levou a porto seguro. Dali foram para Guaira onde se apresentaram ao Cônsul Geral de Caracas que os fez seguir a bordo de um vapor para as Ihas Barbados, onde embarcaram no navio "MAGDALENA" da Mala Real Inglesa com destino a Southampton que os desembarcou em Vigo.

Escusado será dizer que durante o abandono do navio, nada salvaram dos seus haveres pessoais, a preocupação era o salvamento das suas vidas, por isso durante a viagem de Barbados para Southampton fizeram uma subscrição a bordo do "MAGDALENA" que rendeu a cada um  "dois mil e tantos reis"

Desembarcados em Vigo, seguiram de combóio para Viana do Castelo e daqui para Ílhavo, terra de grandes e valorosos marinheiros.

 

Glossário:

(1) - Adormecer - ficar o navio inclinado a um dos bordos ou afocinhado, durante apreciável intervalo de tempo, sem mostrar tendências para voltar à sua posição de equilíbrio.

(2) - Aliviar - Tornar mais leve um barco, deitando a carga ao mar ou baldeando-a (mudando-a) para outro barco.

(3) - Manilha de corrente - Medida de comprimento equivalente a uma quartelada de amarra ou seja 15 braças.

(4) - Encapelado - diz-se do mar com vagas altas.

(5) - Arvoredo - Conjunto de mastros e vergas do navio.

(6) - Arribar - Aportar a um porto por motivo de mau tempo, avaria do navio, ou motivo de saúde.

 

Fontes : A Aurora do Lima; 21-03-1902 : Dicionário de Linguagem de Marinha Antiga e Actual

Viana do Castelo, 2010-03-29

Manuel de Oliveira Martins

publicado por dolphin às 22:33

28
Mar 10

5 - MEDIDAS PARA EVITAR OS NAUFRÁGIOS

 

Como dissemos atrás, na costa portuguesa era frequente darem-se acidentes com navios, alguns deles de consequências nefastas para a tripulação.

O governo, preocupado com estes acontecimentos que em nada dignificavam o país, decidiu actuar no sentido de melhorar a eficácia no salvamento marítimo, a fim de evitar estas catástrofes cada vez mais frequentes. Através do Ministro de Estado dos Negócios da Marinha e do Ultramar, José da Silva Mendes Leal, resolveu tomar medidas conducentes à redução dos naufrágios. Assim, mandou El-Rei, por determinação daquela Secretaria de Estado, o seguinte:

"Que nas intendencias de marinha do reino e ilhas se faça cuidadosamente tomar nota de todos os naufrágios ocorridos nas costas compreendidas na circumscripção de cda uma das mesmas intendencias, devendo o complexo dessas notas ser remetido à dita secretaria d'estado no fim de cada semestre.

(...)

Que do mesmo modo será annualmente enviado à dita secretaria um relatório circumstanciado do estado dos portos, pharoes, signaes e balizas na respectiva circumscripção de cada intendencia, com a ponderação das necessidades que se houverem devidamente observado e aindicação dos recursos que a pratica e a sciencia aconselharem para diminuir o número de sinistros ou atenuar os seus effeitos."

(...)

Este despacho, denotando alguma preocupação, é manifestamente insuficiente porque se resume a inventariar os acidentes, o estado dos portos, faróis, sinais e balizas existentes, acompanhado dum relatório aconselhando os recursos a implementar.

Em 22 de Abril de 1864 o ministro da Marinha apresentou nas côrtes uma proposta de Lei que visava remediar, no imediato, as lacunas existentes na segurança costeira, apontando como primeira medida, a transferência do serviço de inspecção de faróis do Ministério das Obras Públicas para o Ministério da Marinha onde seria criada uma repartição especial de faróis.

O Ministro da Marinha traçou o diagnóstico da costa portuguesa apontando as lacunas em faróis ao longo da costa e no acesso aos portos, referindo que em 320 milhas de costa existiam apenas 7 faróis e desses sómente estariam em estado satisfatório o do Cabo Mondego e o de Santa Maria, no Algarve. Os do cabo da Roca e Espichel apesar de instalados em notáveis posições encontravam-se inadequados. O do Porto não tinha o alcance necessário para desempenhar o serviço que devia. O das Berlengas estava com uma luz fraca, talvez por necessidade de reparação ou negligência.

À reforma do material associava-se a reforma do pessoal, por que uma coisa está interligada com a outra.

A barra do Porto, bastante movimentada na época, estava munida do pequeno farol da Senhora da Luz cujo alcance não ia além de 12 milhas, insuficiente para a navegação fazer a aterragem (1) ao Douro com segurança.

Nas ilhas adjacentes o panorama era ainda pior, as costas insulares estavam em completa obscuridade, não havendo um só farol que o navegante pudesse utilizar quer na aproximação aos portos quer para rectificar a rota. No Ultramar tinha sido enviado recentemente para Moçambique um, enquanto para Cabo Verde fora requisitado outro. Sómente Goa possuía um pequeno farol na barra.

Com este panorama desolador, nada convidativo, a navegação foi repelida. Sendo a navegação um importante elemento do transporte marítimo e comercial, talvez o primeiro, e o comércio o móvel prioritário de criação de riqueza, fácil é concluirmos das consequências  para a economia nacional e da necessidade de serem implementadas medidas que conduzissem à transformação e mudança desta situação caótica da costa portuguesa.

Glossário: (1) - Aterragem - aproximação a terra

Fontes: A Aurora do Lima; 31-08-1863; 02-05-1864

Viana do Castelo, 2010-03-27

Manuel de Oliveira Martins

publicado por dolphin às 18:45

27
Mar 10

3 - A RASCA " ISABEL"

 

Rasca é um tipo de embarcação de convés corrido de vante a ré, com 3 mastros, envergando pano latino triangular. Eram embarcações possantes que se utilizavam não só na pesca costeira, como na longínqua, iam à pesca do bacalhau, como também eram empregues na cabotagem continental, insular e mesmo Europeia.

A rasca "Isabel" quando saía do porto de Viana do Castelo no dia 21-06-1858 com um carregamento de milho, com destino à Ericeira, encalhou ao sul da ponta da Tornada(1).

Atendendo ao estado do mar, alguns pilotos da barra eram de opinião que não devia sair, no entanto o mestre arriscou a saída que lhe foi dada por um piloto e com uma lancha a rebocar.

O vento tinha acalmado, mas o mar encontrava-se ainda muito agitado, atirando com a força da corrente, a rasca para cima da ponta da Tornada, sem que a frágil lancha de alamagem(2) que rebocava a rasca ,pudesse evitar  o encalhe. De terra, foi-lhe ainda passada uma espia, que a pôs a nado mas de nada valeu, tendo-se enrascado no ferro que entretanto tinha largado com o intuíto de evitar o encalhe. Na baixa mar conseguiram tirar-lhe alguma carga, mas durante a tarde e com a subida da maré, veio encalhar dentro do porto, onde durante a noite e no dia seguinte (sábado) lhe retiraram toda a carga e a puseram a salvo acostada à muralha onde melhor poderá ser reparada.

Apesar do infortúnio, salvou-se toda a tripulação e carga.

Glossário:

(1) - Tornada - Também designada por ponta da Tornada, extremo do antigo cais do antigo molhe do Cabedelo no porto de Viana do Castelo.

(2) - Lancha de alamagem - Lancha utilizada nas manobras de pilotagem no porto de Viana do Castelo

Fontes: A Aurora do Lima; 21-06-1958

Viana do Castelo, 2010-03-22

Manuel de Oliveira Martins

publicado por dolphin às 16:24

25
Mar 10

4 - NAUFRÁGIO DO NIETA

 

No dia 21 de Julho de 1861, pelas 2 horas e meia da manhã, varava (1) na costa, a meia milha ao norte do Castelo de São Tiago da Barra, o vapor espanhol NIETA, de 447 tons, do comando do capitão D. João Baptista Alegria, propriedade de D. José Sierra, registado no porto de Barcelona.

O navio partira de Barcelona, com escala por outros portos do Mediterrâneo, com destino a Liverpool, com escala em Vigo. Trazia um carregamento incompleto de azeite, aguardente, panos, passas, etc. A tripulação era composta por 28 tripulantes e 7 passageiros. Tratava-se de um bonito navio novo, movido a hélice.

A zona da costa em que encalhou é rochosa e cheia de escolhos, pelo que as diligências tomadas para o salvar foram difíceis de executar. Apesar das dificuldades sentidas, foi possível, através de lanchas, descarregar toda a carga, sem avaria, para os armazéns da Alfândega.

Pensavam os peritos que depois do navio aliviado (2) da carga, seria possível, na preia mar, desencalhá-lo. Tal não se verificou, no entanto, às 14.00 horas do dia 22 de Julho, conseguiram safar o navio da cama(3) onde estava assente, porém, com muita água dentro, fruto dos rombos sofridos no costado.

Para o bom êxito deste salvamento contribuíram muito as acertadas providências tomadas pelos srs. Director da Alfândega, Administrador do Concelho, Capitão do Porto e Vice-cônsul Espanhol. O Director das Obras Públicas, Sr. Eng.º Nogueira Soares, estava no local do sinistro, pronto a actuar com os mergulhadores das obras da barra, para, caso necessário, proceder ao quebramento de alguns rochedos para facilitar a saída do navio, o que não foi preciso, devido ao vapor, por acção duma volta de mar se ter desentalado dentre os rochedos.

Safo das rochas, o navio foi para o fundeadouro(4) da Cal, a aguardar ordens do armador, carregadores e seguradoras. Por ordem da companhia de seguros do navio e da carga, de Liverpool, foi determinado ao Capitão do navio que seguisse para Vigo a fim de reparar as avarias sofridas. Em consequência destas ordens, foi feita uma peritagem ao vapor, por peritos que foram de bordo do navio de guerra LYNCE que se encontrava também fundeado fora da barra. Depois da peritagem, os peritos declararam que o navio podia fazer a viagem para Vigo sem risco, apesar dos rombos que tinha no casco.

A pedido do vice-cônsul Espanhol em Viana do Castelo, o comandante do vapor português de guerra LYNCE, anuiu em acompanhar  o NIETA até à entrada de Vigo, de prevenção para acudir a algum acidente que pudesse surgir. Os peritos de Vigo, após vistoria detalhada à zona arrombada, concluiram que o navio podia  sem risco, seguir viagem para Liverpool, depois de receber a carga que ficara estivada e guardada em Viana. Em face de tão boa nova o capitão rumou imediatamente para Viana do Castelo onde recebeu a carga fora da barra.

Na madrugada do dia 4 de Agosto de 1861, o vapor NIETA, suspendeu (5) do fundeadouro onde recebeu a carga e seguiu para Liverpool, com todo o seu carregamento salvo e em bom estado.

Glossário: (1) - Varar - dar à costa numa praia. (2) - Aliviar - Tornar o barco mais leve, deitando carga ao mar ou transferindo-a para outro barco. (3)- Cama - Também se chama "berço" quando o navio assenta com a quilha no fundo. (4) - Fundeadouro - Local em que o navio larga a âncora ou ferro em segurança para se manter preso ao fundo. (5) - Suspender - Levantar a âncora ou ferro através do molinete (aparelho de viragem destinado para esse fim).

Fontes: A Aurora do Lima: 22,24,26,29,31-07-1861; 02,05-08-1861

Viana do Castelo 2010-03-24

Manuel de Oliveira Martins

publicado por dolphin às 18:04

23
Mar 10

Tal como referi no prólogo do n.º 1, a história de naufrágios não vai ficar limitada aos factos ocorridos únicamente no mar de Viana, mas a outros que pela sua dimensão e catástrofe ficaram perpetuados na memória por muitos anos.

Desta vez, e para manter uma ordem cronológica, vou-vos descrever o que aconteceu na Ilha do Faial com um grande temporal em 1858.

 

2 - TEMPORAL NO FAIAL

Encontravam-se surtos no porto da Horta cerca de 16 embarcações de vários tipos, lugres, iates, escunas, brigues, barcas.

Durante o intenso temporal que assolou a ilha, nove deles não resistiram e sete conseguiram aguentar-se, apesar dos grandes estragos causados pela intempérie.

Os navios que se perderam foram:

Lugre Americano  PATHFINDER com 11 tripulantes que foram salvos por cabos lançados de cima da muralha para o navio. O valor estimado do navio era de 20.000 pesos e a carga de 6.000.

Iate Português  JUPITER conseguiu salvar-se a tripulação   composta por nove pessoas, não tinha carga a bordo e o navio foi avaliado em 5.000$000 reis.

Escuna Portuguesa NEREIDA, a tripulação foi salva a muito custo. O valor do navio com todos os pertences foi calculado em 7.000 reis. A carga não era significativa, apenas existia a bordo uma pequena quantidade de pedra de cal vinda de Lisboa.

Escuna Inglesa LADY ANA, os oito tripulantes foram salvos, porém o navio e a carga perderam-se. Calculou-se que o valor do navio rondaria os 2.800$000 reis.

Brigue Francês ALLAH KÉRIM. Infelizmente faleceram dois elementos da tripulação tendo-se salvo os restantes seis. A razão das mortes foi em consequência de se ter virado o bote em que tinham saltado O Navio estava seguro em 16.000 francos e não tinha carga a bordo.

Escuna Inglesa KING ALFRED. Graças ao vapor S. Jorge que lhe mandou um bote, foi possível aos 8 tripulantes salvarem-se. O navio estava seguro em 700 libras, tendo-se perdido cerca de 135 toneladas de carvão.

MARGARIDA LEONOR ,foi outra embarcação que naufragou, tendo-se salvo toda a tripulação e parte da carga composta de pipas de vinho e sacos de café.

Barca Americana NORTHSEA. Pressupoe-se que a tripulação tenha sido toda salva, uma vez que a notícia nada refere. Sómente é feita referência ao valor do navio 36.000$000 reis e à carga composta de  trigo, pau campeche e aduela que foi calculada em 16 e 17 contos de reis. Pela natureza da carga depreende-se que seria proveniente de Nova Orleães, porto donde era habitual a importação deste tipo de carga.

WILLIAM MORGAN DAVIES foi outro navio que naufragou. Salvou-se a tripulação com excepção de um homem. O navio estava em lastro e o seu valor estimado era de 1400 libras.

 

Fontes: A Aurora do Lima: 05-03-1858

Viana do Castelo

Manuel de Oliveira Martins

 

publicado por dolphin às 19:20

18
Mar 10

A costa portuguesa era justamente apelidada no século XIX de "costa negra", em resultado da falta de faróis que balizassem os inúmeros perigos que existiam para quem navegasse junto à costa ou dela pretendesse aproximar-se.

Na costa norte de Portugal  a ausência de faróis era um facto relatado e sabido dos navegantes que por mor disso evitavam a aproximação, a não ser por motivos imprevistos, caso de nevoeiro, mau tempo, avaria ou outro caso fortuito.

Sómente em 31-10-1902 é nomeada uma comissão composta por: Capitão de Mar e Guerra Patrício Ferreira que presidia, Capitão de Fragata Schultz Xavier e 1.º Tenente Oliveira, com o fim de estudar e propor os aparelhos ópticos e diferentes faróis a adoptar com vista a substituir nas futuras instalações conforme o plano de alinhamento e balizagem dos portos.

O Farol de Montedor começou a ser estudado em 1883 e só em 25-03-1910 foi inaugurado.

Como se depreende destes dois exemplos, o atraso em dotar a nossa costa de meios que permitissem aos navegantes navegar com segurança ao longo da costa portuguesa era notório e a própria demanda dos portos era uma aventura que teria de ser bem planeada em função de condições atmosféricas propícias que não pusessem em perigo a embarcação e a expedição.

Através deste blogue propomo-nos divulgar alguns casos de naufrágios que ocorreram no mar de Viana e imediações, alguns que fizeram história e deixaram marcas por muitos anos.

 

1 - NAUFRÁGIO DO IATE VALENTE 3.º

 

No dia 07-10-1857 cerca das 07.00 horas deu à costa na praia ao sul do Rego d'Anha, o iate Valente 3.º registado no porto de Esposende, que procedia de Setúbal com um carregamento de sal. O navio trazia água aberta (1) e as bombas estavam encravadas não podendo bombear a água que entrava em abundância para os porões (2).

O navio era comandado pelo mestre Manuel Pinto de Campos Júnior que  conseguiu salvar-se bem como toda a tripulação e parte dos aprestos (3).

Como é costume nestes casos a Alfândega tomou conta da ocorrência e providenciou as medidas necessárias relativamente à carga e ao navio.

Desconhecia-se se o navio tinha seguro da carga e do navio.

Glossário: (1) - Água aberta - diz-se do navio que está a meter água por um rombo no costado. (2) - Porão - espaço de carga do navio. (3) - Aprestos - Utensílios usados a bordo dos navios para o seu funcionamento.

Fontes: A Aurora do Lima 09-10-1857; 31-10-1902; 23-03-1910

Viana do Castelo, 2010-03-18

Manuel de Oliveira Martins

publicado por dolphin às 22:55

29
Dez 09

O MILAGRE...

Naquela época, em que as comunicações eram ainda muito incipientes, e não se tendo encontrado sinais da tripulação, restava a esperança que tivessem sido recolhidos por algum navio.

No dia 12-12-1913 o jornal “A Aurora do Lima” noticiava “No combóio das 7 da tarde de ante-hontem chegou a esta cidade a tripulação da chalupa “Rasoilo”, que, como desenvolvidamente noticiamos, appareceu abandonada e desmastreada ao mar da Guardia, sendo rebocada para Vigo, onde se ultimam negociações para que volte ao nosso porto.”

Entre as gentes do mar a esperança é sempre a última a morrer. Foi o que aconteceu com o mestre da chalupa “ Mensageira” que sempre acreditou que os tripulantes estavam vivos e por isso “O mestre da chalupa “Mensageira”, sr. António Machado, que é um verdadeiro crente e devoto da Virgem d’Agonia, prometteu uma missa pedida, caso os tripulantes da “Rasoilo” fossem levados a porto de salvamento.”

A explicação de como aconteceu o acidente e consequente abandono, é-nos dada pelos tripulantes em discurso directo que se transcreve na íntegra:

“Sahimos de Setúbal no dia 4 de Novembro, com destino a Vianna. A “Rasoilo” trazia carga diversa. Seriam 7 horas da manhã do dia 9, entre o Porto e Espinho, a 30 milhas(10 léguas) de longitude, uma violenta volta de mar arrebentou a vela e partiu, rente ao convés, o mastro grande.

Imagine o nosso desalento ante semelhante desastre. Só Deus nos poderia salvar. Uns rezavam, outros choravam. E olhe que o caso não era para menos!...

Só em me lembrar este bocadinho, arrepiam-se-me os cabellos!... Era um quadro digno de ver-se; um navio desmantellado, à mercê das ondas, e a sua tripulação de joelhos sobre o convés, a implorar a protecção divina!...

Mas vamos à narrativa. Depois de ganharmos um pouco de ânimo, tratamos de pôr as coisas em estado de algum caminho podermos fazer, embora entregues ao mar e tempo, pois que o navio não tinha governo.

O mastro quando cahiu arrastou a cozinha, que foi pela borda fora. Escusado será dizer que não se podia comer coisa alguma.

O navio era constantemente enxovalhado pelas vagas. Conforme podémos e fomos alliviando, para que assim resistisse ao embate das ondas e alguma volta de mar nos não limpasse. E nesta afflictiva situação nos conservamos sem que ao menos ao largo se divisasse uma vela que nos trouxesse uma leve esperança!...

Só Deus nos podia valer.

- E que tempo durou tal conjuntura?

Às 7 da manhã do dia 9 cahiu o mastro e só às 9 da manhã do dia 11 é que avistamos um vapor! O sr. não calcula a impressão que nós sentimos quando lhe vimos o fumo!

Os srs. dos jornais talvez não acreditem em Deus; pois vão para o mar, assistam aos transes afflitivos a que estão sujeitos os que por lá andam, e venham depois, por mais livres-pensadores que sejam, dizer-nos que Deus não existe.

Obtemperamos ao nosso interlocutor de que somos cathólicos, sem carolismo, e portanto crentes de que Deus existe.

Pediu-nos desculpa e prosseguiu na narrativa.

O vapor, ao qual fazíamos signal  pedindo socorro, a nós se dirigiu.

Estabeleceu-se então o serviço de salvação. O sr. não imagina o afan com que a tripulação do vapor trabalhou no lançamento, ao mar, do salva-vidas. Foi um trabalho insano! Uma lucta mais que humana! O salva-vidas no mar e os seus seis tripulantes, cada um a seu remo, eram seis leões; cada qual dando o que mais podesse para se approximar da “Rasoilo”. Foi um bocado bem difficil, mas na graça de Deus e Maria Virgem, cá estamos em terra firme.

O mestre não queria abandonar o navio; mas nós e os nossos salvadores, que bem reconheciam a emminência do perigo, impozemo-nos e elle não teve remédio senão abandonar a nossa querida “Rasoilo”.

(O nosso interlocutor emocionou-se e teve um momento de pausa, parecendo engulir as lágrimas).

Pedimos ao comandante do vapor para rebocar a chalupa, mas elle disse que o mar era muito e por isso só podia salvar as vidas.

Depois approximou-se um vapor de cabo submarino e a seguir passou um paquete, que parou, para nos prestar auxilio, que não necessitavamos por já estarmos a bordo do “Scawby”, navio de 6.010 toneladas.

O commandante disse-nos que ia telegrafar para terra participando levar náufragos a bordo. Pedimos para nos deixar no porto mais próximo; não esteve pelos autos, allegando, e com razão, o violento temporal que fazia; e lá fomos até Newport.

Que santo homem elle é. Que de carinhos elle nos dispensou! Ainda há boas almas!

A tripulação tambem não teve mais que nos fazer.

Em Newport estivemos cinco dias e fomos sempre muito bem tratados.

A propósito: Diga no seu jornal aquillo que já hontem lhe pedimos quando fomos à redacção. O nosso reconhecimento ao capitão do vapor “Scawby”, aos marinheiros e aos consules portugueses. Diga que os marinheiros da “Rasoilo” lhes beijam as mãos reconhecidamente.”(1)

Foram rezadas missas a pedido do sr. António Machado, mestre da chalupa “Mensageira” e no dia seguinte em cumprimento de voto da tripulação da “Rasoilo”, ambas acompanhadas por vozes e orquestra de Carvalho& Cruz.

 

Viana do Castelo, 2009-12-28                                                                    

 Manuel de Oliveira Martins

_________________________

(1)-A Aurora do Lima - 15-12-1913

 

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28
Dez 09

 

CHALUPA “RAZOILO”

 

 

 Chalupa "Razoilo"

 

A chalupa de comércio “Razoilo” de 260 toneladas, foi construída em 1896 para os armadores Razoilo e Batata, de Aveiro e João Màcara, de Olhão, tendo como mestre, distinto na arte de navegar, Manuel Batata.

Durante muitos anos foi utilizada pelo comércio vianense no transporte de vinho verde, madeiras e milho para Lisboa e no retorno carregava sal de Setúbal para a seca do bacalhau.<!--[if !supportFootnotes]-->[1]<!--[endif]-->

Foi numa das viagens de Setúbal para Viana que se deu o acidente que a seguir se descreve, motivado pelo temporal que no mês de Novembro de 1913 assolou a costa e território de Portugal, causando naufrágios, cheias, derrube de árvores e estragos diversos por todo o território continental, conforme a imprensa noticiou.<!--[if !supportFootnotes]-->[2]<!--[endif]-->

O avistamento de uma embarcação desarvorada ao largo de La Guardia, cerca das 12 horas do dia 13/11/1913, por um tripulante do navio “Valhall” que ali tinha ido visitar uns parentes, fê-lo supor tratar-se de um navio português procedente do sul e, de imediato, alertou o cônsul português naquele porto galego para tomar as providências necessárias. Enquanto debatiam o que fazer, um piloto do porto de La Guardia comunicou ao ajudante de marinha daquele porto ter avistado ao largo uma embarcação necessitada de ajuda. Este oficial solicitou aos srs. Candeira Irmãos de Camposancos  o concurso do vapor de reboque “Maria”,  que estava sempre fundeado na Foz do Rio Minho, que, depois de embarcar dois práticos e um marinheiro, para auxiliar no reboque, seguiu em busca da embarcação em perigo.

Não houve necessidade de telegrafar para Leixões para mandar vir o rebocador “Tritão”, já que em Viana não existe qualquer reboque, nem de Vigo por que as operações de assistência e salvamento do pequeno rebocador “Maria” estavam a surtir efeito.

O veleiro desarvorado apresentava o mastro do traquete partido rente ao convés e a cosinha que ficava contígua tinha sido varrida eventualmente por uma volta de mar, enquanto o fogão rolava pelo convés. A roda do leme estava desmontada e o escaler fortemente amarrado sobre o porão do centro, sinal da luta travada pela tripulação para defender alguns pertences do navio da inclemência do temporal que sobre eles se tinha abatido.

Sómente a meio da tarde conseguiram estabelecer o cabo de reboque, seguindo para Vigo, devido ao estado do mar os  impossibilitar de entrar no pequeno e desabrigado porto de La Guardia, onde chegaram pela madrugada do dia 14. Logo de manhã, o capitão do rebocador, deu conhecimento do achado ao comandante de marinha, sr. Conde de Villar de Pontes que ordenou  se efectuassem as necessárias investigações, o que foi feito, tendo-se encontrado durante as buscas, numerosas cartas e outros documentos, o que levou a concluir que o capitão  da “Razoilo&Cia.” era o sr. Manuel António Caravella natural de Viana do Castelo.

Por que não foi encontrado nem o rol de bordo nem qualquer outra coisa importante e também porque sómente deixaram alguma roupa velha, levaram os investigadores a concluir que a embarcação fora abandonada, levando apenas as coisas de maior valor e importância. A carga era constituída essencialmente por sal e algumas mercadorias que, conjuntamente com algumas cartas encontradas, levou a concluir que a chalupa se dedicava à cabotagem entre Viana e portos do Sul de Portugal.<!--[if !supportFootnotes]-->[3]<!--[endif]-->

(Continua)

Viana do Castelo, 2009-12-27

Manuel de Oliveira Martins

<!--[if !supportFootnotes]-->

<!--[endif]-->

<!--[if !supportFootnotes]-->[1]<!--[endif]--> Museu Municipal - Últimos veleiros do Porto de Viana

<!--[if !supportFootnotes]-->[2]<!--[endif]--> Comércio do Porto e A Aurora do Lima - 12-11-1913

<!--[if !supportFootnotes]-->[3]<!--[endif]--> Jornal “ A Aurora do Lima” - 13 e 14-11-1913

 

publicado por dolphin às 23:06

27
Dez 09

SALVAMENTO DAS BAGAGENS E CARGA

No dia seguinte ao naufrágio do “México” entraram a barra de Viana os rebocadores “Galgo” e “Flávio” com o encargo de salvarem as bagagens dos passageiros e a carga, e não o navio como seria de esperar, o que se depreende dos protestos de mar efectuados pelo capitão.

O capitão do “México” D. Julian Oslé considerou perdido o navio, razão porque fez três protestos de mar, tendo no último, na presença do cônsul de Espanha sr. António São Miguel declarado,  ”ter empregado todos os esforços para salvar o navio; porém como o considerava perdido, pedia que se fizesse  a respectiva informação ao sr.Bretel, agente da Companhia de Seguros “ La Foncier”, para tomar conta d’elle. Este cavalheiro, por considerar que o navio ainda podia salvar-se, não tomou conta.

O sr. Oslé reiterou o seu protesto e fez o abandono.”

Apesar das autoridades marítimas, aduaneiras e fiscais terem tomado todas as medidas possíveis para evitar a pilhagem, quer de bordo quer dos objectos que deram à praia, não impediu que alguns casos fortuitos acontecessem, como foi o caso da lancha poveira “Fé em Deus”, cujo arrais e tripulantes foram presos por suspeita de desviarem grande quantidade de malas pertencentes aos passageiros do “México”. De facto esta lancha carregou alguma bagagem que depois passou para outras embarcações  que a seguir as conduziram para a praia. As contradições flagrantes em que caíram alguns tripulantes da lancha levou a que as autoridades os prendessem por suspeita.

As operações de salvamento da carga e bagagens prolongaram-se por bastante tempo por motivo da localização do navio e da dificuldade das embarcações acostarem. Um mês depois do sinistro, ainda a “A Aurora do Lima” noticiava em listagem fornecida,  graças à “amabilidade de um nosso presadissimo amigo”, os objectos retirados e encontrados do vapor “México”.

Curiosa a referência à recuperação dos paramentos religiosos da capela do navio, quando se julgava que tinham sido roubados da praia para onde tinham sido transportados (outra vez os boatos).

O café que foi possível recuperar, cerca de 75 sacas, foram exportadas por ordem dos carregadores, enquanto os demais salvados ficaram nos armazéns da Alfândega, à guarda da mesma, esperando instrucções da Companhia Transatlântica sobre a venda ou re-exportação.

Em consequência dos roubos ocorridos nas bagagens e na carga, e participados às autoridades judiciais, o capitão do navio “México” D. Julian Oslé, teve de permanecer em Viana  para prestar declarações no tribunal da comarca desta cidade, enquanto que os oficiais e restante tripulação que aqui haviam permanecido para ultimar o processo se retiravam para Espanha.

No dia 23/07/1901 o casco do “México” partia em três, obrigando a companhia salvadora a retirar o pessoal que ali trabalhava.

Fonte: “A Aurora do Lima”

Viana do Castelo, 2009-12-27

Manuel de Oliveira Martins

 

publicado por dolphin às 15:49

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