Blog que retrata os acontecimentos do mar e porto de Viana e arredores, nos bons e maus momentos, dos pequenos aos grandes senhores.

14
Jun 07
A rede pelágica
 
Os nossos amigos portugueses já estavam perto do pesqueiro e aprontavam as redes pelágicas (redes que pescam a meia água, variando o comprimento do cabo e a potência da máquina) com que os navios de arrasto pela popa foram equipados de construção, mas que para além de um teste no início, jamais foram utilizadas. O mestre de redes também recebeu instruções para colocar a rede pelágica pronta para largar quando chegássemos ao pesqueiro e lá foi para o convés sem muita convicção.
O nevoeiro parece que nos estava a perseguir. A zona de pesca onde estavam os arrastões franceses e portugueses, estava invadida por névoa que se estendia por toda a área de manobra utilizável.
Foi uma operação demorada a manobra de largar a rede pelágica. Era uma novidade para todos sem excepção, do convés à ponte. Cada passo era na prática uma aprendizagem, porque em teoria todos tinham umas luzes de algo que leram ou viram noutra altura ou noutro sítio. Finalmente a rede estava na água, era possível através do transdutor (sonda de rede) instalado no cabo da pana (cabo que sustenta a rede na parte superior) visualizar a bordo noutra sonda a abertura vertical da rede e orientar a mesma, subindo-a ou descendo-a em direcção ao cardume que era detectado à passagem do navio. Mais tarde verifiquei que este processo era ainda bastante incipiente, relativamente à forma, um pouco à sorte, como era efectuado, pela falta de detecção à distância do cardume com o sonar (aparelho de detecção localizado na parte de vante do costado do navio junto à quilha e que permite efectuar um varrimento direccional angular lateral e vertical) e a possibilidade de orientar a rede na direcção do cardume obtendo melhores resultados.
Seguimos na popa dos franceses e quando a detecção do cardume desaparecia davam a volta e arrastavam em sentido oposto, procurando seguir o mesmo percurso. Fizemos o mesmo mas o mais difícil estava para vir. Não conseguimos dar a volta num raio de acção curto como eles e retomar o mesmo trilho e, por outro lado, não conseguimos evitar que a rede fosse ao fundo provocando avarias. A solução era virar a rede e ver o que tinha acontecido. Os cabos estavam entrelaçados, as portas de arrasto também e a rede estava toda esgalhada na barriga (parte inferior da rede a seguir ao arraçal – cabo que sustenta a rede inferiormente), mas o saco (parte posterior da rede onde é ensacado o peixe) boiava, sinal que tinha peixe dentro. Do mal o menos, nem tudo estava perdido, há que consertar e voltar a largar. O mesmo tinha sucedido aos outros arrastões portugueses que se queixavam das redes embaraçadas e partidas.

in "Manual de Tecnologias de Pesca" da E.P.P.

 Esquema da arte de pesca pelágica

 

Enquanto estávamos parados na reparação dos estragos causados pela manobra errada que efectuamos por desconhecimento, a névoa dissipou-se, avistamos os navios franceses e pudemos verificar como é que eles efectuavam a manobra de dar a volta. Simples, rápida e eficaz. Viravam os cabos até as portas de arrasto ficarem ao lume de água actuando como leme e fazendo girar o navio quase no mesmo ponto com um raio de rotação muito curto permitindo ir retomar a mesma rota antes percorrida indo ao encontro dos cardumes anteriormente detectados.

Pena que depois de termos a rede pronta o peixe desapareceu e os franceses também, era a sina desta viagem, sempre atrasados no tempo e no momento preciso. Ainda viemos a utilizar a rede pelágica uma vez mais no norte da Ilha dos Ursos com a captura de um cardume de cerca de 200 quintais, foi um lanço lindo e limpo, peixe todo graúdo, homogéneo, vivo, a saltar na praça do peixe, enchendo-a.
 
publicado por dolphin às 23:22
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13
Jun 07
O campo de gelo
 

O Lutador durante as provas de mar
 
Um estremeção forte acordou a tripulação que se levantou de imediato e veio indagar o que tinha acontecido. A princípio pensei que abalroamos com outro navio, porque estávamos longe de terra, não era possível encalharmos e o estrondo foi seco e curto. Quando cheguei à ponte, já lá estava o capitão com o imediato que estava de quarto de serviço. O radar apresentava uma mancha de muitas milhas pela proa, pela nossa frente estava um imenso campo de gelo. O navio tinha parado mas os blocos de gelo disperso batiam no costado e faziam estremecer o navio, parece que cortavam o costado como um diamante deslizando lentamente com a corrente.

in a "Epopeia dos Bacalhaus"
Campo de gelo
Tínhamos de sair dali imediatamente. Uma observação no radar permitiu concluir que se rumássemos a sul ficaríamos livres da mancha visível no radar, mistura de growlers e névoa. Tal assim não aconteceu e cedo percebemos que a solução teria sido inverter o rumo, mas agora de nada valia mudar de direcção, a solução era avançar lentamente procurando as clareiras abertas no campo de gelo em decomposição. Tínhamos a nosso favor as noites serem curtas e haver uma luz difusa que permitia avistar as clareiras mais escuras no meio do gelo branco e seguir com precaução, sofrendo com os impactos dos pequenos blocos de gelo que quer dum bordo quer do outro, faziam mossa no costado, causando arrepios de pavor.
Perdemos a noção do tempo, redobrando a atenção ao gelo e às manobras da máquina que era preciso parar e inverter em muitos casos, para atenuar o impacto de um bloco que não tinha sido possível evitar.

in "o Grande Livro dos Oceanos"-Selecções do Reader's Digest
 
O super-petroleiro e quebra gelo "Manhattan"em 1969 lutando contra o gelo
 
Os navios que tinham ido a Reyqjavik abastecer estavam de saída e rumavam pelo sul da Islândia para a Ilha dos Ursos, nós continuávamos encurralados no campo de gelo, sem vislumbrar caminho para a saída, a nossa velocidade era pouco maior que o deslocamento do gelo que se dirigia para sul, por isso a nossa progressão era pequena correlativamente.
Parecia que estávamos no meio dum labirinto sem encontrar a saída. Imaginava-se o pior, tomaram-se precauções para a eventualidade dum rombo as baleeiras e jangadas a postos, na máquina a máxima atenção, alerta máximo.

in "O Grande Livro dos Oceanos"- Selecções do Readers Digest
O Manhattan no meio do gelo
Ninguém dormia a bordo. Todos queriam colaborar dando indicações para bombordo e estibordo. Teve que ser posta ordem nas orientações que cada um dava, mandando desocupar a ponte, para se poder trabalhar com atenção.
Ao fim de mais de dois dias de sofrimento e cansaço, respiramos de alívio quando o mar à nossa frente estava limpo de growlers. Máquina a toda a força avante rumo à costa da Noruega onde os franceses estavam a fazer boa pescaria com redes pelágicas.
 
publicado por dolphin às 22:30
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12
Jun 07
O LUTADOR
 
Fui apresentado ao Capitão do “Lutador” no dia seguinte à saída do Ave Maria.

 

 
O Lutador atracado na ponte cais do Testa e Cunha
 
O navio partia dentro de duas semanas para os mares da Terra Nova, já tinha docado (operação que consiste em colocar o navio em seco para pintar e fazer reparações diversas), estava atracado numa das pontes cais em frente à Empresa Testa & Cunha na Gafanha da Nazaré. Comecei de imediato ao serviço, porque o actual imediato Arménio, tinha feito a última semana nas funções de piloto e precisava de descansar e tratar de assuntos pessoais antes de partir para a viagem.
Dali a dias partimos para Lisboa. Deu-nos saída o senhor Borges, piloto da barra de Aveiro que veio a terminar a sua carreira como piloto da barra de Viana do Castelo.
Em Lisboa, abastecíamos de gasóleo, mantimentos e bebidas, efectuávamos a regulação de agulhas, calibração do gónio (radiogoniómetro). Por vezes íamos a Setúbal meter sal, como dessa vez, e regressávamos a Lisboa para embarcar e matricular os últimos tripulantes antes de partir para a viagem.
Saímos em meados de Abril com destino à Terra Nova, a meio da viagem, depois dos Açores, devido a informações de pesca relevantes de navios que operavam na costa oeste da Groenlândia, com quem tínhamos código,(informações mais ou menos secretas entre navios de pesca com vista a salvaguardar as capturas) rumamos em direcção ao cabo Farewell (ponta sul da ilha da Groenlândia).
Entre os navios que se encontravam a pescar na Groenlândia, estavam os popas, Santa Isabel, do comando do capitão Manuel Mendes, Santa Cristina comandado pelo capitão José Rocha e o Santa Mafalda comandado pelo capitão João São Marcos, todos pertencentes à Empresa de Pesca de Aveiro do senhor Egas Salgueiro.
Avistamos os primeiros growlers a cerca de cem milhas a sul do cabo Farewell e o capitão recomendou-me muita atenção, bem como aos vigias. Ainda largamos a rede na zona do cabo Farewell para fazer tempo à espera dos outros navios que se encontravam a pescar no banco Fillas e que navegavam para sul, mas pouco pescamos, contudo foi surpresa para mim todo o processo porque nunca tinha observado a maneira como se larga e vira a rede de arrasto. Por outro lado tive a oportunidade de ver ao vivo um bacalhau ainda a saltar. São momentos inesquecíveis que ficaram filmados na minha retina para sempre.
No dia seguinte quando entrei de quarto (período de serviço de quatro horas podendo ir até seis horas), já navegávamos para nordeste em direcção à Islândia onde se encontravam navios franceses do mesmo código a fazer boas capturas.
Antes de chegarmos aos pesqueiros da Islândia o telegrafista recebia novo comunicado dos navios franceses nossos amigos, que rumavam para a Ilha dos Ursos, situada a noroeste da Noruega, onde outros navios do mesmo grupo estavam a fazer boas pescas.
Os capitães dos quatro navios conferenciaram ao VHF (aparelho de comunicação em Frequência Muito Alta) e resolveram dar um lanço (largar ou lançar as redes por um período de tempo variável) de experiência nos bancos da costa Norte da ilha, no estreito da Dinamarca.
A experiência foi bem sucedida e atrás daquele lanço sucederam-se outros e outros, um dia, dois dias, uma semana quase, até que, o aviso de um campo de gelo vindo da costa leste da Groenlândia aproximava-se da costa norte da Islândia. Não havia muito tempo para decidir o que fazer.
Os franceses continuavam na Ilha dos Ursos a efectuar boas capturas, mais uma vez os quatro popas trocaram impressões e optaram por rumar ao encontro dos franceses. Parecia que andávamos à caça do gato e o rato sempre na cauda dos franceses. Não havia outra hipótese, os arrastões clássicos (navios que largam/viram a rede lateralmente) que operavam no Grande Norte (banco da Terra Nova) faziam capturas insignificantes e estavam a pensar rumar à Islândia ao nosso encontro.
Entretanto, os navios da EPA (Empresa de Pesca de Aveiro) pediram autorização ao armador (aquele que arma ou prepara o navio para a viagem) para irem abastecer de combustível a Reyqjavik, capital da Islândia e partiram um dia antes, enquanto nós ficamos na pesca aguardando que eles saíssem para irmos em comboio para a Ilha dos Ursos.
A proximidade do campo de gelo, empurrando-nos cada vez mais para junto da costa, obrigou-nos a meter a rede dentro e rumarmos a Leste onde esperávamos encontrar mais segurança. Fomos avançando com velocidade reduzida para dar tempo a que os outros navios saíssem de Reyqjavik, mas desconhecíamos o evoluir do campo de gelo.

in "A Epopeia dos Bacalhaus"
Distribuição do bacalhau no Atlântico Norte (segundo Wise, 1961)
Estávamos numa latitude superior ao Círculo Polar Àrtico que tangencia o norte da Islândia. Nesta altura do ano , fins de Maio, os dias são longos e o sol põe-se por pouco tempo abaixo da linha do horizonte. Ao fim do dia surgiu uma névoa rota, fruto de um dia quente de primavera num oceano quase gelado e mantivemos a rota em direcção à Ilha dos Ursos debaixo do manto de névoa que entretanto se adensou um pouco em consequência também da chegada da noite, pequena porém, para nosso alívio.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
publicado por dolphin às 23:52
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11
Jun 07
As Matrículas
 
A apresentação ao capitão Manuel Machado foi fria e tensa, apesar de já nos conhecermos informalmente como amigo do capitão Ferreira da Silva, das minhas idas à seca por ocasião das férias do Natal, porque nas férias grandes era impossível encontrá-lo, estava nos mares da Terra Nova ou Groenlândia.
Traçou-me o panorama e o programa da próxima semana quando devia apresentar-me ao serviço e que consistia nas matrículas dos pescadores da zona norte, conforme me havia já referido o capitão Ferreira da Silva.
O capitão Manuel Machado combinou apanhar-me em Oliveira de Azeméis, ponto de passagem a caminho da Capitania do Douro, primeiro local de matrícula, previamente combinada entre as partes. Acompanhavam-no o sr. Dias, guarda-livros (contabilista) da empresa e o ZéTó, escrivão, que habitualmente era recrutado para estas tarefas.
No Douro a matrícula foi rápida, apenas dois pescadores da Afurada, pertenciam à tripulação do Ave-Maria. A próxima paragem era em Vila do Conde, aí sim, concentrava-se a maioria dos pescadores, verdes e moços. Estavam concentrados à porta da Capitania aguardando a chegada do senhor capitão. Uma algazarra enorme à nossa chegada, mal o carro estacionou em frente à capitania, abeiraram-se do capitão que a custo saiu do automóvel, tantos eram os que queriam fazer pedidos e exigências:
- Ó senhor capitão veja se me leva o meu irmão de moço, o senhor prometeu-me!
Enquanto o capitão ia tentando dirigir-se para a porta da capitania, outro ameaçava-o:
- Olhe que se o meu primo não for de verde eu não vou na viagem, tome sentido!
E as perguntas e “ameaças” sucediam-se em catadupa, todos querendo chamar a atenção do capitão que pacientemente ia atendendo e sossegando os mais inconformados.
-Este é que é o novo Imediato? Veja lá se aponta bem o peixe, homem de Deus! Olhe que é o nosso ganha pão. E com este mar de questões, conseguimos finalmente chegar dentro da capitania, onde nos esperava o escrivão, já conhecido do capitão doutros anos.
-Vamos então à matrícula senhor capitão? Dizia o escrivão e lá começou a chamar um a um os pescadores primeiro, depois os verdes e por fim os moços, voltando a surgir as exigências e as negas de embarcar ( se…isto, se… aquilo), sendo necessário pôr ordem por vezes aqueles que se exaltavam por não conseguirem fazer valer as suas pretensões.
Alguns pescadores poveiros devido à proximidade da Póvoa de Varzim, apareciam para reivindicar direitos e exigir coisas antes de chegar a vez de assinar a matrícula. Era uma estratégia já conhecida do capitão que há muito sabia destes truques e a todos dava resposta duma forma sábia e convincente, não permitindo abusos nem se deixando levar por intimidações.
- Devemos tratar todos por igual, não nos devemos deixar levar na conversa, nem prometer nada: - dizia-me o capitão durante a viagem para norte.
- Se eles nos apanham um fraquinho nunca mais nos largam com exigências e chantagens. É preciso ser firme e determinado, não vacilar.
Antes de matricular na Póvoa de Varzim, fomos almoçar num restaurante poveiro já conhecido de anos anteriores, quer do capitão, quer do senhor Dias, que fazem este percurso há anos e experimentaram outros restaurantes, acabando por escolher este porque tem bom peixe a gosto de todos e fica perto da capitania.
O panorama das matrículas na Póvoa não diferiu muito das de Vila do Conde, com a vantagem de não haver tanta pressão, os queixosos e os reivindicativos, já tinham feito as suas queixas e reivindicações em Vila do Conde de manhã e, ou já tinham o que queriam ou chegaram à conclusão que de nada adiantava reclamar ou exigir porque o capitão não cedia a chantagens.
Seguiram-se as matrículas em Esposende, Viana do Castelo e Caminha, que demoraram pouco, porque o número de pescadores a matricular era reduzido, um, dois, três no máximo. O grosso dos pescadores concentrava-se em Vila do Conde (Caxinas) e na Póvoa de Varzim.
Havia ainda outras matrículas a fazer dos pescadores a sul de Aveiro, Figueira da Foz, Nazaré, Peniche e os do Algarve, normalmente da Fuzeta, mas como o navio ia a Lisboa abastecer para a viagem essas matrículas eram lá feitas.
Durante a estadia do navio em Aveiro, na semana de serviço, hospedava-me em casa do sr. Capitão e da D. Bárbara, era uma imposição deles, levavam a mal se eu lhe fizesse essa desfeita.
Um dia à noite, ao jantar, o capitão F. da Silva disse-me:
- Já não vais no Ave Maria, vais de piloto para o “Lutador”. O Lutador era um moderno arrastão de popa que eu conhecia bem porque ainda estudante na Escola Náutica, tinha-o visitado nos Estaleiros de São Jacinto, antes da viagem inaugural, durante as provas de mar e conhecera o capitão Luís António, o imediato Peixoto e o piloto Arménio Figueiredo.
Fiquei mais uma vez surpreendido, mas contente, porque era isto que sempre ambicionara, ainda nem pensava entrar na Escola Náutica, fruto da minha convivência a bordo dos navios durante as férias que passava em casa do sr. Capitão e mais tarde das conversas com os colegas de Ílhavo e Aveiro no colégio de Albergaria.
- Mas senhor capitão, quem me vai substituir no Ave Maria? – perguntei perplexo, pois sabia da dificuldade em contratar oficiais para os navios de pesca à linha, cuja sobrevivência estava prestes a terminar, por obsolescência do tipo de pesca, por falta de pescadores e devido à dureza e pouca produtividade comparada com a pesca de arrasto.
- Cada coisa a seu tempo, temos agora é de resolver o problema do Lutador, o imediato Peixoto despediu-se, vai para os Pilotos da Barra, o Arménio passa a imediato e tu vais preencher o lugar de piloto deixado vago pelo Arménio. Além disso é melhor para ti, é a pesca do futuro e vais para um navio novo e que usa tecnologia moderna.
Assim disse e assim fez, eu não tinha voto na matéria, limitei-me a aceitar. A procura por lugares num popa era feroz, eram mais de sete cães a um osso, como se costuma dizer. Estava-me a ser oferecido um lugar de mão beijada, sem que tivesse movido uma palha para o conseguir. Porquê contestar ou recusar?
O capitão Manuel Machado também não fez a viagem no Ave Maria, resolveu rumar a Luanda, mas antes teve a amabilidade de me endereçar um cartão de despedida e uma fotografia do Lutador.
 

 

 Antes de partir para Luanda ainda me enviou outro cartão de despedida. Fiquei sempre a pensar que um dia nos iríamos encontrar num navio qualquer o que não chegou a acontecer.

 

publicado por dolphin às 23:47
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10
Jun 07
PESCA DO BACALHAU – 1ª VIAGEM
 
O AVÉ MARIA
 

O navio “GANDA”, pertencente à CCN (Companhia Colonial de Navegação) estava atracado em Lisboa na Doca de Alcântara (Espanhola) no cais do lado sul, junto à sede da Companhia quando o cap. Manuel Ferreira da Silva (Sardo) entrou pelo meu camarote na companhia do comissário Pestana dos Santos, filho do despachante oficial do mesmo nome, com escritório na Rua do Arsenal, ali mesmo em frente ao Zarzuela (bar restaurante que habitualmente frequentava quando no Curso Geral de Pilotagem).
A princípio fiquei surpreendido e naquele momento vieram-me à cabeça situações dramáticas que daí a pouco bani do meu pensamento, face à pergunta do cap. Ferreira da Silva:
- Queres ir ao bacalhau no Avé Maria ?
Não sabia o que dizer, fiquei perplexo e antes que tivesse tempo de responder ele completou:
- Sabes, tenho conversado com o teu pai e ele acha que ganhas pouco na Marinha de Comércio, comparado com o que se ganha na pesca do bacalhau. Tenho uma vaga de Imediato no meu navio Avé Maria, o capitão é da minha confiança e um bom profissional, vais em boa companhia, já o conheces porque to apresentei na seca, é o Manuel Machado.
Acenei com a cabeça em sinal de assentimento relativamente a conhecer o capitão e quando ia para falar, ele continuou :
- Vais ganhar bastante mais do que o que ganhas aqui porque eu sei o teu vencimento, o teu pai disse-me quanto ganhas e vais ganhar o triplo.
- Mas, senhor capitão, eu ainda estou no princípio da minha vida de mar e não tenho experiência alguma da pesca do bacalhau; respondi atónito, face a tamanha e surpreendente oferta. Ainda não estava refeito do impacto que tinha causado em mim esta súbita e inesperada oferta de emprego, quando ele ordenou:
- Vais falar com o capitão do navio, se possível ainda hoje, pedes-lhe o bilhete de desembarque e vê se consegues estar amanhã na minha casa na Gafanha da Nazaré para te apresentar ao Capitão do Ave Maria. Quando chegar ao escritório do senhor Pestana vou telefonar ao teu pai a dar-lhe a notícia. Estou certo que ele vai ficar contente.
Ia tentar justificar-me, argumentar que não podia tomar essa atitude perante o capitão do “GANDA” em cima da hora, o navio partia para África dentro de dias, não era uma acção muito digna da minha parte, o capitão Armando Artur Soares Machado tinha sido como um pai para mim, um amigo, um professor e não merecia que lhe fizesse isto tão abruptamente, mas de nada valeu, o capitão Ferreira da Silva acenando ao sr. Pestana dos Santos para descer as escadas, ia dizendo:
- Então até amanhã, tenho de ir andando porque tenho umas coisas ainda a tratar em Lisboa e não quero perder o comboio, porque amanhã tenho muitas coisas a tratar em Aveiro. Com dois navios a apetrechar há muito trabalho. Amanhã lá te espero para te apresentar ao capitão Manuel Machado, porque para a semana são as matrículas nos portos do norte. Referia-se aos portos do Douro (Afurada), Vila do Conde (Caxinas), Póvoa de Varzim, Esposende, Viana do Castelo, Vila Praia de Âncora e Caminha.
Acompanhei-os à escada de portaló e fiquei a pensar, confuso, sem saber o que fazer e como fazer. Sabia que o comandante Armando Machado costumava passar pelo navio por volta do meio dia. Por um lado agradava-me a ideia de ir à pesca do bacalhau, mas não nesta altura e desta forma, preferia ir quando tivesse mais alguma experiência de mar, tinha pensado em tirar a carta de Piloto de 2.ª classe e depois então fazer uma viagem num arrastão de popa como piloto, por outro temia desempenhar o lugar de imediato, ainda para mais num navio de pesca à linha, sabia da dureza da vida a bordo e ainda não me sentia preparado para enfrentar tarefa tão importante e árdua.
A referência ao vencimento manietava-me o pensamento e não me deixava decidir em conformidade com o meu querer. Parecia que tinha sido propositada a menção do dinheiro que iria ganhar na viagem. O capitão F. da Silva sabia que o meu pai se endividara para eu e o meu irmão estudarmos e tirarmos um curso, a amizade que havia entre as nossas famílias, possibilitara ao meu pai em certas alturas de dificuldade para pagar o colégio, recorrer a ele para cumprir com essas obrigações.
Tinha que encontrar uma solução antes que o comandante do “GANDA” chegasse. Era de facto muito dinheiro que estava em jogo e a possibilidade de enveredar por uma carreira que sempre ambicionara, por outro lado era faltar aos meus princípios de dignidade, de integridade moral que sempre me fora incutida pelo meu pai, mas como, meu Deus, como?
Sentia-me baralhado, impotente, perdido no meio do oceano como um náufrago, abandonado à sua angústia, sem solução para tomar no imediato e esse imediato era dentro de uma hora quando chegasse o capitão Armando Machado. Como é que havia de abordar o assunto? Qual iria ser a reacção? Tudo isto impedia-me de racionar friamente, sem pressas e sem pressões.
A situação económica pesou substancialmente na minha decisão, aliada à referência que o capitão Ferreira da Silva fez do meu pai, deixando para traz os princípios que sempre orientaram a minha vida, mas que com certeza o meu pai iria atenuar com bons e sábios conselhos, como o fez mais tarde e que me restituíram essa dignidade e moralidade que na confusão da minha mente pensava infringir ao pedir ao capitão a cessação do meu contrato através do pedido de passagem do bilhete de desembarque.
Na verdade, mais tarde e raciocinando com serenidade, não infringira nenhuma regra ou código de conduta, porque o meu contrato tinha terminado quando o navio chegara a Lisboa e ainda não tinha assinado o rol de matrícula para nova viagem, que simbolizava em termos marítimos a assinatura de um novo contrato.
Fiquei mais calmo e com a consciência tranquila, quando no dia seguinte, instalado confortavelmente no comboio que me levaria até a Aveiro, fumava um cigarro tranquilamente deixando espairecer um sorriso de prazer reconfortante, antevendo o reencontro com o capitão Ferreira da Silva e sua esposa D. Bárbara quando chegasse a casa deles com a novidade, já esperada, de embarcar num navio da Empresa de Pesca de Lavadores, Lda., assim se chamava a firma que detinham em sociedade com o mestre Manuel Maria Bolais Mónica e a D. Utelina, viúva do Sr. Conde, pais do amigo Tozé Conde, mais tarde Eng.º Conde que veio a ocupar o seu lugar na empresa, já eu estava em Viana do Castelo nos Pilotos da Barra.
O capitão Ferreira da Silva veio-me buscar à estação da CP em Aveiro no seu Opel último modelo que fazia questão em trocar sempre que surgia no mercado o mais moderno.
- Fizeste bem Manuel, não te vais arrepender, o teu pai está contente, já telefonei a dar a notícia. Amanhã vais a casa depois de te apresentar ao capitão Manuel Machado e receberes as instruções que ele tem para te dar. Não te esqueças que agora és o Imediato do Ave Maria e como deves calcular é um lugar de muita responsabilidade.
Enquanto ele falava eu ia pensando que não tinha transmitido ao meu pai a minha decisão, preferia transmitir-lha pessoalmente, ler-lhe nos olhos o seu assentimento e consentimento, sabia que isso lhe iria dar prazer e alegria, foi uma coisa com que sempre sonhara, ouvira-o dizer embevecido que trabalhava para que os filhos um dia pudessem ter uma vida melhor que a dele.
A senhora D. Bárbara, recebeu-me com uma doçura e carinho inolvidáveis, tecendo elogios e augurando um futuro risonho e promissor, relembrando tempos em que professora na minha terra, na serra da Senhora da Saúde, lá para as bandas de Cambra,  esperava pacientemente, sem notícias, a vinda do marido, então capitão do lugre “D. Dinis“ da Empresa Pascoal e Filhos, Lda. Que tempos, sem nada saber durante meses a fio, só quando o navio chegava à barra é que se sabia se tudo tinha corrido bem na viagem, se tinha morrido alguém, o navio arvorava uma bandeira preta em sinal de luto. Hoje é tudo muito diferente, há a rádio, mandam telegramas e cartas pelo Gil Eanes, navio hospital de apoio à frota bacalhoeira à linha, a frota branca como é conhecida em St. John’s da Terra Nova, por o costado dos navios ser pintado de branco. Quem diria que um dia o filho do Armando, o Manuelsinho, como ela carinhosamente me tratava, havia de ser um oficial Imediato do Ave Maria. Nem ela, nem eu, supunha naquele momento que tal não ia acontecer.
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18
Mar 07

 

 Porto Comercial - o Akhmeta é o 2.º a contar da esquerda

Nos anos oitenta os Estaleiros Navais de Viana do Castelo, mercê de um bom relacionamento comercial com a antiga URSS, receberam um grande número de navios de pesca, para reparação.

Como todos  os arrastões, os soviéticos eram navios de grande calado o que implicava não poderem demandar directamente os cais envolventes à zona dos Estaleiros e terem que atracar no Porto Comercial, recentemente inaugurado(o novo Porto Comercial foi inaugurado em 21 de Abril de 1984 pelo navio "BALDUR" que veio carregar bobines de papel Kraft da Portucel), aguardando maré e aliviando carga para o cais -  portas de arrasto, redes de pesca e outro material.

O Akhmeta foi um dos arrastões que teve de ir atracar no Porto Comercial por motivo do elevado calado( parte do navio abaixo da linha d'água) a ré( lado da pôpa).

Na minha vida de piloto da barra de Viana do Castelo tenho muitas histórias, umas mais outras menos interessantes. Relacionado com o Akhmeta vivi uma situação que me marcou em toda a minha vida de piloto da barra.

Embarquei na área de pilotagem mais ou menos a duas milhas( a milha maritima é cerca de 1852 metros) por volta das oito horas da manhã. Chegado à ponte de comando do navio e após os habituais cumprimentos, a primeira coisa que o capitão fez foi indicar-me por gestos uma pequena mesa situada na asa de bombordo da ponte recheada de tapas diversas, biscoitos, bolos, sanduiches, copos e garrafas de bebida entre as quais a tradicional Vodka russa.

Um parentesis para realçar que  a maioria dos capitães dos arrastões de pesca da antiga URSS não falavam inglês ou outra língua ocidental intelegível, sendo dificil as comunicações entre nós. Atendendo a essa dificuldade de entendimento preocupante, vi-me forçado a aprender, especialmente os termos náuticos básicos, as ordens para o leme e máquina e mesmo alguns termos mais comuns e que ainda recordo alguns passados tantos anos, afim de evitar males maiores e de consequências imprevisíveis.

Fiz que não entendi a chamada de atenção gestual e procurei comunicar acerca da manobra do navio como é habitual, perante uma certa incredulidade dos tripulantes presentes que me olhavam estupefactos enquanto o capitão, rigorosamente fardado, me pegava no braço e me arrastava para a mesa, acenando-me para comer e enchendo um copo de tamanho médio de vodka. Em vão tentei dizer-lhe que não me apetecia comer e muito menos beber. O oficial Imediato que "arranhava" algumas palavras em inglês, fez-me perceber através das poucas palavras que sabia que o capitão levava a mal se eu não comesse e bebesse. Consegui protelar o manjar para o fim da manobra, na esperança que entretanto ele se esquecesse.

Era a primeira vez que manobrava aquele tipo de navio com cerca de 102 metros de comprimento e não podia obter informações acerca das capacidades e atributos de manobra do navio. Durante o percurso efectuei alguns testes simples que me permitiram ter uma noção  suficiente para poder manobrar com segurança, pois tinha de contar com a falta de comunicação, só me podia fazer entender por gestos, indicando ao oficial encarregue de executar as manobras da máquina a potência que pretendia e o mesmo sucedendo com as ordens para o leme, fazendo eu próprio essa missão.

Atraquei o navio no sector  previamente determinado e enquanto aguardava que o imediato preenchesse o boletim de entrada o capitão voltou à carga, insistindo para comer e beber. Era impossível esquivar-me, ao mesmo tempo que enchia mais um copo de vodka para ele e me colocava forçadamente na mão outro copo, nasdtrovia ???, (eu sabia lá o que significava)  nasdtrovia???,(tchim-tchim) repetia ele, acenando para que bebesse e dum gole emborcou (engoliu), o conteúdo do copo enquanto eu o tentava imitar fazendo o gesto, mas evitando beber até final.

Nunca fui apreciador de bebidas brancas, muito menos vodka e para mais no estado puro. Por outro lado em serviço nunca bebo, foi uma regra que impus a mim próprio e que copiei dum piloto da barra norueguês em Tromsö, quando uma vez aportei aquele porto no arrastão de pesca português João Martins aí por volta de 1979.

Voltando ao persistente capitão Kishnjakia, assim se chamava, agarrou-me na mão e quase me me forçava a engolir o resto do vodka que deixei no copo, da primeira tentativa frustada. Fiz-lhe um sinal com a mão insinuando calma e devagar e pausadamente aos goles, lá fui bebendo o amargo líquido, enquanto ele ia fazendo mais saudações esvaziando de um trago a super alcoólica bebida.

Despedi-me sem delongas e desci atabalhoadamente as escadas do navio em direcção à escada de quebra-costas (assim se chama a escada de piloto), posicionada ao costado do lado de bombordo (lado esquerdo do navio).

Finalmente estava a salvo a bordo da lancha de pilotos e inebriado estatelei-me no sofá da casa do leme enquanto o mestre e o marinheiro, incrédulos, perguntavam o que me tinha acontecido. Entre dentes expliquei o que me sucedera. Tinha a sensação que estava a arder por dentro e um cansaço inebriante apoderava-se de mim, estava tonto e enjoado, apetecia-me vomitar. Assomei à porta da lancha e tentei deitar a carga ao mar, como se diz na gíria marítima. À segunda tentativa consegui e fiquei mais aliviado, parece que me tinha saído um novelo de fogo do estômago.Fui ao Beira-Mar (café junto à doca comercial que costumavamos frequentar)tomar um chá e fiquei melhor embora durante o resto do dia andasse estranho física e psíquicamente. Felizmente que não houve nesse dia outras manobras de entrada/saída ou mudança.

O navio Akhmeta permaneceu em Viana do Castelo cerca de um mês em reparação e efectuei várias manobras de mudança e de saída, mas avisei o agente do navio (intermediário que no porto representa o navio perante as autoridades) para instruir o capitão a não insistir nas saudações báquicas antes, durante ou após as manobras. Daí em diante o capitão seguiu à risca essas sugestões e o imediato tornou-se um colaborador excelente e um entusiasta na aprendizagem de termos técnicos náuticos em inglês e eu,  fiquei motivado a aprender termos técnicos em russo e foi assim que comecei a interessar-me pela língua russa e até comprei um livro para aprender russo.

As reparações aos navios de pesca da URSS terminaram e os contactos com a língua russa limitaram-se aos navios em construção nos Estaleiros, mais raras e por vezes não aceites, e bem, pelos capitães e oficiais desses navios que, oriundos doutra escola falavam melhor inglês.

Foi graças ao Akhmeta ter estado em Viana do Castelo em reparação e à história que acabo de narrar que hoje sei pronunciar algumas palavras em russo. Valeu a pena ter apanhado um "pifo"

 

 

 

publicado por dolphin às 16:30
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13
Mar 07

GLOBAL RIO

Uma empresa brasileira encomendou aos Estaleiros Navais de Viana do Castelo dois navios gémeos, destinados ao transporte de produtos químicos - GLOBAL RIO e GLOBAL MACEIÓ.

O GLOBAL RIO, foi entregue ao armador no dia 10-12-1985 e saiu com destino a Huelva, sob o comando do capitão da Marinha Mercante Brasileira, Walter Amaral.

O GLOBAL MACEIÓ, quando efectuava provas de mar em 17-06-86, teve um acidente nos baixos da Eira e atrasou a entrega.

Recordo-me perfeitamente do acidente. Comandava o navio o ex-colega reformado dos pilotos de Lisboa, Capitão da Marinha Mercante Joaquim António Martins, já falecido e de saudosa memória, pela sua cordialidade e amizade. Homem experiente quer como piloto da barra de Lisboa  que chegou a chefiar quer como comandante de vários navios, o comandante Joaquim Martins era contratado pelos Estaleiros Navais de Viana do Castelo, para efectuar as provas de mar da maior parte dos navios construídos nos Estaleiros. 

Nesse dia fatídico para o capitão e para o navio, cerca das dez horas deu-se uma avaria na máquina, sendo necessário substituir os injectores. Os pilotos da barra de Viana do Castelo foram contactados pelos Estaleiros de Viana para transportarem na lancha esses injectores (nesta altura a lancha dos pilotos era o único meio disponível para efectuar este tipo de serviço e era muitas vezes solicitada a sua  colaboração quando os navios iam para provas e necessitavam por vezes do transporte de pessoas e/ou materiais para o navio e vice-versa). 

Quando fomos levar os injectores ao navio, cerca das onze horas, o navio derivava com o vento norte que já se fazia sentir com alguma intensidade. Tivemos alguma dificuldade em embarcar as caixas com os injectores e perante esta situação e à relativa proximidade de terra deixei um aviso de alerta para terem em atenção a distância que o navio se encontrava dos baixos e o tempo que demorariam a substituir os injectores.

Largamos do costado do navio cerca das onze horas e trinta minutos e a viagem de regresso foi difícil porque apanhamos a vaga provocada pela nortada pela amura de bombordo e a lancha mais parecia um submarino , espetando-se de proa e embarcando mar.

Mal tinha acabado de almoçar fui contactado pelos Estaleiros para ir dar entrada ao Global Maceió que sofrera uma avaria. A lancha seguiu de imediato para o navio e quando entrei a bordo fui informado do sucedido. A manobra de substituição dos injectores demorara mais que o previsto, já era tarde para largar a âncora e o navio bateu no fundo, conseguindo arrancar com a máquina e sair da zona dos baixos agravando mais o impacto e roçando com a quilha numa extensão, que se veio a apurar depois do navio entrar em doca, de cerca de cem metros.

O navio não apresentava qualquer rombo, não tendo água aberta, nada obstava  a sua entrada. Auxiliado pelo rebocador Vandoma " e pela lancha dos pilotos que funcionava também como reboque,  entrou directamente na doca n.º 1 dos ENVC .

O protelar dos acontecimentos, sem uma definição concreta da sua realização, bem como a inobservância de certas regras básicas contribuíram   em grande parte para o precipitar da situação, redundando no acidente.

 O GLOBAL MACEIÓ, saiu para a primeira viagem, após reparação, sob o comando do Capitão Castro da Marinha Mercante Brasileira no dia 04-08-86, com destino igualmente a Huelva.

publicado por dolphin às 22:48
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10
Mar 07

                               Lancha de Pilotagem " Carvoeira do Mar"

Lancha de Pilotagem " Quebramar"

Vendo-se da esquerda para a direita, Chefe Agostinho, Piloto Martins, Mestre Zé e marinheiro João Carlos

Recordo, com nostalgia estas duas lanchas de pilotagem , que no início da minha actividade na Pilotagem no Porto de Viana do Castelo, tive o privilégio de pilotar.

A Carvoeira do Mar foi a primeira a ser construída nos Estaleiros da CARNAVE em Aveiro e já estava ao serviço em Viana do Castelo há algum tempo, quando ingressei no Departamento de Pilotagem do Porto de Viana do Castelo, como Piloto Estagiário, em 16 de Agosto de 1982. Tem o nome duma pedra da barra de Viana do Castelo, mas destinava-se ao porto de Portimão.

A Quebramar foi a segunda a ser construida e era destinada ao Porto de Viana do Castelo por ter um motor mais potente e mais tracção como rebocador, de forma a satisfazer uma carência que então se verificava no Porto de Viana, a falta de um rebocador versátil de apoio aos navios que demandavam a Doca Comercial.

Fui com o chefe sr. Agostinho Vieira e o mestre José Marques da Silva, de alcunha "o Marumba", aos Estaleiros da Carnave em Aveiro, buscar a lancha "Quebramar", mas devido às condições da barra de Aveiro não serem as melhores nesse dia, na opinião dos nossos colegas, tivemos de regressar a Viana do Castelo.

Fizemos a viagem de combóio. Saímos cerca das sete horas da Estação de Viana do Castelo com destino ao Porto, onde teríamos de mudar de combóio para Aveiro. Até ao Porto foi uma viagem em que o combóio parou em todas as estações e demorou cerca de duas horas e meia. Do Porto a Aveiro a viagem foi relativamente rápida, com uma pequena paragem na estação das Devesas em V. N. de Gaia.

Mais tarde fizemos nova tentativa para trazer a lancha "Qquebramar" para Viana, desta vez coroada de êxito, apesar de algumas peripécias. Era dificil conciliar a pilotagem com o transporte por mar da lancha e com as condições meteorológicas. Estavamos em fins de Setembro quando na costa ocidental de Portugal e especialmente na zona Norte se começa a fazer sentir alguma instabilidade em termos de ondulação prejudicando a navegação de uma embarcação de pequeno porte, como é o caso da lancha de pilotagem.

Desta vez não arriscamos a ir de combóio. Alugamos um táxi. O tempo era escasso e tinhamos de estar em Viana do Castelo no dia seguinte cerca das quinze horas para dar saída a dois navios no colo da preia-mar, não podia haver atrasos, de contrário os navios não saíriam, o que seria grave e da responsabilidade do Departamento.

Almoçamos em Aveiro e depois de contactarmos por VHF(aparelho de comunicação em Very High Frequency) com os nossos colegas da barra de Aveiro, largamos do cais da CARNAVE e rumamos para a barra. O colega Peixoto, piloto da barra de Aveiro que estava de serviço, habituado a sair e entrar inúmeras vezes nas mais adversas condições de tempo e mar, orientou-nos na saída, mas antes fizemos um compasso de espera aguardando pelo ensejo para zarparmos de Aveiro. Enquanto aguardavamos, recomendou-nos que fechassemos todas as portas e escotilhas por onde o mar pudesse entrar.

Avancem agora a toda a força. - Avisou ele e lá seguimos com o mar a partir pelo Norte e pelo Sul nos baixios que contornam a barra de Aveiro.

Esta é das grandes Agostinho! Avisava o Zé "Marumba", homem habituado e calejado nas lides do mar desde pequeno. Nasceram-me os dentes no mar,  costumava dizer em tom de brincadeira, mas desta feita não brincava porque a vaga era de respeito. Ainda mal tinha acabado a frase já uma montanha de água tinha desabado sobre a lancha, inundando tudo e escoando-se pela borda deixando um rasto de areia que trouxe consigo.

Agarre-se sr. Martins que lá vem outra, não fale agora! - Recomendava o chefe Agostinho, avisando-me, enquanto eu pousava no descanso o microfone do VHF e mal tinha tempo de me agarrar ao corrimão de acesso à casa da máquina.

Está tudo bem? - Perguntava o Peixoto pelo VHF. Ainda mal refeito do susto e a cambalear até ao microfone do VHF, lá respondi afirmativamente.

Já passaram o pior, daí para oeste está limpo, boa viagem e boa entrada em Viana. - Dizia o colega Peixoto. E lá rumamos alguns minutos em direcção Oeste até nos livrarmos dos baixios e sentirmos o mar mais calmo. O sr. Agostinho pegou no leme enquanto eu e o mestre Zé limpávamos a areia que as ondas deixaram no convés.

Revezamo-nos ao leme, navegando para Norte à vista da costa, até que por alturas do Furadouro fomos surpreendidos pela névoa e começamos a entrar por ela dentro como se estivessemos a entrar num túnel. A lancha, incompreensívelmente, não tinha sido equipada com radar.

E agora Agostinho? - inquiria o "Se Zé", como habitualmente o chefe o tratava, por ser mais velho que ele.

 Agora continuamos a navegar para norte, pode ser que a névoa se dissipe, veremos o que acontece. - Assim falava o chefe, piloto experiente da barra de Viana, com tarimba nos mares gelados da Terra Nova e Groenlândia.

Pode ser que seja do rio "Se Zé", (referia-se à névoa que normalmente se forma nas embocaduras dos rios) estamos perto da foz do rio Douro. -  Animava o piloto-chefe Agostinho. De facto, daí a um pedaço, estaríamos um pouco pelo norte de Espinho, começamos a encontrar à tona de àgua detritos diversos, pequenos pedaços de pau, sacos e embalagens de plástico, arrastados pela corrente de vazante do rio Douro.

Estou a ouvir uma sirene pela amura de Estibordo! - Disse eu, espevitando a curiosidade dos dois que assomaram à porta da lancha para escutar.

É o farol da Boa Nova, "Se Zé" proa nele, vamos para Leixões. - Assim ordenava o chefe , enquanto conversava comigo acerca da decisão a tomar, se dormirmos em Leixões ou seguirmos para Viana.

Falamos com os Pilotos de Leixões, com o Comandante Barraca, chefe do Departamento de Pilotagem dos Portos do Douro e Leixões, que nos ofereceu dormida nas instalações do Departamento e nos recomendou uma pausa para descanso. Aproveitamos para fazer alguns telefonemas para Viana a indagar da situação dos navios com saída prevista para o dia seguinte e se entretanto alguma agência anunciara movimentos. Tivemos que fazer vários telefonemas para as agências, por não haver outro contacto possível.

Convém referir que no Departamento de Pilotagem do Porto de Viana do Castelo não se encontrava ninguém, porque estavamos os três e únicos elementos a bordo da lancha. Nessa altura o Departamento não tinha funcionário administrativo, o que só viria a acontecer muitos anos mais tarde, em 1990 quando  foram inauguradas as novas instalações.

No dia seguinte, ainda persistia a névoa do rio, mas o tempo urgia, era necessário partir para chegar a tempo da maré a Viana. Por sugestão de um piloto de serviço, que não me ocorre o nome, seguimos na popa da lancha dos pilotos de Leixões, que ia levar piloto a um navio de entrada, porque pelo Norte o tempo estava claro.

Quando saímos do "túnel"de nevoeiro, o tempo estava radioso com o mar sereno e navegamos a toda a força até Viana com a costa à vista, encurtando caminho passando por cima dos baixos da Eira, situados ao sul do Porto de Viana do Castelo,(não recomendáveis passar em situações de mar e tempo adverso, especialmente dos quadrantes Oeste e Norte) mas o mar estava calmo e o tempo escasseava para dar saída aos dois navios.

Quando chegamos ao costado dos navios para verificarmos o calado (parte do navio submersa), operação rotineira do piloto, constatamos que os dois navios apresentavam maior calado que o previsto, o que complicava a saída dos dois navios pelo mesmo piloto, o sr. Agostinho (eu era ainda estagiário e segundo o regulamento não podia nem devia efectuar serviços).

Ó sr. Martins, é capaz de sair com o "Musquetier II"? - Perguntou o sr. Agostinho, espectante.

Claro. Não tenho problema (eu  estava há mês e meio a tirocinar,  mas já efectuava algumas manobras com a supervisão e acompanhamento dele), vamos a isso.

Então vamos fazer assim, eu vou na sua frente e você larga depois de mim. - Assim procedi e foi desta forma que pilotei o primeiro navio sózinho muito antes de terminar o estágio.

 

 

publicado por dolphin às 20:13
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