Blog que retrata os acontecimentos do mar e porto de Viana e arredores, nos bons e maus momentos, dos pequenos aos grandes senhores.

28
Ago 11

O porto de Viana do Castelo recebeu entre 22 e 26 do corrente mês o navio «E-SHIP 1» pertencente à terceira maior companhia de sistemas de energia eólica do mundo - ENERCON - que esteve à carga de três torres de aerogeradores com destino à Lituânia.

 

 


O «E-SHIP 1» é um navio do tipo Ro-Ro Heavy Lift que utiliza o efeito Magnus aplicado a quatro cilindros verticais, com 4 metros de diâmetro e 27 metros de altura acima do convés principal, denominados rotores Flettner, em homenagem ao engenheiro alemão Anton Flettner, que primeiro experimentou este tipo de propulsão em 1922/5.


 


O navio constitui um projeto inovador de construção naval, especialmente desenhado e estudado para o transporte de pás,torres,turbinas e outros componentes dos aerogeradores, podendo transportar outro tipo de carga utilizando o sistema Roll-on Roll-off.

 

 

Construído nos Estaleiros Lindenau Werft GmbH em Kiel, foi lançado à  água em 2 de Agosto de 2008. Por motivo de fecho destes estaleiros em 25 de Janeiro de 2009, só viria a ficar concluído e a efectuar a 1ª viagem em 6 de Agosto de 2010.

Apresenta como características principais: - Comprimento total- 130,42 m;Comprimento entre perpendiculares- 123,42 m;Boca- 23,99 m;Pontal-11,3 m; Calado- 7 m;Dwt- 10 020 t; Grt-12 968 t.

Para além destas características, o navio está equipado com 6 motores Mitsubishi diesel-elétricos de 16cy S16R-MTK de 1992 bhp de potência cada x 1500 rpm. A «potência ecológica» que permite uma economia de combustível da ordem dos 30 a 40% desenvolvendo uma velocidade de cerca de 16 nós, é fornecida por um grupo de caldeiras que alimentam uma turbina a vapor Siemens que faz acionar os quatro rotores Enercon que foram desenvolvidos pela Flettner.

A velocidade é aproximadamente de 17,5 nós e conferida por um hélice de passo variável. Como auxiliares de manobra possui ainda dois thrusters - 1 AV e 1 AR ( com tunel transversal).

Em termos de meios de elevação está equipado com dois guindastes instalados a bombordo com capacidade de carga de 80 e 120 toneladas. O navio tem três porões com capacidade de carga para 853 teus.

O «E-SHIP 1» foi registado no porto alemão de Emden e classificado pela Germanisher Lloyd com a classificação: 100 A5 E3 com bordo-livre 2.010 m; Navio multi-usos para cargas secas; IW NAV-OC BWM SOLAS-II-2, Reg.19 C2P49; Passaporte ambiental, equipado para transporte de contentores, equipado para transporte de carga Ro-Ro, reforçado para cargas pesadas. 


publicado por dolphin às 01:15

25
Jun 11

Até quando continuaremos a ver imagens como estas? ... até quando ...

 

 

 

 

Como estas, muitas outras fotografias que ao longo dos anos fomos tirando, preservando um património visual que os vianenses tanto estimam e se habituaram a visualizar diáriamente.

Com as recentes notícias, nada animadoras, quanto ao futuro dos Estaleiros Navais de Viana do Castelo, interrogamo-nos até quando será possível manter estes quadros vivos que registam a actividade desta indústria de construção naval que remonta aos meados do século passado (1944).

De quem é a culpa? Não sabemos e certamente não haverá ninguém que o possa afirmar em concreto. Pouco importa agora descobrir ou atribuir culpas a A, B, ou C. É tempo perdido. O que importa agora, e já, é encontrar uma solução que viabilize duma vez por todas, sem remendos, o barco que está a afundar-se. Quem anda no mar sabe que por vezes é necessário deitar carga ao mar para salvar o navio de naufragar, é custoso ter de o fazer, mas é melhor do que irem todos para o fundo. A menos que se queiram tornar todos em heróis, o que duvido.

A indústria de construção naval é ingrata, porque incerta. Tem picos. Sempre assim foi e sempre assim será. Neste momento, no Ocidente, está a atravessar uma crise, derivado à concorrência dos países asiáticos. Esta situação não vai durar eternamente, é necessário adaptar as estruturas para suportar esta fase. Tempos melhores virão, depois de se estabelecer o equilíbrio que a globalização da economia mundial gerou. Até lá é necessário que todos, mas mesmo todos(patrões e operários, governantes e cidadãos), deêm as mãos no sentido de gerarem um consenso para definirem qual é a carga que cada um tem que atirar ao mar para salvar o barco. Se assim não procederem, adeus Estaleiros Navais, adeus país. Ficaremos apenas com as memórias das fotografias que tiramos...

 

publicado por dolphin às 16:17

18
Set 10

Foi no longínquo ano de 1939 que o lugre de 4 mastros, casco em aço e motor auxiliar, entrava nas águas do Lima, para aí fazer hiberneira depois da 1.ª viagem ao mar Ártico.

Durante 26 anos fez de Viana do Castelo o seu porto de abrigo e descanso para repousar das agruras e tormentas dos mares gelados da Terra Nova e Groenlândia até à partida para nova campanha.

Um dia foi vendido pela Empresa de Pesca de Viana, em fase de renovação da frota, à Empresa Ribau da Gafanha da Nazaré.

Em 1970, fui convidado, através de um amigo, a embarcar de Imediato no S.M.Manuela. Apresentei-me ao capitão João Guilherme, mas nesse mesmo dia fui "transferido" para o Avé Maria e passado uma semana estava a matricular de piloto no Lutador para a minha 1ª viagem à pesca do bacalhau.

O S. M. Manuela foi um navio que deixou muitas saudades em Viana do Castelo não só aos que nele embarcaram como aos vianenses em geral, por isso a vinda deste navio em romagem de saudade, vai por certo trazer muita emoção e carinho aqueles que de perto viveram as partidas e chegadas como eram sentidas naqueles tempos distantes.

Esta manhã (17) não resisti à tentação de ir ver entrar o S. Maria Manuela pelo canal de acesso ao Cais Comercial, percurso diferente daquele que estava habituado a fazer no acesso à antiga Doca Comercial e tirei algumas fotos que ficarão como recordação desta visita de cortesia.

 

Entrada entre molhes

 

 

Com dois "roncadores" pelos traveses - a BB o de pedra; a EB o de aço

 

 

Rumo ao novo cais

 

 

Com a bóia de "bifurcação" por BB

 

 

Espreitando os estaleiros com o Atlântida em espera . . .

 

 

Serenamente rio acima

 

 

Com a Estação de Pilotos na amura de BB

 

 

Contemplando a cidade e o Monte de Santa Luzia

 

 

Repousando no Cais Comercial contemplando de longe a cidade

 

 

Até parece que está na Doca Comercial

publicado por dolphin às 00:56

13
Jul 10

O ENCALHE DO DIONE

 

O “Dione”, navio que deslocava 746 toneladas, tinha sido construído em 1951 nos Estaleiros de S. Jacinto para a Empresa Continental de Navegação, Lda. de Lisboa, procedia de Setúbal com sal. Desde o dia 13 de Dezembro de 1956 que se encontrava ao largo de Viana, aguardando melhoria de tempo para poder entrar.

Tendo-se verificado uma acalmia no mar no dia 18-12-1956, mas que não permitia o embarque do piloto fora da barra, o capitão anuiu à sugestou dos pilotos em demandar a barra à sua responsabilidade, seguindo instruções dos pilotos, que na embocadura da barra o aguardavam na lancha para o pilotarem.

Cerca das 15 horas, quando o navio se encontarva com a “Ponta da Tornada” pelo través de estibordo, sofreu um “... violento golpe de mar que o fez perder o governo, encalhou no baixio de areia denominado “Ponta da Tornada” ...”[1].



 

Atendendo a que o navio não conseguia safar-se pelos próprios meios, foi imediatamente pedido o auxílio do rebocador “Rio Vez” da Junta Autónoma dos Portos do Norte (JAPN) que em vão tentou o desencalhe do “Dione”, tendo desistido em virtude do navio se encontrar bem preso ao fundo e a maré vazar com grande força.

Da torre dos Pilotos (donde eram transmitidas instruções para o navio, rebocadores, lancha dos pilotos e  salva-vidas), foram dadas ordens para se estabelecerem cabos do navio para a ponta do cais do Bugio com o intuito de evitar que o navio, devido à acção do mar que batia contra o costado com ondas alterosas, fosse atirado mais para cima da Ponta da Tornada.



 

Foram tentados todos os meios para desencalhar o “Dione” (alguns deles impensáveis nos dias de hoje), enviando para bordo, quando o mar o permitiu, homens para alijar carga do navio durante a noite e “...foi ainda despejado todo o gasóleo que se encontrava a bordo e que eram bastantes toneladas[2]”.

Aproveitando a subida da maré e o alívio de carga e combustível entretanto verificado, e contando com o auxílio de mais um rebocador, pertencente à Empresa de Quebramento de Rocha da Barra “Darque”, cerca das 23 horas foi tentado novamente o desencalhe, mas mais uma vez sem sucesso.

Entretanto, com a força da enchente e o corso do mar, partiram-se os cabos que prendiam o navio ao Bugio atirando-o mais para terra até perto do cais do Cabedelo, onde existiam umas pedras que lhe provocaram alguns rombos por onde começou a meter água, agravando ainda mais a possibilidade de flutuação e desencalhe.



 

Nova tentativa foi feita na maré da tarde do dia 19 com a ajuda do rebocador “Vandoma” que entretanto fora solicitado à Direcção dos Portos do Douro e Leixões e a colaboração do “Rio Vez” que também não surtiu efeitos.

A maré da noite de 19 para 20, por ser a última maré grande da fase da lua, foi aguardada com grande expectativa e esperança, “... mas apesar da boa vontade de quantos trabalharam e dos óptimos serviços prestados pelo rebocador “Vandoma” o “Dione” manteve-se na sua crítica posição.[3]


 

Depois de tantas tentativas e quando já nada previa o desencalhe, este foi conseguido na maré da tarde do dia 23-12-1956 cerca das 19 horas entrando de seguida para o anteporto, para alívio de todos especialmente os pilotos que finalmente ficaram aliviados daquele "monstro" à entrada da barra mesmo defronte da estação de pilotagem.



Fontes:

[1] A Aurora do Lima: 21-12-1956

[2] Idem: Ibidem

[3] Idem: Ibidem

Fotos: Autor desconhecido

publicado por dolphin às 16:00

15
Jun 10


A notícia do naufrágio do iate “Helena Santa” nas camboas ao norte da barra de Viana do Castelo, no dia 16 de Novembro de 1945 pela manhã, mobilizou todos os meios humanos e materiais disponíveis na cidade naquela época.

Pouco antes do naufrágio, os pilotos tinham dado entrada ao palhabote “Maria Lucília”, mas entretanto fez-se cerração[1] e o “Helena Santa” devido à fraca visibilidade e ao mar agitado, perdeu o leme e caíu para cima da parede[2] sendo arrastado para as camboas[3] a norte da barra.

Os pilotos, o barco salva vidas João Tomaz da Costa, as duas corporações dos Bombeiros, Municipais e Voluntários, bem como uma ambulância da Cruz Vermelha, acorreram para prestar socorro aos tripulantes do malogrado iate.

O primeiro sinal de perigo foi dado pela sirene de bordo do iate naufragado, secundado pelo palhabote “Maria Lucília” e lugre “Maria Madalena” que se encontrava na doca, o mesmo fazendo o sino de Santa Catarina que também tocou a rebate.

O sr. Capitão do Porto, comandante Laurindo Henrique dos Santos assistiu às manobras de salvamento dando ordens e chegou inclusive a mandar preparar o serviço para lançar um cabo de vai-vém, o que não chegou a ser necessário devido à eficiente acção do barco salva vidas.


A barra de Viana em 1945, vendo-se a embocadura, o cais do Bugio e por fora deste as camboas onde encalhou o "Helena Santa"

 

O barco dos pilotos tripulado pelo chefe Augusto Silva, auxiliado pelos colegas Mário, Costa e Jorge, permaneceu na embocadura da barra dando instruções à tripulação do “Helena Santa”.

Os sete tripulantes do iate “Helena Santa” foram todos resgatados pelo barco salva vidas, porém, quando deram pela falta de um, não exitaram em o ir salvar do perigo que corria, depois de ter abandonado o navio num escaler e indo na direcção da barra, resgatando-o de ser tragado pelas ondas alterosas no último momento.

Faziam parte da tripulação do salva vidas os arrojados e valentes marinheiros; Leonildo Araújo,João Duarte, José Rodrigues Costa, José de Castro Alheira, Eduardo Chavarria, Jerónimo Domingues Pires, José de Castro Soares, Miguel Freitas de Lemos, José da Lomba e os irmãos João e Álvaro Vieira, hábilmente orientados pelo patrão António Gonçalves Gago.

Os tripulantes, chegados a terra, foram conduzidos na ambulância da Cruz Vermelha para o Hospital da Misericórdia, onde foram tratados a pequenas escoriações que sofreram no salvamento: João Martins dos Santos, de 36 anos, casado, mestre; António Viegas Ramos, 26 anos, solteiro, contra-mestre; Joaquim Estrela Ministro, 35 anos, 1.º Motorista; António de Sousa Pires, 34 anos, casado, 2.º Motorista; António Gonçalves de Sousa, 22 anos, solteiro, cozinheiro; José Viegas Contrinas, 42 anos, casado; Domingos Silvino Ferro, 24 anos, casado; Francisco Eduardo Alexandre, 34 anos, casado.

O iate “Helena Santa” era um barco de 115 toneladas de arqueação bruta, comandado pelo mestre João Martins dos Santos, propriedade de Roque & Filhos, de Faro e registado neste porto. Estava fretado a José Maria da Silva, de Lisboa e a força do mar desmantelou-o totalmente, dando à Praia Norte os restos do navio.

Um facto é digno de menção neste desenlace, que podia ter sido fatal se não fosse a pronta intervenção e coordenação dos meios utilizados, o sr. João Alves Cerqueira, mal teve conhecimento do sucedido e sensibilizado pela coragem e risco dos tripulantes do salva vidas, mandou-os gratificar com 500$00. Este acto prova não só a generosidade, como a grandeza de alma que este benemérito anónimo possuía e pelo qual ainda hoje muitas pessoas recordam com admiração e saudade.



[1] Cerração – nevoeiro fechado

[2] Parede –conjunto rochoso existente pelo norte da barra de Viana do Castelo

[3] Camboa - Nome dado no Norte do país a um pesqueiro formado por um muro de pedras soltas que delimita um espaço para onde o peixe que entra na Preia-mar fica retido na Baixa-mar.

Fontes: A Aurora do Lima

 

Viana do Castelo, 2010-06-15

Manuel de Oliveira Martins

publicado por dolphin às 16:42

09
Jun 10

SALVO PELA FONIA

 

Um caso insólito ocorreu em 1945 em Viana do Castelo, quando o conceituado médico oftalmologista Dr. Carlos Souto Morais, com consultório em Viana do Castelo, salvou de ficar cego o capitão do navio bacalhoeiro “Groenlândia”, sr. Manuel Viana, pessoa muito conhecida e estimada nesta cidade.

O navio “Groenlândia” encontrava-se no alto mar e o capitão, após ter dirigido as manobras de bordo, possivelmente cansado pelo esforço dispendido, foi-se deitar com a roupa molhada, tendo sido acometido de cegueira súbita, devido a resfriamento.

Perto do ”Groenlândia” encontrava-se o navio a motor “São Rui”, propriedade da Empresa de Pesca de Viana, do comando do capitão Aquiles Gonçalves Bilelo que, sabendo da existência em Viana do Castelo de um oftalmologista competentíssimo, como era o Dr. Souto Morais, contactou com o navio “Santa Maria Madalena” que se encontrava já em Viana do Castelo, depois de ter regressado da campanha daquele ano mais cedo, por ter sido escolhido para chefiar um comboio de navios, pedindo-lhe ajuda.

Atendeu o pedido o sr. capitão José Águas Ferreira dos Santos da Comissão Reguladora do Comércio do Bacalhau que nessa altura se encontrava a bordo e que imediatamente estabeleceu contacto com a empresa, encontrando o sr. João Alves Cerqueira, a quem contou o sucedido e este, num gesto de humanismo e solidariedade, próprios da sua pessoa, disponibilizou o seu automóvel a fim de ir buscar o Dr. Souto  Morais, para através da rádio T.S.F. do navio, fazer o diagnóstico do estado de saúde do capitão do “Groenlândia” e tomar as medidas que julgasse mais adequadas, para minimizar os efeitos daquela cegueira súbita que ocorrera ao capitão Manuel Viana.

Um dos primeiros jornais a ter conhecimento deste acontecimento e a dar a notícia foi o “Diário de Notícias”, através do seu correspondente nesta cidade, o senhor João da Rocha Páris Vasconcelos, que no dia 25 de Outubro, logo pela manhã, se dirigiu a bordo do “Santa Maria Madalena”, onde foi recebido pelo capitão José Águas Ferreira dos Santos, pelo 1.º maquinista sr. José Rocha e pelo sr. António Gonçalves Viana, empregado da Empresa de Pesca de Viana, para saber notícias do estado de saúde do capitão do “Groenlândia” e da reacção ao tratamento prescrito na véspera pelo dr. Souto Morais.

Aqueles cavalheiros amavelmente convidaram-no a comunicar via rádio com o capitão do navio “São Rui”, Aquiles Gonçalves Bilelo que lhes deu a boa notícia da recuperação da visão do capitão Manuel Viana.

Este foi o primeiro tratamento médico efectuado desta cidade através da T.S.F. Questionou-se na altura a falta de uma estação de T.S.F. para atendimento de apelos semelhantes feitos pelos navios no alto mar, a instalar na Estação de Pilotos ou na Capitânia.

 

Fontes:

A Aurora do Lima : 30-10-1945

 

Viana do Castelo, 2010-06-09

Manuel de Oliveira Martins

publicado por dolphin às 21:55

25
Mai 10

LUGRE "BRILHANTE"

 

O lugre "Brilhante" foi construído nos estaleiros da Companhia Marítima de Transportes e Pesca, no Largo 5 de Outubro, pelo construtor naval sr. José Lopes Ferreira Maiato, para a Sociedade Vianense de Cabotagem, Lda., pela quantia de 20.000$00.

Esta sociedade era constituída pelos srs. Jerónimo Vieitas Costa, Rodolfo Vieitas Costa, João Alves Cerqueira, José António de Matos e pela firma Magalhães & Filhos, Lda.

O lugre "Brilhante" foi lançado à água no dia 05-05-1921 e teve como primeiro comandante o Capitão da Marinha Mercante José Bixirão, de Ílhavo. O navio tinha as seguintes características: Tab - 350,670 tons ; Tal - 312,980 tons;Lpp - 47,25 m; Boca - 9,97 m ;Pontal - 3,82 m. Devido ao avançado do tempo para apetrechar e fazer o abastecimento de mantimentos e sal, não fez a campanha de 1921, aproveitando para fazer algumas viagens comerciais até à campanha do próximo ano.

Foi registado na Capitânia do Porto de Viana do Castelo no dia 7 de Junho de 1921, para o transporte marítimo, com armação de lugre de três mastros. Segundo averbamento de 27-03-1922 exarado no registo, passou nesta data a pertencer à Sociedade Nacional de Pesca, Lda. e, de acordo com a comunicação n.º 286 de 06-03-1924 da Capitânia do Porto de Aveiro passou a ter novo registo naquela praça com o nome de "Condestável".

Como era costume nos "bota-abaixo" dos navios naquela época, foi um acontecimento que mobilizou a afluência de um grande número de pessoas provenientes das redondezas. O cabo que prendia o navio ao berço, foi cortado pelo sr. Fernando Costa de Lisboa, gerente da casa Vieitas & Cia.

À noite, no restaurante da sra. D. Margarida de Lemos Pereira, a "Margarida da Praça", foi servido um lauto banquete aos mais íntimos amigos dos societários e em que participaram algumas senhoras.

De realçar o ressurgimento do "Restaurante da Praça que teve a melhor tradição como uma das casas de maiores primores culinários...". O restaurante foi gerido por outras direcções, mas retomou a direcção da sua primitiva proprietária.



 

Restaurante "Margarida da Praça"

 

A D. Margarida de Lemos Pereira, presenteou os convivas com uma lista genuinamente portuguesa, reavendo os seus antigos créditos, com um serviço primoroso.

A festa prolongou-se noite dentro com brindes e homenagens aos societários da empresa.

 

Fontes :

"A Aurora do Lima" - 13-05-1921

Capitânia do Porto de Viana do Castelo -Livro de registo de navios n.º 5

 

Viana do Castelo, 2010-05-25

Manuel de Oliveira Martins

publicado por dolphin às 22:37

18
Mai 10

O SEGUNDO SANTA LUZIA

 

Como referimos atrás, a direcção da Companhia Marítima de Transportes e Pesca, liderada pelo sr. Joaquim Soares, pôs em execução a construção, nos estaleiros da companhia, de uma nova unidade destinada à pesca do bacalhau.

Os trabalhos de construção estiveram a cargo do prestigiado mestre de construção naval sr. José Lopes Ferreira Maiato, e o navio foi concluído em escassos oito meses de trabalho intenso, com o fim de efectuar a campanha de 1921.

O navio apresentava as seguintes características:

Tonelagem de arqueação bruta (Tab)       = 325,99 toneladas

Tonelagem de arqueação líquida (Tal)      = 261,92      "

Comprimento entre perpendiculares (Lpp) = 48,10 metros

Boca (1) =  9,93 metros

Pontal (2) =  3,90 metros

Equipagem                                            = 43 tripulantes

O lugre "Santa Luzia" foi lançado à água cerca das 16.00 horas do dia 10-04-1921, domingo, nos estaleiros do Campo da Feira perante um mar de gente que aí afluiu, vinda das aldeias, em bandos alegres, para assistir ao "bota-abaixo", coisa nova para a maioria delas.



 

"Bota-abaixo" de um navio nos estaleiros do Campo da Feira

 

Era uma autêntica romaria,fazendo antever a Romaria d'Agonia "Aqui e alli, grupos de camponezas com trajes da região, cantavam e dançavam ao som da viola dedilhada por um rapagão...", assim se referia "A Aurora do Lima" a tão extraordinário evento para a cidade, onde também a alta sociedade e a juventude (feminina) participava, como se depreende pela referência "O Lima estava lindo. As suas águas, límpidas e serenas, mostravam assim como que um contentamento inesperado. Pudéra!... pois se vogavam sobre ellas pequenas embarcações conduzindo formosos palminhos de cara, que, para mais as envaidecerem, faziam das mesmas águas espelho para se verem!...".

Nesse dia de "bota-abaixo" era permitida a visita ao navio a todos sem excepção e a empresa proprietária do navio, contratava bandas filarmónicas e ranchos folclóricos para abrilhantar a festa como se percebe pela descrição, "De um lado, na estrada, um grupo de lindas cachopas dançavam o vira, ao som da philarmonica que junto ao escritório da Companhia se fazia ouvir para mais animar a cerimónia do lançamento".

Neste clima de festa se viviam os lançamentos à água dos navios nesses primórdios do Século XX. A mais alta sociedade vianense participava activamente ostentando a sua riqueza e estatuto social, cujo espelho disso, se comprova por, "Nas janellas dos prédios vizinhos, distinctas senhoras ostentavam vestidos pesados, próprios da sua edade e da sua posição, umas ostentando os seus lorgnons,(3) outras primaverilmente vestidas..."

 

Glossário:

(1) Boca - Largura máxima

(2) Pontal - Altura da quilha ao convés

(3) Lorgnon - Luneta com cabo

 

Fontes: A Aurora do Lima: 12-04-1921

Viana do Castelo, 2010-05-18

Manuel de Oliveira Martins

publicado por dolphin às 21:27

12
Mai 10

LUGRE "RIO LIMA"

 

Em 12 de Setembro de 1919 o jornal "A Aurora do Lima" fazia referência ao início da construção do lugre "Rio Lima", destinado à pesca do bacalhau nos mares da Terra Nova para a Parceria de Pescarias de Viana. O Rio Lima era o terceiro navio daquela empresa construído para esse efeito, em resultado do cumprimento do plano inicial de aquisição de três navios que só agora foi possível pôr em execução devido à guerra.

O lugre "Rio Lima" foi construído nos estaleiros da Parceria, no Largo 5 de Outubro e lançado à água no dia 22-01-1920, cerca das 15:20 horas perante numerosa assistência vinda dos mais recônditos locais de Viana e arredores, como era hábito em acontecimentos semelhantes.

Este belo navio foi construído sob orientação do mestre construtor naval sr. José Lopes Ferreira Maiato e tinha como características principais: Tonelagem de arqueação bruta 317,33 tons; tonelagem de arqueação líquida 264,42 tons; comprimento entre perpendiculares 48,00 metros; boca (1) 9,80 metros; pontal (2) 4,47 metros e alojamentos para 41 tripulantes.

A curiosidade que despertava nas pessoas o lançamento à água de um navio novo, especialmente para a pesca do bacalhau, como nos dá conta "A Aurora do Lima", é disso digno de registo "... fez com que em toda a margem, desde a Alfândega até à doca, os caes se coalhassem de gente da cidade e das aldeias próximas, e no rio uma grande porção de barcos que vogavam cheios de espectadores concorria para a bellesa d'aquelle espectáculo sugestivo e brilhante, que oxalá repetisse por muitas vezes".

Estes eventos, importantes na vida de uma empresa, eram aproveitados para festejar com autoridades, amigos e trabalhadores, que de uma forma ou de outra contribuíram para o processo, trocando impressões uns, outros dando largas à sua fogosidade e animação num convívio retemperador de energias para novas tarefas.

O momento do bota- abaixo é sempre precedido de alguma expectativa e ansiedade, mas, logo que se cortam as amarras que prendem o navio ao berço que o viu nascer e crescer, e o volume inerte desliza nos carris e mergulha nas águas calmas do Lima, estralejam os foguetes, as businas e apitos dos navios surtos no porto vibram incessantemente; assobios, palmas, clamores de alegria soam por todo o lado onde as pessoas se amontoam para ver tão importante como estranho fenómeno para muitos um "milagre", tão incrédula é a sua visão.

Um acontecimento desta natureza numa cidade da província onde tão poucas coisas dignas de monta acontecem, é sempre aproveitado para comemorar com "opíparo" banquete, como aconteceu com o lançamento à água do lugre "Rio Lima".

A casa da D. Anna Malheiro Pitta de Vasconcellos, contígua ao estaleiro, por gentileza desta senhora, foi aproveitada pela Parceria, para oferecer um lanche que foi muito concorrido por grande número de pessoas da mais alta sociedade Vianense que aos brindes dos srs. Dr. Jesus Araújo, Rodrigo de Abreu e Lima e Álvaro de Araújo desejaram as maiores prosperidades à Parceria e ao comércio em geral, agradecendo no final, em nome da empresa o sr. João Baptista Ferreira.

Terminado o lanche, nos escritórios da firma, que ficavam situados nos baixos do prédio onde este decorreu (3), foi inaugurado um "... excellente retrato do nosso ilustre amigo sr. dr. Gaspar Teixeira de Queiroz, integérrimo Juiz de Direito, que foi sem dúvida alguma, a alma mater da creação d'aquella sociedade mercantil.",como refere o "A Aurora do Lima" de 23-01-1920.

A apologia do ilustre homenageado foi feita pelo gerente da Parceria o sr. João Baptista Ferreira, também ele um fundador, enaltecendo as qualidades morais e o dinamismo e empenho que o homenageado devotou a Viana do Castelo e ao seu crescimento e engrandecimento (4).

Neste acontecimento tão importante para os Estaleiros, Parceria de Pesca de Viana e para a cidade, não podiam ficar de fora os principais intervenientes, os que deram corpo e forma a tão belo como robusto navio, dando o melhor do seu saber e do seu esforço, quantas vezes suportando riscos que a profissão comporta, que são os trabalhadores.Também para eles houve reconhecimento da Parceria que na carpintaria dos Estaleiros mandou montar uma longa mesa, onde coubessem todos, belíssimamente decorada e onde não faltou comida com abundância para todo o pessoal.

Para rematar tão brilhante festa, que movimentou muita gente na cidade, especialmente a Confeitaria Brasileira, que serviu o banquete, realizou-se nas salas do palacete, uma animadíssima e concorrida festa onde se dançou até cerca das três horas da madrugada.

Eram assim naquele tempo os "bota-abaixo" dos navios da Parceria, que primava e fazia jus em assinalar de forma impressiva tão importantes datas.

 

Glossário:

(1) Boca - largura máxima

(2) Pontal - altura da quilha ao convés

(3) Local onde se situa actualmente o restaurante "Casa de Armas"

(4) O Dr. Gaspar Teixeira de Queiroz era natural dos Arcos de Valdevez

 

Fontes:

"A Aurora do Lima": 12-09-1918;23-01-1920

 

Viana do Castelo, 2010-05-07

Manuel de Oliveira Martins


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09
Abr 10

8- NAUFRÁGIO DO "RODOLFO"

 

O palhabote "Rodolfo" era um pequeno navio de 250 toneladas, construído em 1898 nos Estaleiros do Cais Novo. Recebeu o nome em homenagem a um apaixonado pela navegação à vela, como foi no seu tempo Rodolfo Vieitas Costa.

Foi construído com um objectivo, transportar toros de madeira de 20 metros de comprimento  para a construção de pontes nas minas de S. Domingos por isso possuía uma espécie de janela aberta na prôa.

Em relação ao comprimento era um navio bastante estreito, de pequena boca, por isso com carga leve, navegava com a borda a rasto e , bem carregado, adornava muito, o que o tornava perigoso nos meses de inverno, tendo sido por isso mesmo alcunhado de "navio dos credos".

 

 

Palhabote "Rodolfo"

 

No dia 20 de Janeiro de 1909 cerca das 08.00 o palhabote "Rodolfo", da praça de Viana do Castelo, propriedade  do sr. João António Magalhães Viana Júnior, grande industrial, comerciante e armador de navios Vianense, naufragava num banco de areia formado no canal da barra, por acção da cheia do dia 22 de Dezembro de 1908.

O navio procedia de Setúbal com um carregamento de sal e cimento e estava seguro na Companhia Confiança Portuense, bem como parte do carregamento.

A tripulação, como o mar estava agitado e partia junto ao navio, para não ser posta em perigo, foi aconselhada a desembarcar e a vir para terra no barco salva-vidas, perdendo todos os seus haveres. Igualmente todos os aprestos do navio, incluindo toda a documentação e livros de bordo foram perdidos.

Foi feito telegráficamente um pedido ao Departamento Marítimo do Norte, solicitando a vinda de um rebocador e imediatamente foi dada provisão a este pedido, zarpando de Leixões o reboque "Tritão" que  chegou à barra de Viana cerca das 15.30, contudo, devido à forte agitação do mar e ao adornamento do "Rodolfo", nada pôde fazer.

O "Rodolfo" acabou desfeito pela fúria do mar que batendo contra o costado o desfez em pouco tempo.

 

Fontes: A Aurora do Lima 21-01-1908; Museu Municipal-Últimos Veleiros do Porto de Viana

Viana do Castelo, 2010-04-01

Manuel de Oliveira Martins

publicado por dolphin às 00:40

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